PRINCÍPIOS GERAIS DE UMA ECONOMIA DA PERDA
Sempre que uma discussão se apoia na palavra “útil”, sempre
que se debate um tema essencial para a vida das sociedades humanas, o debate
encontra-se necessariamente falseado e a questão verdadeira, eludida. Tal
ocorre porque, no estado atual das concepções, não há meio correto de definir o
que é útil aos homens. A própria necessidade de recorrer a princípios como
honra, dever ou espírito, invocados para justificar escolhas que ultrapassam o
útil e o prazer, revela a hipocrisia dessas justificativas, na prática, eles
servem para encobrir combinações de interesse pecuniário ou para mascarar a desordem
intelectual daqueles que rejeitam um sistema fechado. O utilitarismo clássico,
que pretende basear a ação no cálculo do prazer e da dor, não consegue
fundamentar-se de modo coerente, pois a noção de “utilidade” permanece vaga e é
preenchida arbitrariamente por valores que lhe são estranhos.
Apesar dessas dificuldades elementares, a consciência comum
e a prática corrente se apoiam no princípio da utilidade material. Essa
utilidade tem teoricamente o prazer como fim, mas um prazer moderado, pois o
prazer violento é considerado patológico, e se limita a dois domínios: de um
lado, a aquisição e a conservação dos bens; de outro, a reprodução e a
conservação das vidas humanas. A luta contra a dor também é incluída, mas já se
percebe nisso o caráter negativo do princípio do prazer introduzido na base: o
que se busca é evitar a dor mais do que alcançar um prazer positivo. Dentro
dessa série de representações quantitativas, apenas a questão da reprodução dá
margem a controvérsia, porque o aumento excessivo da população ameaça diminuir
a parte de cada um. Fora isso, qualquer julgamento sobre a atividade social
subentende que todo esforço particular só é válido se for redutível às
necessidades fundamentais da produção e da conservação. O prazer, seja na arte,
na transgressão ou no jogo, é reduzido a uma concessão, a um descanso
subsidiário; a parte mais apreciável da vida é tratada como mera condição, e
por vezes condição lamentável, da atividade social produtiva.
A essa visão restritiva, contrapõe-se a experiência pessoal,
sobretudo a de um homem “juvenil”, capaz de esbanjar e destruir sem razão. Esse
comportamento desmente a concepção utilitária, mas o próprio sujeito que age
assim, mesmo o mais lúcido, ignora por que o faz ou se imagina doente, pois não
consegue justificar utilitariamente sua conduta. Não lhe ocorre que uma
sociedade humana possa ter, como ele, interesse em perdas consideráveis, em
catástrofes que provoquem depressões tumultuosas, crises de angústia e, em
última análise, um certo estado orgíaco. Revela-se aqui um dos núcleos
fundamentais, a necessidade de dispêndio improdutivo, de consumo sem retorno,
de perda e de excesso, que a economia clássica reprime mas que é fundamental
para a vida social e psíquica.
A contradição entre as concepções sociais correntes e as
necessidades reais da sociedade pode ser comparada à relação entre um pai e seu
filho. O pai, que representa a ordem utilitária, a autoridade, a economia da
escassez, impõe ao filho uma solicitude limitada: cuida da casa, das roupas, da
alimentação e de algumas distrações anódinas, mas não permite que o filho
exprima o que verdadeiramente o perturba. O filho é obrigado a fingir que
nenhum horror o habita. Essa metáfora se estende à humanidade consciente: ela
se reconhece o direito de adquirir, conservar e consumir racionalmente, mas
exclui em princípio o dispêndio improdutivo. A humanidade permanece “menor”,
infantilizada pela autoridade paterna da utilidade. No entanto, essa exclusão é
apenas superficial. Assim como o filho, quando não está diante do pai,
entrega-se a divertimentos inconfessáveis, a humanidade também satisfaz, na
prática da vida, necessidades de uma “selvageria tocante”, vivendo no limite do
horror. As concepções oficiais, marcadas pela suficiência e cegueira paternas,
não impedem que as pessoas ajam de modo a buscar perda, excesso e transgressão.
Mas aqueles que se sentem atraídos por quem consagra sua vida à destruição da
autoridade estabelecida acabam por ver no mundo pacífico e conforme às regras
uma ilusão cômoda.
