GORELÍTICA
I - ACEFÁLO
II – TEMPO EXTÁTICO
Esse tempo extático é radicalmente diferente do tempo dos
filósofos, tempo linear, mensurável, sucessão de instantes, e mesmo do tempo
heideggeriano, que ainda guarda estrutura de ser para a morte, de projeção e
cuidado. A diferença é tão grande quanto a que existe entre o Cristo dos santos
eróticos, Cristo carnal, extático, transgressor, e o Deus dos filósofos gregos,
imóvel, pensamento do pensamento, transcendente. O movimento dirigido ao tempo ataca
à existência concreta, ao passo que o movimento em direção a Deus dela se desviou
durante o primeiro período, provavelmente a filosofia pré-nietzscheana, ainda
teológica ou metafísica.
Onde e como esse tempo extático pode ser encontrado: na
visão das coisas que o acaso pueril faz bruscamente sobrevirem, cadáveres,
nudezes, explosões, sangue espalhado, abismos, estalo do sol e do trovão. O
tempo extático não é contemplação serena, mas irrupção violenta e fortuita,
ligada ao corpo, à morte, à sexualidade, à catástrofe natural. É o oposto do
tempo homogêneo do relógio ou da história progressiva.
III - REVOLUÇÃO
A Revolução não deve ser considerada apenas por seus sustentáculos e resultados conscientes, as doutrinas, os programas, as instituições que dela saem. Deve ser considerada em sua aparência bruta, seja obra de puritanos, enciclopedistas, marxistas ou anarquistas. A Revolução, em sua existência histórica significativa, manifesta-se como explosão súbita de sublevações sem limites, puro movimento de insurreição que aterroriza o mundo mudo de medo. Com a Revolução, a autoridade divina cessa de fundar o poder. A autoridade não pertence mais a Deus, mas ao tempo, cuja exuberância livre mete os reis à morte, ao tempo encarnado hoje no tumulto explosivo dos povos. Mesmo o fascismo, foi forçado a se fundar sobre uma pretensa revolução, prestando homenagem hipócrita e constrangida à única autoridade imponente, que é a da mudança catastrófica. Nenhum poder moderno pode ignorar completamente a força revolucionária do tempo. O fascismo simula uma revolução para capturá-la.
IV - CRÔNICA TÉCNICA DA TERRA
Deus, os reis e sua sequela se interpuseram entre os homens e
a Terra, assim como o pai, diante do filho, é obstáculo à violação e à
possessão da Mãe. A história econômica dos tempos modernos é dominada pela
tentativa épica, mas decepcionante dos homens encarniçados em arrancar sua
riqueza da Terra. A Terra foi eventrada, mas do interior de seu ventre o que os
homens extraíram é antes de tudo o ferro e o fogo, com os quais não cessam de
se esventrar entre si. A modernidade técnica é violação da Terra que se volta
contra os próprios homens em forma de guerra e destruição.
A realidade incandescente do ventre maternal da Terra não
pode ser tocada e possuída por aqueles que a desconhecem. É o desconhecimento
da Terra, o olvido do astro sobre o qual vivem, a ignorância da natureza das
riquezas e da incandescência encerrada nesse astro, que fez do homem uma
existência à mercê das mercadorias que ele produz, cuja parte mais importante é
consagrada à morte. Enquanto os homens esquecerem a verdadeira natureza da vida
terrestre, que exige a embriaguez extática e o estalo, essa natureza não poderá
apelar à atenção dos contabilistas e economistas de todo partido a não ser abandonando-os
aos resultados mais acabados de sua contabilidade e de sua economia. A Terra
responde à ignorância com a catástrofe. A economia fechada, calculadora, não
compreende a dádiva e a destruição.
Os homens não sabem gozar livremente e com prodigalidade da
Terra e de seus produtos. A Terra e seus produtos não se prodigalizam e não se
liberam sem medida senão para destruir. A guerra átona, tal como a ordenou a
economia moderna, ensina também o sentido da Terra, mas ensina a renegados cuja
cabeça está cheia de cálculos e considerações curtas. Por isso ensina com
ausência de coração e raiva deprimente.
A Terra mesma permaneceu a velha divindade ctônica, mas com
as multidões humanas faz também cair por terra o deus do céu numa avacalhação
sem fim. A guerra total, sem propósito que a justifique, revela a pura potência
destrutiva do tempo e da Terra, abatendo qualquer transcendência celeste.
