GORELÍTICA

I - ACEFÁLO

O Acéfalo é figura mitológica que enuncia a soberania votada à destruição e a morte de Deus. Não se confunde com a soberania política que se conserva e se perpetua. Trata-se de soberania que se consome na destruição sem fim ulterior. A identificação com o homem sem cabeça compõe-se e confunde-se com a identificação ao super-homem, que é todo inteiro morte de Deus. O Übermensch nietzscheano não é além-do-homem no sentido de evolução biológica ou espiritual superior. É o acontecimento da morte de Deus encarnado numa existência. O Acéfalo é o super-homem tornado visível em sua falta de centro, de comando, de hierarquia vertical.


II – TEMPO EXTÁTICO

Há ligação entre Übermensch e acéfalo por um estalo, que os une à posição do tempo como objeto imperativo e liberdade explosiva da vida. Em ambos os casos, o tempo se torna objeto de êxtase. Importa secundariamente que apareça como retorno eterno, uma vez que Nietzsche teve a intuição do eterno retorno, ou como catástrofe nos sacrifícios, ou ainda como tempo explosão.

Esse tempo extático é radicalmente diferente do tempo dos filósofos, tempo linear, mensurável, sucessão de instantes, e mesmo do tempo heideggeriano, que ainda guarda estrutura de ser para a morte, de projeção e cuidado. A diferença é tão grande quanto a que existe entre o Cristo dos santos eróticos, Cristo carnal, extático, transgressor, e o Deus dos filósofos gregos, imóvel, pensamento do pensamento, transcendente. O movimento dirigido ao tempo ataca à existência concreta, ao passo que o movimento em direção a Deus dela se desviou durante o primeiro período, provavelmente a filosofia pré-nietzscheana, ainda teológica ou metafísica.

Onde e como esse tempo extático pode ser encontrado: na visão das coisas que o acaso pueril faz bruscamente sobrevirem, cadáveres, nudezes, explosões, sangue espalhado, abismos, estalo do sol e do trovão. O tempo extático não é contemplação serena, mas irrupção violenta e fortuita, ligada ao corpo, à morte, à sexualidade, à catástrofe natural. É o oposto do tempo homogêneo do relógio ou da história progressiva.

III - REVOLUÇÃO

A Revolução não deve ser considerada apenas por seus sustentáculos e resultados conscientes, as doutrinas, os programas, as instituições que dela saem. Deve ser considerada em sua aparência bruta, seja obra de puritanos, enciclopedistas, marxistas ou anarquistas. A Revolução, em sua existência histórica significativa, manifesta-se como explosão súbita de sublevações sem limites, puro movimento de insurreição que aterroriza o mundo mudo de medo. Com a Revolução, a autoridade divina cessa de fundar o poder. A autoridade não pertence mais a Deus, mas ao tempo, cuja exuberância livre mete os reis à morte, ao tempo encarnado hoje no tumulto explosivo dos povos. Mesmo o fascismo, foi forçado a se fundar sobre uma pretensa revolução, prestando homenagem hipócrita e constrangida à única autoridade imponente, que é a da mudança catastrófica. Nenhum poder moderno pode ignorar completamente a força revolucionária do tempo. O fascismo simula uma revolução para capturá-la.

IV - CRÔNICA TÉCNICA DA TERRA


Deus, os reis e sua sequela se interpuseram entre os homens e a Terra, assim como o pai, diante do filho, é obstáculo à violação e à possessão da Mãe. A história econômica dos tempos modernos é dominada pela tentativa épica, mas decepcionante dos homens encarniçados em arrancar sua riqueza da Terra. A Terra foi eventrada, mas do interior de seu ventre o que os homens extraíram é antes de tudo o ferro e o fogo, com os quais não cessam de se esventrar entre si. A modernidade técnica é violação da Terra que se volta contra os próprios homens em forma de guerra e destruição.

