MAS O QUE SE EXTINGUE QUANDO OS SÍMBOLOS COLAPSAM?



O livro nasceu de uma pergunta que já era, em si mesma, título. Eu escutava uma canção do Death in June  “But what when the symbols shatter?”. A interrogação ficou pairando. O que fazer com uma pergunta que não se desfaz, que insiste em permanecer? Eu havia lido Espinosa naquele período e experimentara, a grandiosidade de sua filosofia dos afetos. A maneira como os corpos se tocam, se modificam, aumentam ou diminuem sua potência de existir, tudo isso me pareceu digno de ser transposto a algum escrito.


Há em mim esse procedimento recorrente, uma obra me toma por completo, uma euforia conceitual se instala, e de imediato sinto o ímpeto de transcrever, em minha própria linguagem, o conjunto do que absorvi. Contudo, naquele momento, guardei essa vontade no íntimo.


Algum tempo depois, atravessei por inteiro a filosofia de Nietzsche, e foi ali, nesse embate com o pensamento trágico, que a resposta à pergunta começou a se formar. No entanto, uma nova questão se impôs: onde, se alojaria a filosofia de Espinosa? Lembrei-me da questão dos afetos e estabeleci, no interior da própria obra, uma relação semiótica, um sistema de signos em que as afecções do corpo se tornavam legíveis como texto. O que se extinguia quando os símbolos colapsavam era, também, uma certa economia dos afetos, um modo de ser tocado pelo real.


Mas seria impreciso afirmar que a obra surgiu apenas do diálogo entre esses dois pólos. Há um terceiro nome, e talvez ele seja o ponto fulcral, a chave que permitiu a abertura do que eu chamo de filosofia do transbordamento, Georges Bataille. O transbordamento é aquilo que excede, que não pode ser contido nos limites da utilidade, que gasta sem reservas e sem finalidade. Essa noção fertilizou todo o terreno.


A obra nasceu ao longo de aproximadamente um ano, um período em que minha vida pessoal foi profundamente agitada, como se o próprio transbordamento que eu teorizava estivesse, ao mesmo tempo, se encenando. No início, houve a contribuição de uma pessoa cujo nome prefiro omitir. Os laços se romperam por completo, e acredito que essa pessoa não desejaria ver seu nome envolvido, ainda que de maneira indireta, em tudo isso. Em respeito à sua vontade presumida, calo seu nome, mas registro aqui, minha gratidão pela contribuição inaugural e pelo diálogo que abriu os primeiros temas.


Há algo de curioso e talvez de inevitável no fato de que a prática da escrita, naqueles encontros em que eu operava a obra, tenha se tornado, ao fim deles, a própria teoria. Sofri de modo direto aquilo que transcrevi. O pensamento não estava separado da carne, e a carne não estava imune ao que o pensamento engendrava. Esse sofrimento, no entanto, não era um acidente, mas a verificação viva de que o símbolo, ao colapsar, arrasta consigo o corpo que o sustentava.


Minha intenção para as publicações sempre foi manter o livro em total acesso digital, pois acredito que assim posso estabelecer um diálogo amplo com aqueles que chegam a este site. Aos amigos colecionadores, a obra está disponível em plataformas como a Amazon e o Clube de Autores, para que possam tê-la.


Vale lembrar que o site completou um ano no mês de junho, e a única celebração que me pareceu à altura foi justamente lançar esta publicação. Agradeço inteiramente àqueles que permanecem por aqui; agora, posso enfim me dedicar por completo às publicações periódicas.


Por fim, devo dizer que esta obra possui um gesto estético deliberado, uma atmosfera que evoca o misticismo, um tratado de ocultismo que foi inteiramente intencional em sua fatura. Não se trata de um ornamento, mas de uma forma de conhecimento que opera por ressonâncias e correspondências.

MAS O QUE SE EXTINGUE QUANDO OS SÍMBOLOS COLAPSAM?


Aqui você terá acesso integral ao livro.

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