BREVIÁRIO PARA UMA METAFÍSICA DOS AFETOS
Para participar da vida divina, é preciso morrer. A vida divina exige a morte de si mesmo, e o que a moral religiosa condena não é tanto a transgressão sexual quanto o apego à própria existência, a mediocridade, o orgulho. Porém essa moral poderia ser invertida, a mística julga e guia a vida moral, e não o contrário. O que está em jogo é um movimento de ultrapassagem, uma ruptura com a preocupação de durar. A morte de si mesmo não é um fim em si, mas a condição para uma vida mais intensa, mais próxima do que há de soberano no instante.
O voo nupcial
do zangão que, ao fecundar a rainha, morre. Esse movimento de perda total, de
entrega à morte, é análogo ao movimento do religioso que, na tentação, se vê
diante de um objeto de desejo capaz de conduzi-lo à perda de si, mas que ao
mesmo tempo o ameaça de morte espiritual. A diferença é que o religioso é
lúcido, ele sabe que ceder à tentação significaria a morte da vida divina que
busca. No entanto, uma ambiguidade persiste, a própria resistência do
religioso, fundada no cálculo da preservação da vida espiritual, pode afastá-lo
da verdadeira soberania, a qual exige uma entrega sem reservas. A “morosa
delectatio”, que é um estado em que o religioso se demora em pensamentos
culpados sem ceder ao ato, revela a tensão em que o prazer se paralisa, mas o
sentimento de morte persiste, atraindo e assustando em igual medida.
O próprio
orgasmo é popularmente chamado de pequena morte. Cada perda de energia sexual é
uma pequena morte, e é esse elemento de perda, de descontrole, que constitui a
própria excitação. O desejo não é apenas desejo de vida, mas também desejo de
se perder, de morrer sem deixar de viver, o que Santa Teresa exprimiu na frase:
“Morro de não morrer”. A morte e a vida se confundem nesse estado extremo onde
a consciência do limite é ultrapassada.
Não se
trata, porém, de negar que a renúncia à sexualidade possa conduzir a estados
místicos elevados. Torna-se necessário uma indagação: Evitar o pecado para preservar a
vida espiritual, é verdadeiramente conciliável com a indiferença que
caracteriza os estados teopáticos? Para Bataille, há aí uma
contradição, a preocupação com a conservação da vida, mesmo que espiritual,
falsifica o livre jogo da renúncia. O religioso tentado, ao resistir, age em
função do futuro, enquanto a experiência mística soberana exige uma entrega ao
instante, sem reservas. A sorte, o acaso, a contingência, tudo aquilo que o
erotismo traz consigo, não podem ser simplesmente negados em nome de um cálculo
ascético. A verdadeira soberania, para Bataille, não reside na fuga do mundo,
mas na capacidade de se abandonar ao instante, de enfrentar a angústia e a
morte sem subterfúgios. É por isso que, apesar da desordem e do risco, o
erotismo guarda uma afinidade profunda com o que os místicos buscam: ambos são
formas de aprovação da vida até na morte.
Quem foi um
dos maiores místicos presentes nesse mundinho? Sim, ele mesmo: o marquês de
Sade. A soberania dos personagens sadeanos, sua capacidade de gozar sem
limites, só adquire sentido em relação à nossa miséria, à nossa fragilidade. A
volúpia, diz Bataille, exige que a angústia exista. O prazer não seria prazer
se não fosse insustentável aos próprios olhos de quem o sente. Sade, ao
desafiar o homem normal, não faz senão explicitar essa estrutura paradoxal, o
gozo só é gozo porque é, ao mesmo tempo, horror e transgressão.
O sagrado,
antes do cristianismo, era ambíguo: comportava um aspecto violento, deletério,
que se manifestava nos sacrifícios cruéis, crianças lançadas a monstros de
metal ardente, colossos de palha cheios de vítimas humanas, mulheres esfoladas
vivas. O divino, afirma Bataille, nunca é tutelar senão uma vez satisfeita uma
necessidade de consumir e de arruinar. Esses horrores religiosos são análogos
aos horrores sadeanos. Ambos respondem a uma exigência profunda da humanidade.
No passado, essa exigência era ritualizada, limitada, separada do mundo profano
pela festa. Hoje, ela aparece como sadismo, como patologia. O homem normal, que
outrora podia ver no sacrifício uma expressão do sagrado, vê agora no sadismo
uma aberração. Porém, há uma questão intrínseca a todo esse movimento, qual
seja, essa negação da vida, essa crueldade, essa tendência à destruição, é um
acidente removível ou é constitutiva do humano?
Será que o
homem traz em si, irredutivelmente, a negação do que fundou sua humanidade, a razão, a utilidade, a ordem? Ou essa
negação é apenas uma excrescência que pode ser extirpada? Bataille formula quatro
proposições: existe na humanidade um excesso irresistível que a impele a
destruir, em acordo com a ruína inevitável de tudo o que dura; esse excesso tem
uma significação sagrada, é soberano, gratuito, um fim em si mesmo; uma
humanidade que se pretendesse estranha a essas atitudes se enfraqueceria,
tornando-se como um velho; o homem normal precisa tomar consciência desse aspecto
para limitar seus efeitos nocivos, não para negá-lo.