V – O CADAVER
UNIVERSAL
A busca de Deus, da ausência de movimento, da tranquilidade,
é o medo que fez soçobrar toda tentativa de comunidade universal. O coração do
homem não é inquieto somente até o momento em que se repousa em Deus. Ao
contrário, a universalidade de Deus permanece ainda para ele fonte de
inquietude. O apaziguamento não se produz a não ser que Deus se deixe fechar no
isolamento e na permanência profundamente imóvel da existência militar de um
grupo. O Deus universal, justamente por ser universal, inquieta. O que acalma é
um deus tribal, fechado numa comunidade militar, numa nação. A existência
universal é ilimitada e por isso sem repouso. Ela não refecha a vida sobre si
mesma, mas a abre e a relança na inquietude do infinito.
A existência universal, eternamente inacabada, acéfala, um
mundo semelhante a uma ferida que sangra, criando e destruindo os seres
particulares finitos, é nesse sentido que a universalidade verdadeira é morte
de Deus. O verdadeiro universal não é o Deus uno, imóvel e transcendente, mas o
movimento infinito, ferido, aberto, sem cabeça, que gera e consome todas as
formas. A ferida que sangra é a própria vida da Terra, do tempo, da comunidade
acéfala, universalidade que não se fecha em nenhuma totalidade, que não oferece
repouso, mas que é pura criação e destruição.
A morte de Deus não leva a um niilismo vazio, mas à
afirmação de um mundo acéfalo, explosivo, incandescente, onde a soberania é
destruição e a universalidade é ferida.
VI – SOCIEDADE MONOCÉFALA
A estabilidade relativa e a conformidade à lei natural não conferem a nenhuma forma política a possibilidade de parar o movimento de ruína e criação da história, nem muito menos de satisfazer de uma vez as exigências da vida. Pelo contrário, a existência social fechada e sufocada, a sociedade monocéfala e rígida, está condenada à condensação de forças de explosão decisivas. Tal condensação não é realizável no interior de uma sociedade democrática, que neutraliza antagonismos. Seria erro grosseiro imaginar que um levante explosivo tivesse por fim exclusivo ou mesmo necessário a destruição da cabeça e da estrutura unitária de uma sociedade. A mera destruição revolucionária, seguida regularmente da reconstituição da estrutura social e de sua cabeça, não é suficiente. A formação de uma estrutura nova, de uma ordem que se desenvolve e flagela através da terra inteira, é o único ato liberador real e o único possível.
A democracia repousa sobre uma neutralização de antagonismos
relativamente fracos e livres, excluindo toda condensação explosiva. A
sociedade monocéfala, unitária, com uma única cabeça, resulta do jogo livre das
leis naturais do homem, mas, quando é uma formação secundária, imposta ou
degenerada, representa uma atrofia e uma esterilidade desoladoras. A única
sociedade plena de vida e de força, a única sociedade livre, é a sociedade
bicéfala ou policéfala, que dá aos antagonismos fundamentais da vida uma saída
explosiva constante, mas limitada às formas mais ricas. A dualidade ou
multiplicidade das cabeças tende a realizar, num mesmo movimento, o caráter
acéfalo da existência, pois o princípio mesmo da cabeça é a redução à unidade.
Quando há múltiplas cabeças, nenhuma delas pode funcionar como centro absoluto.
A própria ideia de cabeça como comando unificado é minada, e a existência
torna-se, de fato, sem cabeça, acéfala.
VII – AVERSÃO À
CABEÇA
A cabeça, seja a autoridade consciente, seja Deus,
representa aquela das funções servis que se dá e se toma a si mesma por um fim.
Em consequência, deve ser o objeto da aversão mais viva. Mas é limitar o porte
dessa aversão dá-la como o princípio da luta contra os sistemas políticos
unitários. Trata-se de um princípio fora do qual uma tal luta não é mais do que
uma contradição interior. Se a aversão à cabeça se limita a uma simples
oposição política contra o Estado unitário, contra o ditador, contra Deus, sem
compreender que a própria estrutura de cabeça como função servil e
auto-finalizada é o problema, então essa luta permanece contraditória. Ela
ainda opera dentro do mesmo registro, apenas trocando uma cabeça por outra, ou
desejando uma sociedade sem cabeça sem aceitar a explosão constante dos
antagonismos.
