EXPLICAÇÕES DE UM MENTIROSO E SEDUTOR
A música não se oferece como uma arte entre as outras, um
ornamento do espírito ou um repouso para o ouvido cansado; ela é o sentimento
da vida em seu estado bruto, a pulsação de uma existência que ainda deslocada
dentre a consciência. Ela é o indecifrável, o inapreensível, o que resiste a
qualquer domesticação pela sintaxe.
Chamamos ela de erotismo puro e cego, pois reconhecemos nela
um impulso que desconhece justificativas, um movimento em direção ao outro que
não se deixa aprisionar nas texturas de uma finalidade ou de uma moral. É a
vida vibrando antes que a reflexão viesse dissecar a sua unidade palpitante.
A linguagem, e com ela essa consciência que se debruça sobre
si mesma como um Narciso atormentado, foi o corte que rompeu o cordão que nos ligava a esse imediato musical.
Nietzsche, na sua arqueologia do espírito grego, pressentiu
isso ao escavar as ruínas da tragédia ática. Lá, naquela forma ancestral que
reunia a cidade em torno do sofrimento e do êxtase, ele encontrou o último
abraço entre a música dionisíaca e a palavra apolínea. A música era a voz rouca
do Uno primordial, o grito de uma dor que se compraz em se despedaçar na
multiplicidade dos indivíduos para depois se reabsorver no todo indiferenciado.
A palavra, por sua vez, nascia como o símbolo das
aparências, a superfície luminosa que, na sua tentativa heroica e sempre
fracassada de traduzir o abismo, acabava por domesticá-lo.
Quando a dialética sofística, essa mania grega de
esquadrinhar o mistério da razão, ergueu-se na figura de Sócrates e na
dramaturgia já reflexiva de Eurípides, a música foi expulsa do centro da
cultura.
A linguagem, ao gerar a moral, o "tu deves",
tornou-se a negadora daquele fluxo inocente e caótico que a música celebra.
Kierkegaard, sentenciara que a reflexão é o veneno do imediato. A palavra,
encharcada de conceitos, de história e de mediação, tornou-se pesada demais
para tocar a inocência da experiência vivida. A linguagem é o reino do que é
mediado, do que precisa de um terceiro para se significar; a música é o reino
do imediato, o choque direto da existência contra o nosso íntimo.
Nietzsche, sonhou em recuperar a atitude do grego arcaico
diante do espetáculo dionisíaco. Essa atitude, que poderíamos chamar de
apolínea por sua capacidade de contemplar e dar forma ao horror, consiste em
assistir à própria aniquilação na dança do deus como quem observa um processo
cósmico necessário e, no fundo, jubiloso.
Ver o herói trágico ser despedaçado, ver a individuação ser
vencida pela fúria da massa coral, era para aquele olhar antigo uma pedagogia
do eterno retorno da matéria à sua origem. Kierkegaard, encontra essa mesma
possibilidade de contemplação não em um passado anterior ao Cristianismo, mas
através de suas próprias chagas. O Cristianismo não apenas não suprimiu a
possibilidade dessa experiência, como a radicalizou de uma forma que os gregos
jamais poderiam ter concebido.
Para Kierkegaard, o mundo grego vivia a sensualidade de um
modo ainda "psiquicamente determinado", integrado na economia geral
do ser como uma força entre outras, sem a fratura metafísica que viria depois.
O corpo e o desejo não eram um problema teológico; eram parte do Destino,
aceitos na sua cega necessidade.
É o Cristianismo que, ao introduzir o Espírito como
categoria absoluta e transcendente, inventa a sensualidade como princípio a ser
excluído. Ao decretar que o espírito é a via da salvação e o corpo o signo da
condenação, a nova fé cria a sensualidade como o seu oposto dialético, o seu
inimigo íntimo e indispensável.
Antes dessa cisão, a sensualidade era apenas natureza;
depois, ela se transfigura em "carne", o princípio do pecado, o
território da queda. Essa exclusão violenta, porém, gera uma energia colossal.
A consciência cristã, para se afirmar como espírito, precisa constantemente
evocar e combater aquilo que expulsou de seu centro. É por isso que ela pode
gestar figuras míticas de uma potência que a Antiguidade clássica, com seu
equilíbrio plástico, desconhecia.