As dificuldades para desenvolver uma concepção que não seja
regulada pela relação servil entre pai e filho não são, contudo,
intransponíveis. Imagens vagas e enganosas são historicamente necessárias para
a maioria, que age com um mínimo de erro e recusa se reconhecer no dédalo das
inconsequências humanas. Uma simplificação extrema é necessária para as partes
incultas da população, a fim de evitar uma diminuição da força agressiva. Mas
não se pode tomar essas condições de miséria intelectual como limite para o
conhecimento. Uma concepção menos arbitrária, centrada no dispêndio e na
soberania, pode permanecer efetivamente esotérica, chocando-se com uma repulsa
doentia.
A atividade humana não se reduz inteiramente a processos de
reprodução e conservação. Essa afirmação já se opõe ao pressuposto da economia
clássica, que tende a considerar toda atividade como um meio para a produção e
a acumulação. Para dar conta da realidade, é necessário dividir o consumo em
duas partes distintas. A primeira é o consumo redutível: corresponde ao uso do
mínimo necessário para que os indivíduos de uma sociedade conservem a vida e
mantenham a atividade produtiva, sendo a condição fundamental da produção,
aquilo que permite que o ciclo produtivo se reproduza. A segunda parte é
formada pelos dispêndios ditos improdutivos: luxo, enterros, guerras, cultos,
monumentos suntuários, jogos, espetáculos, artes, atividade sexual perversa,
desviada da finalidade genital. Essas atividades, especialmente nas sociedades
primitivas, têm seu fim em si mesmas. O nome de “dispêndio” cabe exclusivamente
a essas formas improdutivas, excluindo todos os modos de consumo que servem de
meio à produção.
O que caracteriza esse conjunto de atividades é que, em cada
caso, a ênfase recai sobre a perda, e essa perda deve ser a maior possível para
que a atividade adquira seu verdadeiro sentido. Trata-se do “princípio da
perda” ou do “dispêndio incondicional”, que se opõe frontalmente ao princípio
econômico do equilíbrio de pagamentos, aquele que exige que todo gasto seja
compensado por uma aquisição equivalente. Esse princípio da perda só é racional
se abandonarmos o sentido estrito e restritivo de racionalidade adotado pela
economia utilitária.
Essa primazia aparece com clareza nas instituições econômicas
primitivas. À noção artificial de escambo, que a economia clássica imaginou
como origem da troca, contrapõe-se a forma arcaica identificada por Marcel
Mauss: o potlatch. Praticado pelos povos da costa noroeste da América do Norte,
o potlatch consiste em uma dádiva considerável oferecida ostentiosamente para
humilhar, desafiar e obrigar um rival a retribuir com usura. Mas não se limita
à dádiva, inclui destruições espetaculares de riquezas, a degola de escravos, o
incêndio de aldeias, o afundamento de canoas, a quebra de lingotes de cobre. A
usura, o excedente obrigatório no revide, faz lembrar o crédito bancário, mas o
essencial é que a riqueza ali não tem a função de abrigar da necessidade; ao
contrário, ela está inteiramente dirigida para a perda, e o poder do homem rico
é um poder de perder. O ideal do potlatch seria dar e não ser retribuído.
Com o desenvolvimento das sociedades, a troca adquire um sentido
aquisitivo e as fortunas se estabilizam. O dispêndio não desaparece, mas se
transforma, os elementos agonísticos do potlatch se atenuam, e a perda
ostentatória continua ligada à riqueza como sua função última, agora sob a
forma de festas, espetáculos, jogos, que as classes superiores devem custear.
Nas sociedades antigas, os ricos tinham a obrigação funcional de arcar com os
gastos dos cultos e dos jogos. O cristianismo, segundo Bataille, individualizou
a propriedade ao revogar essa obrigação, substituindo o dispêndio pagão
prescrito pela esmola livre e pelas doações à Igreja e aos mosteiros, que
passaram a assumir a função espetacular.
Na modernidade, a burguesia, ao contrário da aristocracia,
recusa-se a despender ostensivamente. Desenvolvendo sua riqueza à sombra da
nobreza, adotou uma atitude retraída, o dispêndio se faz entre quatro paredes,
de forma deprimente, e o ódio ao dispêndio tornou-se sua razão de ser. A
burguesia desenvolveu uma representação do mundo estritamente econômica, mas
sua hipocrisia não consegue esconder que a vida humana, diante dela, aparece
degradada. O povo, por sua vez, mantém profundamente o princípio do dispêndio,
vendo na existência burguesa uma vergonha.