A realidade incandescente do ventre maternal da Terra não pode ser tocada e possuída por aqueles que a desconhecem. É o desconhecimento da Terra, o olvido do astro sobre o qual vivem, a ignorância da natureza das riquezas e da incandescência encerrada nesse astro, que fez do homem uma existência à mercê das mercadorias que ele produz, cuja parte mais importante é consagrada à morte. Enquanto os homens esquecerem a verdadeira natureza da vida terrestre, que exige a embriaguez extática e o estalo, essa natureza não poderá apelar à atenção dos contabilistas e economistas de todo partido a não ser abandonando-os aos resultados mais acabados de sua contabilidade e de sua economia. A Terra responde à ignorância com a catástrofe. A economia fechada, calculadora, não compreende a dádiva e a destruição.

Os homens não sabem gozar livremente e com prodigalidade da Terra e de seus produtos. A Terra e seus produtos não se prodigalizam e não se liberam sem medida senão para destruir. A guerra átona, tal como a ordenou a economia moderna, ensina também o sentido da Terra, mas ensina a renegados cuja cabeça está cheia de cálculos e considerações curtas. Por isso ensina com ausência de coração e raiva deprimente.

A Terra mesma permaneceu a velha divindade ctônica, mas com as multidões humanas faz também cair por terra o deus do céu numa avacalhação sem fim. A guerra total, sem propósito que a justifique, revela a pura potência destrutiva do tempo e da Terra, abatendo qualquer transcendência celeste.

V – O CADAVER UNIVERSAL

A busca de Deus, da ausência de movimento, da tranquilidade, é o medo que fez soçobrar toda tentativa de comunidade universal. O coração do homem não é inquieto somente até o momento em que se repousa em Deus. Ao contrário, a universalidade de Deus permanece ainda para ele fonte de inquietude. O apaziguamento não se produz a não ser que Deus se deixe fechar no isolamento e na permanência profundamente imóvel da existência militar de um grupo. O Deus universal, justamente por ser universal, inquieta. O que acalma é um deus tribal, fechado numa comunidade militar, numa nação. A existência universal é ilimitada e por isso sem repouso. Ela não refecha a vida sobre si mesma, mas a abre e a relança na inquietude do infinito.

A existência universal, eternamente inacabada, acéfala, um mundo semelhante a uma ferida que sangra, criando e destruindo os seres particulares finitos, é nesse sentido que a universalidade verdadeira é morte de Deus. O verdadeiro universal não é o Deus uno, imóvel e transcendente, mas o movimento infinito, ferido, aberto, sem cabeça, que gera e consome todas as formas. A ferida que sangra é a própria vida da Terra, do tempo, da comunidade acéfala, universalidade que não se fecha em nenhuma totalidade, que não oferece repouso, mas que é pura criação e destruição.

A morte de Deus não leva a um niilismo vazio, mas à afirmação de um mundo acéfalo, explosivo, incandescente, onde a soberania é destruição e a universalidade é ferida.

VI – SOCIEDADE MONOCÉFALA

A estabilidade relativa e a conformidade à lei natural não conferem a nenhuma forma política a possibilidade de parar o movimento de ruína e criação da história, nem muito menos de satisfazer de uma vez as exigências da vida. Pelo contrário, a existência social fechada e sufocada, a sociedade monocéfala e rígida, está condenada à condensação de forças de explosão decisivas. Tal condensação não é realizável no interior de uma sociedade democrática, que neutraliza antagonismos. Seria erro grosseiro imaginar que um levante explosivo tivesse por fim exclusivo ou mesmo necessário a destruição da cabeça e da estrutura unitária de uma sociedade. A mera destruição revolucionária, seguida regularmente da reconstituição da estrutura social e de sua cabeça, não é suficiente. A formação de uma estrutura nova, de uma ordem que se desenvolve e flagela através da terra inteira, é o único ato liberador real e o único possível.