O Don Juan não é apenas um sedutor; ele é a genialidade da
carne tornada absoluta. O Fausto não é apenas um sábio; ele é a genialidade do
saber tornado transgressão. Esses mitos são as sombras que a luz intensa e
vertical do espírito cristão projeta sobre o mundo.
Essa diferença na geologia teológica do Ocidente ilumina de
maneira decisiva a percepção do trágico. Na tragédia grega, Dionísio se
manifestava sob a máscara de um herói, Apolo esculpindo no sonho o rosto da
desgraça. A individuação era uma dor, sim, mas uma dor que encontrava sua
resolução no coro e na música.
A consciência cristã, ao contrário, torna a individuação um
fato irrevogável. Ao criar a alma imortal, única e responsável perante um Deus
que a perscruta no mais íntimo de seu isolamento, o Cristianismo sela a
separação do indivíduo. O eu está agora irremediavelmente só, suspenso no
abismo que o separa do Absoluto.
O espetáculo que a consciência cristã dá a si mesma não é
mais o da dissolução extática no Todo, mas o da afirmação criminosa do eu
contra o Todo, contra o próprio Deus que lhe deu essa liberdade maldita. Don Juan
é o herói dessa negação sensual. Ele é o indivíduo que usa a sua liberdade para
afirmar, num gesto de desafio metafísico, o princípio que o Cristianismo
excluiu. Por isso se diz que é somente diante da figura do Crucificado, o
símbolo máximo da individuação levada ao seu paroxismo de dor e abandono na
carne, que Dionísio se revela em sua forma suprema.
A figura de Cristo, ao levar o isolamento do indivíduo até o
grito lancinante do "Meu Deus, por que me abandonaste?", cria as
condições de pressão espiritual para que a força oposta, a da desindividuação
dionisíaca, apareça em todo o seu esplendor aterrador e necessário. É a
dialética do sagrado, o pêndulo que vai da solidão da cruz à vertigem do coro.
Quando Nietzsche anuncia a morte de Deus, ele não está
apenas proferindo uma nova variante do ateísmo. Ele está anunciando o colapso
do próprio fundamento da individuação cristã. Se o Deus que era ao mesmo tempo
o Juiz implacável, a Testemunha invisível e o Redentor último do eu individual
se retira do horizonte, o que acontece com esse eu que Ele sustentava? o eu
morre com Deus.
Perde-se a identidade eterna, a garantia de que a narrativa
singular de cada alma tem um sentido e um interlocutor final. O que emerge das
ruínas fumegantes dessa demolição é Dionísio. A experiência do eterno retorno
em Nietzsche é justamente a vertigem de se perceber não mais como um eu
substancial e único, mas como uma máscara efêmera, uma vibração passageira de
uma força cósmica cega e necessária.
O super-homem nietzschiano não é um homem mais forte ou mais cruel; é aquele que, tendo experimentado a morte do eu, quer o eterno retorno de todas as coisas, inclusive e sobretudo da sua própria dissolução. Ele desposa o movimento necessário do universo.
Kierkegaard, por sua vez, conhece como ninguém essa
nostalgia do imediato, essa saudade incurável do fatum grego, onde não havia a
angústia dilacerante da escolha individual. Mas para ele, não há retorno
possível. A ferida da individuação cristã não pode ser fechada. A existência se
dá, irremediavelmente, "no seio do pecado", isto é, na posição
insuportável e inescapável de um eu singular, fraturado, que se relaciona com o
Absoluto na angústia e no tremor. O "tornar-se si mesmo" em
Kierkegaard é um movimento de interiorização que não leva a lugar nenhum a não
ser ao aprofundamento vertiginoso da própria subjetividade. É um movimento no
lugar, uma dança imóvel diante do espelho de Deus. É o oposto simétrico do
movimento que lança Nietzsche para fora de si.
Don Juan, a encarnação do imediato erótico, é a figura
musical por excelência. A análise que Kierkegaard faz do Don Juan de Mozart não
é a de um crítico de arte, mas a de um teólogo que reconhece no som a forma
exata da sua própria tentação e da sua própria renúncia. Don Juan é a própria
força do desejo em seu estado nascente e contínuo, uma força que se esgota no
próprio instante de sua realização para renascer, idêntica e nova, no instante
seguinte.