Retoma-se a estrutura agonística do potlatch: o homem rico
despede produtos fornecidos por miseráveis, elevando-se sobre eles, criando uma
categoria de abjeção. O mundo moderno herdou essa categoria na forma do
proletariado. A burguesia, embora proclame igualdade, continua a produzir a
degradação dos operários, pois o dispêndio do patrão, seu esplendor, só se
define pela baixeza da qual é função. As tentativas de filantropia ou de
compensação são vistas como sinais de impotência, um dispêndio secundário que
atenua sem suprimir a divisão fundamental entre nobres e ignóbeis.
A vida humana não pode ser limitada a sistemas fechados; ela
só começa onde esses sistemas entram em déficit. O que a constitui é o
abandono, o escoamento, a tormenta, processos de perda que se manifestam em
todas as formas de dispêndio, das mais brutais às mais sublimes. Esses
processos geram “valores improdutivos”, dos quais o mais absurdo e mais ávido é
a glória. A glória, mesmo quando associada ao crime ou à degradação, é o objeto
do dispêndio livre. A matéria só pode ser definida pela diferença não lógica,
aquilo que escapa à economia racional, assim como o crime escapa à lei. A
glória, que resume o dispêndio, não pode ser distinguida da qualificação
insubordinada da matéria. Se compreendemos que o movimento histórico é
incontrolável e que o interesse humano está ligado a essa mudança qualitativa,
então podemos atribuir à utilidade um valor relativo. Os homens asseguram sua
subsistência e evitam o sofrimento não porque essas funções sejam fins em si,
mas para ter acesso à função insubordinada do dispêndio livre.
É necessário que se reconheça na economia um aspecto
particular da atividade terrestre como fenômeno cósmico. Na superfície do
globo, há um movimento resultante do percurso da energia no universo; a
atividade econômica dos homens apropria esse movimento, utilizando para certos
fins as possibilidades que dele decorrem. Mas esse movimento tem traçado e leis
que os homens ignoram, e dos quais dependem. A questão que se impõe é se a
determinação geral da energia que percorre o domínio da vida é alterada pela
atividade humana, ou se esta, ao contrário, é falseada por uma determinação que
ignora e não pode mudar.
O desconhecimento dos dados materiais da vida leva a
humanidade a errar. Ela explora recursos, mas se limita a resolver dificuldades
imediatas, destinando às forças que utiliza um fim que elas não podem ter. Para
além dos fins imediatos, a obra humana dá prosseguimento à realização inútil e
infinita do universo. O erro não atinge apenas a pretensão à lucidez: não é
fácil realizar os próprios fins quando se deve, para tal, realizar um movimento
que os ultrapassa. Para conciliá-los, é preciso não mais ignorar um dos termos
do acordo, sob pena de as obras se transformarem rapidamente em catástrofe.
O organismo vivo, na situação determinada pelos jogos de
energia na superfície do globo, recebe em princípio mais energia do que o
necessário para a manutenção da vida. Esse excedente de energia, essa riqueza
excedente, pode ser utilizado para o crescimento do sistema, de um organismo,
por exemplo. Mas se o sistema não pode mais crescer, ou se o excedente não pode
ser inteiramente absorvido no crescimento, é preciso necessariamente perdê-lo
sem lucro, despendê-lo, de boa ou má vontade, gloriosamente ou de modo
catastrófico.
Essa necessidade de dissipar a energia excedente sem contrapartida
é recusada pelos espíritos habituados a ver no desenvolvimento das forças
produtivas o fim ideal da atividade. Afirmar que é preciso dissipar como fumaça
grande parte da energia produzida vai contra os juízos que fundamentam uma
economia racional. Há casos em que a riqueza é destruída, como o café jogado ao
mar, mas esses “escândalos” são vistos como confissão de impotência, não como
exemplos a serem seguidos. Trata-se, no entanto, do tipo de operação sem a qual
não há saída. Se se considera na superfície do globo a totalidade da riqueza
produtiva, seus produtos só podem ser empregados para fins produtivos na medida
em que o organismo vivo, a humanidade econômica, pode aumentar seus
equipamentos. Como isso não é sempre nem indefinidamente possível, um excedente
deve ser dissipado por operações deficitárias.
