ELE É JUIZ DO QUÊ?
A observação do juiz não descreve apenas a natureza do jogo;
ela desvela a própria estrutura da existência. Não existe jogo onde nada pode
ser perdido. A possibilidade da perda não é um elemento contingente, mas sua
condição constitutiva. Antes mesmo que as regras sejam estabelecidas, antes que
os participantes ocupem seus lugares, já se encontra presente aquilo que
efetivamente confere realidade ao jogo: o sacrifício.
Toda significação nasce daquilo que pode ser oferecido ao
acaso. Uma aposta sem risco não é aposta; um jogo sem perda não existe. O
sacrifício não sobrevém ao jogo como consequência externa, mas constitui sua
própria extensão imanente. O jogo realiza-se precisamente porque algo pode
desaparecer. A perda não interrompe o jogo; ela o consuma.
Não se trata de compreender o sacrifício sob a ótica da
privação moral, da penitência ou da renúncia ascética. O sacrifício, aqui, é o
movimento pelo qual uma potência aceita colocar-se integralmente diante do
imprevisível. Ele é a afirmação daquilo que nenhuma garantia consegue preceder.
O jogador verdadeiro não protege aquilo que possui; ele expõe aquilo que é.
Quanto maior a intensidade do risco, maior a verdade do jogo. O que está em
disputa nunca é apenas um objeto, uma soma, um território ou uma vantagem. O
que se coloca em questão é a própria consistência daquele que aposta.
É nesse ponto que a leitura de Deleuze sobre Nietzsche
revela sua força singular. O jogo deixa de ser compreendido como entretenimento
ou como simples mecanismo probabilístico para tornar-se a imagem ontológica do
próprio devir. Deleuze descreve esse movimento através de dois momentos
inseparáveis, figurados pelas duas mesas, a terra e o céu, ou pelas duas horas
extremas, a meia-noite e o meio-dia.
O primeiro momento corresponde ao lançamento dos dados. A
terra. A meia-noite. Não se trata ainda de um resultado, mas do gesto absoluto
de afirmar o acaso. Toda multiplicidade permanece aberta. Todas as combinações
coexistem virtualmente. O caos não representa aqui desordem negativa, mas
potência infinita de diferenciação. O lançamento é um "sim" antes que
qualquer consequência possa justificá-lo. Ele não escolhe entre possibilidades;
ele afirma todas enquanto potência criadora. É um ato sem garantia, sem
finalidade transcendente, sem cálculo retrospectivo. O acaso não aparece como
deficiência do conhecimento humano, mas como positividade originária do ser.
O segundo momento corresponde à queda dos dados. O céu. O
meio-dia. O múltiplo converte-se numa configuração singular. Entre todas as
possibilidades virtuais, uma combinação emerge. Essa combinação não corrige o
acaso nem o limita. Ela constitui precisamente sua necessidade. A necessidade
não surge como imposição exterior, nem como princípio metafísico que governa o
devir. Ela é a forma assumida pelo acaso quando este foi afirmado
integralmente. O número obtido não nega o lançamento; ele o exprime.
É precisamente aqui que Nietzsche rompe definitivamente com
toda tradição metafísica da causalidade. O pensamento ordinário acredita que a
necessidade nasce da repetição estatística. O mau jogador lança inúmeras vezes
esperando que a regularidade das probabilidades lhe conceda finalmente o
resultado desejado. Confia na acumulação dos lances, nas cadeias causais, na
repetição mecânica dos eventos. Seu pensamento permanece inteiramente submetido
ao cálculo.
O verdadeiro jogador procede de maneira inversa. Não joga
inúmeras vezes para alcançar um resultado necessário. Ele realiza um único
lançamento absoluto. Um lançamento que esgota toda sua potência afirmativa. A
necessidade não decorre da frequência dos lances, mas da intensidade da
afirmação que constitui o próprio lançamento. O número fatal nasce
imediatamente desse "sim" integral dirigido ao acaso. Não existe
separação entre risco e destino. O destino é precisamente aquilo que o risco
produz quando afirmado sem reservas.
Nesse sentido, o Eterno Retorno deixa de significar o
retorno das mesmas coisas. Nada retorna porque tenha permanecido idêntico. O
que retorna é o próprio ato afirmativo do devir. Retorna a diferença enquanto
diferença. Retorna o lançamento enquanto potência infinita de criação. O eterno
retorno não seleciona acontecimentos particulares para repeti-los
indefinidamente; ele seleciona apenas aquilo que suporta retornar porque foi
afirmado integralmente. Retorna somente aquilo que foi capaz de dizer "sim"
ao acaso.
Se o jogo é a extensão do sacrifício, então o sacrifício não
pode ser compreendido como episódio excepcional da existência. Ele constitui
sua própria forma permanente. Afirmar o jogo significa aceitar sacrificar-se
tantas vezes quantas forem exigidas pelo devir. Não porque exista qualquer
dever moral de sofrer, mas porque toda criação exige uma exposição permanente
ao imprevisível. O sacrifício deixa de ser uma interrupção da vida para
tornar-se seu modo de intensificação. Cada nova aposta reafirma o mundo como
campo de forças abertas. Cada risco aceito restitui ao devir sua inocência.
Tudo depende, portanto, da qualidade do primeiro
"sim". Não existe filosofia do jogo sem uma teoria da afirmação.
O bom jogador, Dionísio, começa precisamente por essa
afirmação jubilosa do acaso. Seu consentimento antecede qualquer resultado. Ele
não ama apenas as vitórias; ama igualmente aquilo que a derrota manifesta como
expressão necessária do lançamento realizado. O Amor Fati não significa
resignação diante do inevitável. Significa amar o destino porque ele nasce
diretamente daquilo que se teve coragem de afirmar. O destino não é recebido
passivamente. Ele é produzido pela intensidade da própria afirmação. Dionísio
ama cada consequência porque nenhuma delas contradiz o gesto originário que a
tornou possível.