A música é seu meio natural porque a música também é puro
dinamismo, pura sucessão de presentes absolutos que não retêm o passado nem
prometem o futuro. Kierkegaard, o noivo que renunciou à amada, ouve nessa
música a voz de suas próprias possibilidades infinitas, dos caminhos estéticos
e eróticos que ele deliberadamente não trilhou. Sua ruptura com Regina Olsen é
o ato supremo dessa renúncia sacrificial. Ele se torna, por assim dizer, um Don
Juan da Fé. Usa a máscara da infidelidade para permanecer fiel não a um corpo
no tempo, mas ao eterno que o reivindica para além de qualquer afeto terreno.
Ele converte a infidelidade, esse traço dionisíaco por excelência, em um
movimento religioso.
Depois de todo o sacrifício, depois de toda a noite escura
da alma e da renúncia ao mundo, Kierkegaard experimenta o que ele chama de
repetição, o reencontro consigo mesmo pela fé. E como ele descreve esse estado?
Ele o descreve com as imagens da mais pura e desvairada embriaguez dionisíaca.
Ele fala da dança no redemoinho do infinito, da onda que o arrasta ao abismo,
da onda que o arrebata até as estrelas. Kierkegaard reencontra, pela fé, a
mesma vertigem que Nietzsche busca na afirmação trágica do mundo sem Deus.
Ambos terminam no êxtase do infinito, um dissolvendo-se na
necessidade cega do cosmos, o outro sendo arrebatado pela liberdade infinita de
Deus. A música, essa primeira matéria universal, esse húmus sonoro que precede
a palavra e o conceito, foi o diapasão secreto que permitiu afinar essas duas
almas em uníssono, ainda que cada uma cantasse, com seu timbre próprio e
irreconciliável, uma melodia diferente da mesma e única sinfonia trágica da
existência moderna.
O pensamento que os evoca não os reconcilia nem os funde;
ele apenas mostra que a ferida da qual ambos sangram é a mesma, a ferida da
individuação, da qual nenhum dos dois conseguiu, de fato, escapar.
Nietzsche pressentiu o niilismo; Kierkegaard pressentiu o
desespero da massa. Nenhum dos dois poderia prever o tédio metafísico da era
digital, onde a sensualidade não é mais um princípio demoníaco, mas um recurso
gerenciável de bem-estar, e a fé não é mais um salto no escuro, mas uma opinião
branda. Ao evocarmos essa sinfonia trágica, talvez estejamos no fundo, tentando
nos lembrar de como era o som de uma alma que ainda doía. Porque onde há dor,
há música. E onde só há conforto, há apenas o silêncio ensurdecedor do fim da
tragédia.
Sim, da mesma forma com que o cego impulso da música
justifica sua própria existência na pura sucessão dos instantes, sem prestar
contas a nenhuma instância superior, também eu justifico cada um dos meus
movimentos de infidelidade, cada camada de silêncio e cada palavra desviada de
sua rota verdadeira.
Não se trata de uma justificativa moral, pois a moral é a
linguagem do estável e do fixo. Trata-se de uma justificativa trágica, aquela
que encontra sua necessidade não na obediência a um código, mas na conformidade
com o desdobramento de uma forma que ainda não se revelou por completo. As
infidelidades foram o meu ritmo, as mentiras foram as minhas dissonâncias. Eu
as semeei no solo das relações humanas não por perversão ou por cálculo, mas porque
pressentia que somente através dessas fraturas repetidas, somente por meio
dessa dança de esquiva e de ausência, o verdadeiro espetáculo poderia um dia se
armar diante de mim. Eu fui, ao mesmo tempo, o ator que representava o papel do
cínico e o dramaturgo que sabia que cada traição era um ato necessária até
chegar ao seu final.
Eu transbordei em todos esses acontecimentos. Não fui um
espectador frio que manipulo tudo; eu me deixei inundar pela correnteza dos
fatos, permiti que as consequências das minhas ações me afogassem e me
arrastassem. Cada ruptura que eu provocava era também uma ruptura na minha
própria carne, um pequeno despedaçamento do meu próprio eu. Eu me dissolvia na
multiplicidade dos encontros e dos desencontros que eu mesmo engendrava. A voz
que modulava a desculpa falsa era a mesma garganta que sentia o gosto pesado do
artifício.