O que impede essa visão é que a economia nunca é encarada em
geral. O espírito humano reduz suas operações ao tipo dos sistemas
particulares, dos organismos ou empreendimentos. A atividade econômica como
conjunto é concebida sob a forma de uma operação particular com fim limitado. A
ciência econômica se contenta em generalizar a situação isolada, limitando-se
ao homem econômico, sem levar em conta a atuação da energia que nenhum fim
particular limita, a atuação da matéria viva em geral, tomada no movimento da
luz, de que ela é efeito. Na superfície do globo, para a matéria viva em geral,
a energia está sempre em excesso; a questão é sempre de luxo, de escolha do
modo de dilapidação. É para o ser vivo particular, ou para os conjuntos
limitados, que surge o problema da necessidade.
O homem, porém, não é apenas o ser separado que disputa sua
parte de recursos. O movimento geral de exsudação, de dilapidação, da matéria
viva o anima, e ele não pode interrompê-lo. No ponto mais elevado, sua
soberania no mundo vivo o identifica a esse movimento, consagrando-o de modo
privilegiado ao consumo inútil. Se ele o nega, por causa da consciência da
necessidade própria ao ser separado, sua negação nada muda no movimento global
da energia.
O desconhecimento dessa realidade não altera a saída última; apenas nos leva a sofrer o que, se soubéssemos, poderíamos operar ao nosso modo, privando-nos da escolha de uma exsudação que nos satisfaria. Sobretudo, entrega os homens e suas obras a destruições catastróficas. Pois se não temos força para destruir a energia excedente, ela não pode ser utilizada; como um animal intato que não se pode domar, é ela que nos destrói, nós mesmos arcando com os custos da explosão inevitável. Esses excessos de força viva, que congestionam localmente as economias mais miseráveis, são os mais perigosos fatores de ruína.
As formas históricas de descongestão testemunham essa
verdade. As sociedades antigas a encontraram nas festas; algumas edificaram
monumentos admiráveis sem utilidade; hoje empregamos o excedente para
multiplicar os serviços e aumentar as horas de lazer. Mas esses derivativos
sempre foram insuficientes. Em todos os tempos, multidões de seres humanos e
grandes quantidades de bens úteis foram destinados às destruições das guerras.
Em nossos dias, a importância relativa dos conflitos armados chegou a
proporções desastrosas. Esse agravamento se relaciona ao crescimento acelerado
da atividade industrial. Inicialmente, o desenvolvimento industrial absorveu o
essencial do excedente, propiciando um período de paz relativa de 1815 a 1914.
As forças produtivas, ao aumentarem os recursos, permitiram a multiplicação
demográfica e a proliferação das fábricas. Mas o próprio crescimento tornou-se
gerador de um excedente maior. A Primeira Guerra Mundial explodiu antes que os
limites fossem de fato tocados; a Segunda Guerra Mundial veio na sequência.
Embora se negue às vezes que o excesso da produção industrial esteja na origem
das guerras recentes, foi esse excesso que ambas “exsudaram”, e foi sua grande
dimensão que lhes deu sua extraordinária intensidade.
A superfície do globo é assediada pela vida na medida do
possível; a vida ocupa todo o espaço disponível, e se algum espaço é liberado
por incêndio, vulcão ou ação humana, ele é imediatamente recolonizado. Não se trata
da pressão fechada, que termina em explosão, mas de uma pressão constante que,
uma vez atingido o limite do crescimento, faz a vida entrar em ebulição,
liberando um escoamento contínuo de recursos excedentes que devem ser
dilapidados. Nossos cálculos econômicos partem da utilidade e do interesse, mas
aqui não se trata de utilidade, se não há mais crescimento possível, o
excedente só pode ser perdido. A questão se reduz a saber se essa perda será
agradável ou desagradável, consentida ou sofrida, mas em nenhum caso pode ser
evitada.
Os efeitos dessa pressão se distribuem em dois tipos. O
primeiro é a extensão: diante da limitação de espaço, a vida multiplica as
superfícies disponíveis. O segundo efeito é a dilapidação ou luxo, quando não é
possível ampliar o espaço, instala-se uma luta na entrada, que resulta em morte
e redução do excesso. A morte não é necessária em si, pois formas simples de
vida são imortais por cissiparidade; mas diante da limitação de espaço, a vida
adota formas cada vez mais onerosas e frágeis, que culminam na morte como forma
de luxo. A história da vida na Terra não é, portanto, uma história de
crescimento contínuo, mas sobretudo uma história de exuberância, o
desenvolvimento de formas de vida cada vez mais custosas, cada vez mais
expostas à perda.