O mau jogador procede exatamente ao contrário. Incapaz de
suportar a abertura do devir, procura desde o início aprisionar o acaso nas
malhas da finalidade. Não joga para afirmar; joga para confirmar expectativas
previamente estabelecidas. Sua razão funciona como uma teia que pretende
domesticar o imprevisível mediante causas, justificativas e objetivos
transcendentes. O acaso converte-se em inimigo porque recorda continuamente a
ausência de fundamentos últimos. Surge então o ressentimento. A incerteza
transforma-se em culpa. O fracasso converte-se em acusação contra o mundo.
Nunca existe jogo verdadeiro onde cada resultado precisa ser previamente
legitimado por um sentido exterior.
Por essa razão, Deleuze compreende o pensamento de Nietzsche
como a mais radical crítica da dialética.
A dialética hegeliana estrutura-se pela negação. Toda
identidade nasce da contradição. Toda reconciliação exige previamente o
conflito entre opostos. A necessidade aparece apenas ao final de um longo
trabalho do negativo. O espírito realiza-se porque supera sucessivamente suas
próprias insuficiências. Existe sempre uma dívida a ser quitada, uma mediação a
ser percorrida, uma culpa originária cuja resolução produz a síntese.
O jogo nietzschiano destrói completamente essa arquitetura.
Nada precisa ser negado para tornar-se verdadeiro. A afirmação precede qualquer
oposição. O acaso não constitui o contrário da necessidade; ele é precisamente
sua condição positiva. A necessidade não supera o acaso, mas o exprime. Não
existe síntese porque nunca houve antagonismo originário. Existe apenas a
potência afirmativa do devir produzindo continuamente novas configurações
necessárias. Onde Hegel vê reconciliação, Nietzsche vê criação. Onde a dialética
procura justificar retrospectivamente o mundo, Dionísio celebra sua inocência.
É sob essa perspectiva que a passagem do juiz alcança sua
dimensão extrema.
"Imaginem dois homens jogando cartas sem outra coisa
para apostar além de suas vidas. Quem já não ouviu falar de algo assim? A
virada de uma carta. Para esse jogador o universo inteiro avançou
laboriosamente em todo seu fragor para chegar a esse momento que dirá se ele
vai morrer na mão daquele homem ou se aquele homem morrerá na sua. Que
confirmação mais definitiva do valor de um homem pode haver que essa? Essa
intensificação do jogo a sua condição suprema não admite qualquer discussão
relativa à ideia de destino. A seleção de um homem em detrimento de outro é uma
preferência absoluta e irrevogável e é um estúpido genuíno aquele capaz de
supor uma decisão assim tão profunda sem um agente ou significação, uma coisa
ou outra. Em tais disputas em que o que está em jogo é a aniquilação do
derrotado as decisões são cristalinas. Esse homem segurando esse arranjo
particular de cartas em sua mão é por isso removido da existência. Essa é a
natureza da guerra, cuja aposta é ao mesmo tempo o jogo e a autoridade e a
justificação. Vista dessa forma, a guerra é a forma mais legítima de divinação.
Significa pôr à prova a vontade de um indivíduo e a vontade de outro no
contexto dessa vontade mais ampla que, ao ligar as deles, é por conseguinte
forçada a selecionar. A guerra é o jogo supremo porque a guerra é em última
instância um forçar da unidade da existência. A guerra é deus."
A guerra aparece então como o ponto extremo em que toda a
estrutura do jogo alcança sua intensidade máxima. A própria vida converte-se em
aposta. Já não existem bens, riquezas, honras ou propriedades que possam
substituir aquilo que efetivamente está em jogo. A existência inteira é
oferecida ao lançamento.
Nesse limite absoluto, o jogo revela sua verdade ontológica.
A guerra não cria o sacrifício; apenas o radicaliza até sua forma mais pura. A
vida aceita sua própria exposição integral ao devir. Cada decisão deixa de
admitir retorno. Cada acontecimento adquire a gravidade irreversível de uma
seleção definitiva. A necessidade emerge diretamente do acaso afirmado. O
combate deixa de ser simples confronto entre indivíduos para tornar-se
afirmação da própria contingência do existir.
Por isso a guerra pode ser pensada como o jogo supremo. Não
porque possua qualquer superioridade ética, tampouco porque legitime a
destruição como finalidade, mas porque nela a aposta coincide integralmente com
a própria existência. Nunca o risco se apresenta de maneira tão absoluta. Nunca
o sacrifício manifesta de forma tão rigorosa sua identidade com o jogo. A
guerra obriga cada participante a abandonar todas as garantias, todas as
justificações transcendentes, toda esperança de segurança. Resta apenas a
decisão. Resta apenas o lançamento.
Nesse ponto extremo, o homem não enfrenta simplesmente outro
homem. Enfrenta o próprio devir em sua nudez absoluta. Cada gesto afirma ou
nega sua capacidade de consentir ao acaso. Cada decisão torna-se um novo
lançamento dos dados. E aquilo que retorna não é a vitória nem a derrota, não é
a sobrevivência nem a morte, mas a eterna exigência de afirmar novamente o
risco. O jogo permanece porque o sacrifício permanece. E enquanto houver um
único ser capaz de dizer "sim" ao acaso sem exigir qualquer garantia
exterior, Dionísio continuará lançando os dados sobre a mesa da terra, fazendo
da necessidade apenas o nome mais rigoroso daquilo que o acaso se torna quando
plenamente afirmado.
- Citações entre aspas diretas do Meridiano de sangue, Cormac McCarthy.
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