29/09/2025

ENCÔMIO AO ESTUPRO CONTRA A VERDADE

 

Nietzsche apresenta a história da mais persistente sombra projetada sobre a existência, a do “Mundo-Verdade”. Em seu estágio inaugural, sob a insígnia de Platão, este mundo não é um mero postulado, mas uma pátria acessível ao sábio. Ele próprio, o filósofo, através de um esforço supremo da razão dialética, pode tornar-se esse mundo, encarnar o absoluto. Há aqui, contudo, uma hybris filosófica, um egoísmo transcendental que proclama: “Eu, o filósofo, sou a verdade”. Esta é a pretensão de que a consciência individual, por um salto hercúleo, pode desprender-se da condição humana e fundir-se com o inteligível, estabelecendo uma ligação direta, ainda que aristocrática, entre o homem e o princípio eterno.


Esta ligação, porém, não se sustenta. No segundo ato deste drama metafísico, o Mundo-Verdade afasta-se, torna-se inacessível ao vivente. Já não se alcança pelo intelecto, mas é prometido como recompensa futura aos piedosos, aos que souberam negar este vale de lágrimas. É o momento cristão, onde a ideia, mais insidiosa, se torna objeto de fé e não de conhecimento. A razão abdica do seu trono em favor de uma esperança escatológica, e a vida transforma-se numa mera antessala, um período de prova para uma realidade ulterior. A verdade, outrora conquistada, é agora um segredo sedutor, uma promessa que desvaloriza radicalmente o único mundo dado.


Com Kant, a sombra do Mundo-Verdade adensa-se numa neblina koenigsberguiana. Ele torna-se formalmente inacessível e indemonstrável, uma mera coisa-em-si incognoscível. No entanto, mesmo nessa “sombridade” conceitual, a ideia persiste como um postulado prático, um consolo necessário e um imperativo moral. Apesar de ter sido demonstrada a sua irrazoabilidade teórica, mantém-se, a moral, sem esse fundamento transcendente, pareceria desmoronar.


Mas o espírito científico, anuncia uma aurora cinzenta de exigência probatória. Se o Mundo-Verdade é inacessível, se nunca foi de fato alcançado por ninguém, então ele é, em essência, indistinguível do desconhecido. E que obrigação pode impor uma coisa que nos é totalmente estranha? Como pode um puro X, uma incógnita metafísica, servir de consolo ou de fundamento para o dever? A ideia, assim, não é refutada, mas esvazia-se por inanição, perdendo toda a sua força motivadora e sobrevivendo apenas como um hábito intelectual moribundo.


Este esvaziamento culmina no gesto ativo do niilismo maduro. Não apenas rejeita a Verdade, a estupra e deixa pra morrer. O gesto ativo é um estupro conceitual, uma violência filosófica que satisfaz mais que mil conciliações. O espírito livre acorda com ressaca moral, vomitando os restos de uma noite com a Verdade que nunca aconteceu. A vergonha é orgástica, afinal, que tesão mais delicioso que admitir ter sido enganado por um fantasma durante milênios?


E então, com a abolição do Mundo-Verdade, que mundo nos fica? O mundo aparente? Não, pois essa própria oposição desmorona-se. Ao eliminar o polo do “verdadeiro”, o suposto “aparente” perde o seu contraste definidor e revela-se como o único mundo existente, o mundo da vida em sua totalidade imanente e absoluta. É o instante de pleno meio-dia, onde o sol encurta ao máximo as sombras, dissolvendo os últimos resquícios do erro metafísico. Nesta luminosidade crua e sem refúgios, não há mais nada a negar, mas tudo a afirmar. É o grande instante do equilíbrio perfeito, onde a própria noção de aparência se desvanece na pura fenomenalidade do real. E neste preciso momento, quando o último ídolo tombou e o horizonte se liberta para uma nova inocência, inicia-se o canto de Zaratustra.

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