VIII – METARMOFOSE ONTOLÓGICA
A verdadeira liberdade não está nem na democracia, que
neutraliza os antagonismos de forma fraca, nem na sociedade monocéfala, que os
comprime até explodir. Está numa organização policéfala ou acéfala, onde os
conflitos fundamentais encontram saídas explosivas permanentes, e onde a
própria noção de autoridade unificada é dissolvida. Essa existência acéfala
aproxima-se, no limite, do ideal nietzscheano de retorno ao inorgânico. Não
como morte simples, mas como libertação da especialização e da perspectiva
limitada, como síntese máxima de forças onde não há mais erro nem ilusão.
Trata-se, portanto, de uma exigência que ultrapassa a política convencional e
toca numa metamorfose ontológica da própria condição humana.
IX – O GRANDE SENHOR
DO ESTUPRO
Diante do mundo espantado que pede razões, o grande senhor
deve afirmar que Deus não existe, mas que Tibério e Nero existiram. Um fez
crucificar o filho de Deus sob Tibério, o outro jogou os discípulos aos leões.
Sendo a imortalidade da alma um engodo, trata-se de se imortalizar no mundo por
crimes mais do que por boas ações, pois o reconhecimento é passageiro enquanto
o ressentimento é eterno. Em suma, ele aceita sorrindo passar por porcão de
Epicuro, ou sê-lo, e rodeia-se de uma corte de sábios, poetas, artistas,
atores, carrascos e súditos apropriados a todos os caprichos do momento, porque
o momento é insuperável.
X – O GRANDE SENHOR
DA CELA
Ser esse senhor é uma coisa. Ser
esse grande senhor dentro de uma cela é outra. A fantasia de potência absoluta
é confrontada com a realidade do confinamento. O grande senhor na cela não tem
mais do que intenções de grande senhor, e sabe que é precisamente por ter tido
essas intenções que se encontra entre quatro paredes. Restaram apenas as
intenções. Tentou-se realizar uma parte desse admirável programa? As próprias
intenções, por si sós, eram de um peso esmagador, e entre essas paredes elas
liberam seu segredo insuportável. Em liberdade, julgava-se espiritual nomear-se
supliciado na roda. Na cela, a nobreza obriga ainda. Se nós, da raça dos
fortes, transgredimos as leis feitas para a proteção do fraco, não foi
retornando nossa própria força contra nós mesmos, para dela fazer a última
experiência, que o conseguimos? Ao fogo de nossas paixões, que sublevaram
contra nós a vontade geral, a lei, a sociedade, acendamos a chama da filosofia,
deleitemo-nos com ela incendiando o mundo. Não somos nós mesmos já um braseiro
ardente?
XI – INVERSÃO DA
FOME E DA CONSCIÊNCIA
Os esfomeados de ontem serão os
mestres de hoje, pois é preciso que cada um tenha sua vez. Mas conhecem eles a
fome que nos devora em nossa saciedade? Nós, os saciados de ontem, sofreremos
dos novos repastados, nós, esfomeados de uma nova sorte. Há aqui uma inversão.
O grande senhor preso, que antes era poderoso, agora se descobre também
faminto, mas de uma fome diferente daquela dos revoltosos. Livres,
considerávamo-nos como uma força da Natureza, agentes de suas intenções,
aceitando toda vantagem que ela oferece ao forte às expensas do fraco, prontos
a lhe restituir assim que ela o reclamasse. Entre as quatro paredes da cela,
privados de nossos alquimistas, artistas, sábios, poetas, comediantes e
vítimas, seremos nós mesmos alquimista e poeta, artista e sábio, carrasco e
comediante, comediante e vítima. Recolocados em liberdade, não teremos do
grande senhor mais do que as maneiras e os gostos, e a má consciência, pois não
seremos mais do que consciência, e seremos a consciência ela mesma.
Essa consciência, herdada como um
atavismo de ordem superior, é uma nobre má consciência. Ela nutre a constatação
escandalosa de que o mundo moderno se envilece pela ausência de escravos.
Constatação que custa caro àquele que está só a suportar as consequências, que
é o único a tirar conclusões.
XII – CADÁVER
INFINITO DE DEUS