O carrasco,
no exercício de sua função, não fala da violência; fala a linguagem do poder,
que a justifica. A vítima, se fala, fala em protesto. Sade, que foi prisioneiro
por décadas, é uma vítima que fala. Mas sua fala é estranha: ele faz seus
personagens libertinos falarem entre si, justificando-se, demonstrando que têm
razão. Essa fala, no entanto, trai a solidão da violência. O verdadeiro
libertino seria silencioso. A linguagem de Sade, é uma linguagem que nega a
relação entre quem fala e a quem se fala. É uma linguagem que se quer da
solidão, mas que, por ser linguagem, infringe essa solidão. É a linguagem de
alguém que, na prisão, se justifica diante de si mesmo, mas que, ao escrever,
se dirige aos outros. Sade não fala como o carrasco, que se esconde atrás da
linguagem do Estado. Sade fala como a vítima. Sua linguagem é a de um homem
punido que se revolta. Mas sua revolta não se contenta com protestos
superficiais; ela vai ao fundo, contesta Deus, a natureza, os limites da
sociedade. Ao fazê-lo, ele empresta sua voz à violência, mas uma violência que,
ao ser expressa, deixa de ser pura violência.
A violência,
por definição, escapa à consciência. Quando tentamos apreendê-la pela
consciência, quando a racionalizamos, medimos, justificamos, nós nos afastamos
dela. A consciência é clara, distinta, encadeada; a violência é desregramento,
fulguração, perda. Sade preparou os caminhos para que o homem normal pudesse,
hoje, penetrar na consciência do que significa a transgressão. Ele mostrou que
o que mais violentamente nos revolta está em nós. Sua obra é escandalosa, mas é
precisamente esse escândalo que desperta a consciência. No entanto, há um
limite. Sade queria revoltar a consciência para esclarecê-la, mas não pôde
fazê-lo sem ao mesmo tempo se afastar da violência. Suas longas dissertações,
sua obstinação em demonstrar que o criminoso tem razão, são um desvio. Elas
trazem a violência para o terreno da linguagem, mas a violência, em sua pureza,
é silenciosa. Mesmo assim, sem Sade, esse domínio teria permanecido
inacessível. Foi ele quem, pelo desvio da perversidade, fez entrar na
consciência aquilo de que os homens se desviavam. Hoje, o homem normal sabe que
sua consciência deve se abrir ao que mais o revoltou, porque esse objeto de
revolta está nele mesmo.
Se, até
aqui, falamos da morte, da perda e da dissolução como dimensões centrais do
erotismo, talvez seja necessário reconhecer que essa não é sua única face. Pois
aquilo que se experimenta como perda pode também ser vivido como
intensificação, como uma abertura da vida para além de suas formas mais
estáveis.
O erotismo
não se esgota na aproximação da morte. Há nele também um movimento de expansão,
algo que não conduz ao fim, mas à variação. Nesse sentido, o desejo deixa de
aparecer apenas como transgressão ou como impulso de dissolução, e passa a ser
compreendido como força que atravessa o corpo, que o desorganiza e o
reconfigura.
É nesse
ponto que a leitura de Gilles Deleuze se aproxima, não como negação, mas como
deslocamento. O desejo não é falta, nem busca de um objeto perdido, mas
produção, fluxo, intensidade. Ele não tende ao desaparecimento, mas à
multiplicação de estados, à criação de novas possibilidades de existência.
Perder-se, aqui, não é desaparecer, mas deixar de ser o mesmo.
A
experiência erótica, assim, não se reduz à “pequena morte”. Ela pode se
prolongar como uma sucessão de intensidades nas quais o sujeito já não se
sustenta como unidade fixa. Algo nele cede, mas não se anula; algo se desfaz,
mas ao mesmo tempo se transforma. O que se rompe não é a vida, mas a forma
estável que pretendia contê-la.
Essa
perspectiva não elimina a dimensão trágica que atravessa o erotismo, mas a
reinscreve. É nesse sentido que Nietzsche se torna uma presença inevitável: não
como aquele que resolve a tensão, mas como quem a afirma. A vida não se
conserva ao evitar o excesso, mas se intensifica nele. A desmedida, a
instabilidade, até mesmo a crueldade, deixam de ser apenas ameaças e passam a
ser compreendidas como expressões de uma força que não se reduz à ordem ou à
utilidade.
Talvez seja
por isso que o erotismo inquieta de forma tão persistente. Não apenas porque
nos aproxima da morte, mas porque nos afasta de qualquer identidade fixa. O
“eu” já não se sustenta como centro, mas como algo atravessado, instável, em
constante deslocamento.
Se há, como
antes sugerido, uma exigência de ultrapassagem, ela não conduz apenas à perda,
mas também a uma forma de intensificação da vida. Não no sentido de sua
conservação, mas de sua abertura a aquilo que a excede.
O erotismo, assim, não se limita a aprovar a vida até na morte. Ele a expõe a variações que a impedem de se fechar sobre si mesma. Viver, nesse limite, já não significa permanecer, mas tornar-se outro.
O texto foi produzido em conjunto com a minha companheira, fonte de inspiração e complemento do meu Ser, cujo blog é https://mafesartreana.blogspot.com/