Houve nesse transbordamento uma espécie de embriaguez
sombria, uma fúria dionisíaca contida nas formas cotidianas da vida civil.
Porque não foi a paixão que me guiou, mas o devir. Foi o devir que me trouxe
até este limiar. Eu apenas me entreguei ao movimento. O ato presente gerava a
sombra do ato futuro, e nessa cadeia de ferro forjada por minhas próprias
escolhas, eu me vi arrastado para uma fronteira onde a vista se turva e o ar se
rarefaz.
A consequência materializou-se.
Aquilo que era intenção dispersa, palavra ao vento e gesto
adiado subitamente se adensou, ganhou peso e volume, tornou-se um ato trágico
completo, irretratável, uma estátua de sal que me olha de volta com os olhos de
todos aqueles que eu feri ou desencaminhei. O devir, essa força cega e
majestosa que não distingue entre a inocência e a culpa, cumpriu sua tarefa.
Ele depositou aos meus pés o resultado sólido da minha própria dispersão. A
tragédia, agora, não é mais uma possibilidade ou um pressentimento. Ela está
inteira diante de mim.
E, no entanto, na plenitude dessa materialização, na
concretude desse limiar onde o arco da minha vida se curva sobre o abismo, há
uma ausência que grita mais alto do que toda essa presença compacta de dor e de
destino. Falta-me ainda o coro. O ato está consumado, o herói está nu e exposto
sobre o proscênio da sua própria ruína, mas o espaço ao redor é um silêncio.
Falta a respiração coletiva que transforma o sofrimento
individual em canto, a desgraça singular em patrimônio comum. Falta a voz
anônima e primordial que não acusa nem absolve, mas que simplesmente
testemunha, que envolve a queda do herói com a melodia grave da piedade e do
terror. O coro é a presença da música no centro da ferida. É ele quem converte
o grito isolado em harmonia, quem costura o rasgo da individuação com os fios de
um sentido partilhado.
Eu sou o ator sem plateia, o oficiante sem congregação, a
voz que se ergue num teatro vazio onde as máscaras me devolvem apenas o eco da
minha própria solidão.
Essa falta do coro é a derradeira ironia do meu processo.
Pois se o devir me trouxe até o limiar da forma trágica, ele não me concedeu a
testemunha que daria a essa forma a sua respiração sagrada. Resta-me a espera,
ou talvez o gesto ainda mais insano de entoar sozinho as vozes que deveriam ser
muitas. Resta-me talvez cantaras estrofes e as antístrofes da minha própria
queda, na esperança vã de que a vibração do meu canto solitário possa, por um
milagre da acústica do ser, suscitar o coro invisível que dorme nas dobras do
mundo.
Enquanto ele não vem, permaneço suspenso nesse limiar, com o
peso do ato trágico já materializado nos ombros e a garganta seca pela ausência
do hino coletivo que o redimiria na beleza impiedosa do eterno retorno.
Em divagações anteriores, escrevi sobre a minha morte, e
compartilho aqui:
“Quando tudo desmorona: quando a vida me atira ao abismo da
decadência, e minha potência, já mísera, se reduz a pó, minha mente, como que
possuída, inicia a execução mental da Sétima Sinfonia em Lá Maior, o Allegretto
de Beethoven. É automático, quase clínico, quase... elegante. De repente,
torno-me o protagonista de uma tragédia grega: os deuses, frios e tediosos,
oferecem-me o presente da ruína pulsante. Vejo o sangue, imaginário, claro,
cobrindo meu corpo destroçado sobre um campo verdejante, ornado de flores tão
belas quanto inúteis, enquanto familiares lamentam em torno de mim, compondo um
quadro de dor que, devo admitir, é esteticamente perfeito.
A música, nesse instante, não apenas acompanha, mas
intensifica a cena: ela ergue a sensação aristocrática do sofrimento, essa
nobreza do trágico que só a imaginação pode sustentar. É sublime, mas também
irônico, porque sei, no fundo, que não há tragédia autêntica sem plateia. Meu
delírio é menos sobre a dor e mais sobre a encenação. Afinal, até na ruína, é
preciso manter a aparência.”