A democracia repousa sobre uma neutralização de antagonismos relativamente fracos e livres, excluindo toda condensação explosiva. A sociedade monocéfala, unitária, com uma única cabeça, resulta do jogo livre das leis naturais do homem, mas, quando é uma formação secundária, imposta ou degenerada, representa uma atrofia e uma esterilidade desoladoras. A única sociedade plena de vida e de força, a única sociedade livre, é a sociedade bicéfala ou policéfala, que dá aos antagonismos fundamentais da vida uma saída explosiva constante, mas limitada às formas mais ricas. A dualidade ou multiplicidade das cabeças tende a realizar, num mesmo movimento, o caráter acéfalo da existência, pois o princípio mesmo da cabeça é a redução à unidade. Quando há múltiplas cabeças, nenhuma delas pode funcionar como centro absoluto. A própria ideia de cabeça como comando unificado é minada, e a existência torna-se, de fato, sem cabeça, acéfala.

VII – AVERSÃO À CABEÇA

A cabeça, seja a autoridade consciente, seja Deus, representa aquela das funções servis que se dá e se toma a si mesma por um fim. Em consequência, deve ser o objeto da aversão mais viva. Mas é limitar o porte dessa aversão dá-la como o princípio da luta contra os sistemas políticos unitários. Trata-se de um princípio fora do qual uma tal luta não é mais do que uma contradição interior. Se a aversão à cabeça se limita a uma simples oposição política contra o Estado unitário, contra o ditador, contra Deus, sem compreender que a própria estrutura de cabeça como função servil e auto-finalizada é o problema, então essa luta permanece contraditória. Ela ainda opera dentro do mesmo registro, apenas trocando uma cabeça por outra, ou desejando uma sociedade sem cabeça sem aceitar a explosão constante dos antagonismos.

VIII – METARMOFOSE ONTOLÓGICA

A verdadeira liberdade não está nem na democracia, que neutraliza os antagonismos de forma fraca, nem na sociedade monocéfala, que os comprime até explodir. Está numa organização policéfala ou acéfala, onde os conflitos fundamentais encontram saídas explosivas permanentes, e onde a própria noção de autoridade unificada é dissolvida. Essa existência acéfala aproxima-se, no limite, do ideal nietzscheano de retorno ao inorgânico. Não como morte simples, mas como libertação da especialização e da perspectiva limitada, como síntese máxima de forças onde não há mais erro nem ilusão. Trata-se, portanto, de uma exigência que ultrapassa a política convencional e toca numa metamorfose ontológica da própria condição humana.

IX – O GRANDE SENHOR DO ESTUPRO

Esse senhor pratica uma série de atos que violam todas as leis morais, religiosas e sociais. Abusa sexualmente de meninas, damas e senhoritas. Dá esmola aos pobres sob a condição de que reneguem Deus. Despoja a viúva e o órfão. Recusa qualquer contabilidade de rendas ou dívidas. Mantém poetas que cantam o delírio dos sentidos, pintores capazes de fixar os movimentos da volúpia, engenheiros capazes de produzir um terremoto sob encomenda, químicos para experimentar venenos lentos ou fulminantes. Funda casas de educação para recrutar um harém de icoglãs e odaliscas. Caça a criança nua, a pé ou a cavalo. Oferece banquetes ao populacho sobre um cavalete provido de armadilhas que os engolem na sobremesa. Se nem tudo é possível, ao menos faz representar espetáculos estranhos, celebra a missa para profanar a hóstia, a fim de fazer vir o diabo. E, se tudo isso se tornar tedioso a longo prazo, tenta se fazer medo por outro meio, como fazer-se supliciar de golpes por seus próprios valetes.