Essa exuberância se concretiza em três luxos fundamentais da
natureza. O primeiro é a manducação, a predação, o consumo de uma espécie por
outra. A diferença de rendimento energético entre cultivar vegetais e criar
animais é instrutiva: a vida animal é mais onerosa, e os grandes predadores,
como o tigre, representam pontos extremos de incandescência, onde a energia é
consumida com intensidade máxima. O segundo luxo é a morte em sua forma fatal e
inexorável, a morte reparte no tempo a passagem das gerações, abrindo espaço
para os recém-nascidos. Nós a maldizemos, mas sem ela não existiríamos; ao
maldizer a morte, tememos na verdade a nós mesmos, nossa própria vontade de
rigor que não suporta a dilapidação. O terceiro luxo é a reprodução sexuada,
que acentua a ruptura com o crescimento individual. Ela representa, para o
animal, uma súbita e frenética dilapidação de recursos, indo muito além do
necessário para a manutenção da espécie. No homem, essa dilapidação se associa
à hecatombe de bens e corpos, reunindo luxo e morte numa mesma vertigem.
A atividade humana se inscreve nesse movimento geral da
vida. De um lado, o trabalho e a técnica funcionam como um mecanismo de
extensão: abrem para a vida um espaço novo, não exatamente geográfico, mas
energético, ao acrescentar à massa viva aparelhos anexos, matéria inerte
transformada que aumenta os recursos disponíveis. O homem retoma assim o
movimento de crescimento que a vida efetua dentro dos limites do possível. O
século XIX na Europa é o exemplo mais notório dessa proliferação, em que o
crescimento industrial e o crescimento demográfico se combinaram numa expansão
sem precedentes. No entanto, esse desenvolvimento tem um duplo efeito:
inicialmente absorve o excedente, mas depois produz um excedente ainda maior.
Chega um ponto em que o crescimento se torna incômodo e a ênfase se desloca
para o luxo, para o dispêndio dos produtos. O homem, afinal, é o ser mais apto
a consumir luxuosamente o excedente de energia, pois sua técnica lhe permite
concentrar e depois dissipar as riquezas em escala planetária.
O paradoxo reside em que, no ponto culminante da
exuberância, o sentido do movimento fica encoberto. De um lado, a guerra
mecanizada aparece como algo estranho e hostil à vontade humana; de outro, a
elevação do nível de vida é reivindicada em nome da justiça, não do luxo. Sob o
julgo da justiça, a liberdade assume uma aparência neutra, subjugada às
necessidades, em vez de assumir os riscos sem os quais não há liberdade. O
sentimento de maldição está ligado a essa dupla alteração: recusa da guerra sob
sua forma monstruosa, recusa da dilapidação luxuosa como injusta. No momento em
que as riquezas são maiores do que nunca, elas adquirem a nossos olhos o
sentido de uma parte maldita, que de qualquer forma sempre tiveram, mas que
agora se torna inconfundível porque a própria abundância já não pode mais se
esconder atrás da escassez.
A angústia, o medo da morte, a recusa do dispêndio procedem
do ponto de vista pessoal, do indivíduo que teme a falta de recursos. Do ponto
de vista geral, o ponto de vista da matéria viva em seu conjunto, os recursos
existem em excesso, a morte é um contrassenso, e o problema não é a
insuficiência, mas o excesso. A economia geral não ignora a miséria nem o
crescimento, mas os situa como problemas secundários, limitados, que encontram
seu verdadeiro quadro na existência de excedentes.
O que a economia geral define, antes de tudo, é um caráter
explosivo do mundo contemporâneo, levado ao extremo da tensão. Sobre a vida humana
pesa uma maldição na medida em que ela não tem força para entravar um movimento
vertiginoso que a ultrapassa. No entanto, suspender essa maldição depende do
homem, e só pode acontecer se o movimento aparecer claramente na consciência,
se a lucidez substituir a má consciência que atribui à guerra e ao luxo a
figura do mal exterior. A proposta de elevação do nível de vida é ambígua,
porque responde à exigência de dispêndio sem a reconhecer, mas justamente por
sua ambiguidade ela provoca um maior esforço de lucidez. O espírito humano
atual, nas suas manifestações mais rigorosas, repugna soluções enfáticas e
arbitrárias; ele se liga ao trabalho lento da consciência que situa a vida
humana na medida de sua verdade, e essa verdade, por mais que se queira negá-la,
é a de uma energia que só se sustenta na perda.