Esta ligação, porém, não se sustenta. No segundo ato deste
drama metafísico, o Mundo-Verdade afasta-se, torna-se inacessível ao vivente.
Já não se alcança pelo intelecto, mas é prometido como recompensa futura aos
piedosos, aos que souberam negar este vale de lágrimas. É o momento cristão,
onde a ideia, mais insidiosa, se torna objeto de fé e não de conhecimento. A
razão abdica do seu trono em favor de uma esperança escatológica, e a vida
transforma-se numa mera antessala, um período de prova para uma realidade
ulterior. A verdade, outrora conquistada, é agora um segredo sedutor, uma
promessa que desvaloriza radicalmente o único mundo dado.
Com Kant, a sombra do Mundo-Verdade adensa-se numa neblina
koenigsberguiana. Ele torna-se formalmente inacessível e indemonstrável, uma
mera coisa-em-si incognoscível. No entanto, mesmo nessa “sombridade” conceitual,
a ideia persiste como um postulado prático, um consolo necessário e um
imperativo moral. Apesar de ter sido demonstrada a sua irrazoabilidade teórica,
mantém-se, a moral, sem esse fundamento transcendente, pareceria desmoronar.
Mas o espírito científico, anuncia uma aurora cinzenta de
exigência probatória. Se o Mundo-Verdade é inacessível, se nunca foi de fato
alcançado por ninguém, então ele é, em essência, indistinguível do
desconhecido. E que obrigação pode impor uma coisa que nos é totalmente
estranha? Como pode um puro X, uma incógnita metafísica, servir de consolo ou
de fundamento para o dever? A ideia, assim, não é refutada, mas esvazia-se por
inanição, perdendo toda a sua força motivadora e sobrevivendo apenas como um
hábito intelectual moribundo.
Este esvaziamento culmina no gesto ativo do niilismo maduro.
Não apenas rejeita a Verdade, a estupra e deixa pra morrer. O gesto ativo é um
estupro conceitual, uma violência filosófica que satisfaz mais que mil
conciliações. O espírito livre acorda com ressaca moral, vomitando os restos de
uma noite com a Verdade que nunca aconteceu. A vergonha é orgástica, afinal,
que tesão mais delicioso que admitir ter sido enganado por um fantasma durante
milênios?
E então, com a abolição do Mundo-Verdade, que mundo nos
fica? O mundo aparente? Não, pois essa própria oposição desmorona-se. Ao
eliminar o polo do “verdadeiro”, o suposto “aparente” perde o seu contraste
definidor e revela-se como o único mundo existente, o mundo da vida em sua
totalidade imanente e absoluta. É o instante de pleno meio-dia, onde o sol encurta
ao máximo as sombras, dissolvendo os últimos resquícios do erro metafísico.
Nesta luminosidade crua e sem refúgios, não há mais nada a negar, mas tudo a
afirmar. É o grande instante do equilíbrio perfeito, onde a própria noção de
aparência se desvanece na pura fenomenalidade do real. E neste preciso momento,
quando o último ídolo tombou e o horizonte se liberta para uma nova inocência,
inicia-se o canto de Zaratustra.
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