Diante do mundo espantado que pede razões, o grande senhor deve afirmar que Deus não existe, mas que Tibério e Nero existiram. Um fez crucificar o filho de Deus sob Tibério, o outro jogou os discípulos aos leões. Sendo a imortalidade da alma um engodo, trata-se de se imortalizar no mundo por crimes mais do que por boas ações, pois o reconhecimento é passageiro enquanto o ressentimento é eterno. Em suma, ele aceita sorrindo passar por porcão de Epicuro, ou sê-lo, e rodeia-se de uma corte de sábios, poetas, artistas, atores, carrascos e súditos apropriados a todos os caprichos do momento, porque o momento é insuperável.

X – O GRANDE SENHOR DA CELA

Ser esse senhor é uma coisa. Ser esse grande senhor dentro de uma cela é outra. A fantasia de potência absoluta é confrontada com a realidade do confinamento. O grande senhor na cela não tem mais do que intenções de grande senhor, e sabe que é precisamente por ter tido essas intenções que se encontra entre quatro paredes. Restaram apenas as intenções. Tentou-se realizar uma parte desse admirável programa? As próprias intenções, por si sós, eram de um peso esmagador, e entre essas paredes elas liberam seu segredo insuportável. Em liberdade, julgava-se espiritual nomear-se supliciado na roda. Na cela, a nobreza obriga ainda. Se nós, da raça dos fortes, transgredimos as leis feitas para a proteção do fraco, não foi retornando nossa própria força contra nós mesmos, para dela fazer a última experiência, que o conseguimos? Ao fogo de nossas paixões, que sublevaram contra nós a vontade geral, a lei, a sociedade, acendamos a chama da filosofia, deleitemo-nos com ela incendiando o mundo. Não somos nós mesmos já um braseiro ardente?

XI – INVERSÃO DA FOME E DA CONSCIÊNCIA


Os esfomeados de ontem serão os mestres de hoje, pois é preciso que cada um tenha sua vez. Mas conhecem eles a fome que nos devora em nossa saciedade? Nós, os saciados de ontem, sofreremos dos novos repastados, nós, esfomeados de uma nova sorte. Há aqui uma inversão. O grande senhor preso, que antes era poderoso, agora se descobre também faminto, mas de uma fome diferente daquela dos revoltosos. Livres, considerávamo-nos como uma força da Natureza, agentes de suas intenções, aceitando toda vantagem que ela oferece ao forte às expensas do fraco, prontos a lhe restituir assim que ela o reclamasse. Entre as quatro paredes da cela, privados de nossos alquimistas, artistas, sábios, poetas, comediantes e vítimas, seremos nós mesmos alquimista e poeta, artista e sábio, carrasco e comediante, comediante e vítima. Recolocados em liberdade, não teremos do grande senhor mais do que as maneiras e os gostos, e a má consciência, pois não seremos mais do que consciência, e seremos a consciência ela mesma.

Essa consciência, herdada como um atavismo de ordem superior, é uma nobre má consciência. Ela nutre a constatação escandalosa de que o mundo moderno se envilece pela ausência de escravos. Constatação que custa caro àquele que está só a suportar as consequências, que é o único a tirar conclusões.

XII – CADÁVER INFINITO DE DEUS

Suportar um destino incambiável, e mais teria valido não ter nascido, sentir um dia que o criador não mais criou esse dia como os dias precedentes, que não se saiu mais de suas mãos ao despertar, que não se é mais do que a espuma do nada sonhador, e que o mundo periclita a olhos vistos desde que as veias divinas se dessecaram. Tudo o que se vê parece o cadáver do Criador. Duas atitudes são possíveis diante desse cadáver infinito de Deus. Ou, batido de torpor, prova-se os limites de um verme enclausurado sobre esse cadáver, e então o mundo exangue se decompõe e encontra-se a felicidade de um verme na decomposição eterna. Ou, atormentado por uma piedade clarividente, tem-se a força de se reconhecer na incomensurável carniça e dizer: sou eu, sou eu, sou eu que sofro as injúrias da vermínia. Essa segunda atitude, reconhecer-se como o próprio cadáver de Deus, como a carniça infinita, é a impudência daqueles que viram o Criador em seus últimos instantes, e é também o seu único remédio.

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