07/10/2025

ECCE HOMO: JESUS SEGUNDO NIETZSCHE

 

A "boa nova" de Jesus é precisamente a ausência de oposição. A fé que ele encarna não é algo a conquistar através de provas ou lutas, mas um estado de ser que está presente desde o princípio, com a imediatez de uma criança. Esta fé não se defende, não se valida por milagres ou escrituras; ela é, em si mesma, o seu próprio milagre e recompensa, existindo num presente perpétuo. Jesus é, assim, o "anti-realista por excelência". Para ele, conceitos, leis, instituições e a própria linguagem não possuem valor intrínseco; são meros símbolos para uma realidade interior, "vida", "verdade", "luz". Ele não nega o mundo; é-lhe indiferente, pois habita um universo simbólico autossuficiente. A sua "sabedoria" é uma "pura tolice" em relação à cultura, ao Estado, à arte e à ciência. Não luta contra estas realidades porque sequer as reconhece como significativas. Com as devidas ressalvas, Nietzsche concede que se pode chamar a Jesus um "espírito livre", precisamente porque nada do que é sólido lhe importa. A palavra, o dogma, a lei, tudo isso "mata" a vida interior imediata que ele experiência. A sua característica final é uma incapacidade de negação ou contradição. Encontrar um juízo contrário não o leva ao debate, mas a uma compaixão melancólica pela "cegueira" do outro. Ele não oferece objeções; oferece apenas o testemunho silencioso da sua experiência interior de "luz".


O cerne daquilo que foi a verdadeira "boa nova" reside, segundo Nietzsche, não numa doutrina de fé, mas na abolição radical de toda uma economia espiritual baseada na culpa e na recompensa. A mensagem original eliminava os conceitos de pecado, castigo e prêmio, proclamando a inexistência de qualquer distância metafísica entre Deus e o homem. A bem-aventurança não era uma promessa futura, condicionada a ritos ou crenças, mas uma realidade imediata e palpável. O que definia o seguidor não era um credo, mas uma práxis existencial totalmente nova, brotada de um instinto único: a não-resistência ao mal, seja em ação ou na intimidade do coração; um universalismo que dissolvia todas as distinções entre estrangeiro e judeu; um pacifismo radical que rejeitava a ira, o menosprezo e os tribunais; uma indissolubilidade que repudiava o divórcio em qualquer circunstância. A própria vida e morte de Jesus constituíram essa prática encarnada. Ele não necessitava de ritos expiatórios, fórmulas dogmáticas ou orações de penitência. A prática da vida evangélica era, em si mesma, Deus. A "redenção" era, portanto, a sensação psicológica imanente de se estar "no céu", uma plenitude eterna que emergia naturalmente deste modo de ser. Tratava-se de uma nova conduta, não de uma nova fé.


Esta conduta só é inteligível quando compreendemos Jesus como um grande simbolista. Para ele, as únicas realidades verdadeiras eram os estados interiores da alma. Tudo o mais, o mundo natural, o fluxo do tempo, o devir histórico, não passava de um conjunto de símbolos, ocasiões para parábolas. A Igreja, contudo, cometeu o que Nietzsche designa como um "cinismo histórico-universal" ao tomar estes símbolos de forma literal e grosseira. O "Filho do Homem" não é uma pessoa histórica única, mas um símbolo de um "fato eterno", um estado psicológico de redenção acessível a qualquer consciência. "Deus Pai" e "Filho de Deus" são signos para o sentimento de eternidade bem-aventurada ("Pai") e para a entrada nesse sentimento ("Filho"). O "Reino de Deus" não é uma geografia transcendente, mas um estado do coração, uma experiência presente. A ideia de que ele advém "após a morte" representa a mais completa deturpação. Até a morte é esvaziada de significado metafísico; ela pertence ao mundo "aparente" dos símbolos. Para a consciência de Jesus, não havia "hora da morte", pois o tempo era irrelevante perante a vivência da eternidade interior.


Neste contexto, a morte na cruz não foi um sacrifício expiatório, mas a última e mais poderosa demonstração da sua prática de vida. Ele morreu para mostrar como se vive, não para "redimir os homens". A sua atitude perante a crucificação, a não-resistência, a renúncia à defesa, o amor dirigido aos seus algozes, é a culminação do seu evangelho. O diálogo com o ladrão constitui o exemplo máximo, quando este reconhece Jesus como um "filho de Deus", a resposta, "hoje mesmo estarás comigo no Paraíso", revela que a redenção é uma clareza psicológica imediata, uma transfiguração da percepção, e não uma recompensa escatológica. O paraíso não é um local para onde se vai, mas um modo de ver que se adota.


Perante esta interpretação, Nietzsche reflete sobre a tragédia histórica e o papel dos "espíritos livres". Após dezanove séculos de incompreensão crescente, apenas estes espíritos libertados, armados com uma "neutralidade amorável e precavida" e com uma "disciplina do espírito" rigorosa, podem finalmente decifrar o significado original. A Igreja nasceu de um "egoísmo desavergonhado" que, buscando a sua própria vantagem e poder, edificou-se sobre a negação sistemática do evangelho. A grande ironia da história, é que a humanidade se ajoelhou perante a "Igreja", que é exatamente o oposto do que Jesus viveu e pregou. Esta inversão representa a forma mais elevada de ironia universal, o mensageiro foi traído e a sua mensagem sistematicamente invertida pela instituição que ostenta o seu nome.



A história do cristianismo é, assim, a história de um mal-entendido progressivo e da sua barbarização constante. A época moderna, que se orgulha do seu "sentido histórico", comete o erro crasso de acreditar que esta história começou com a "grosseira fábula do milagreiro". Pelo contrário, ela iniciou-se com um simbolismo delicado e uma psicologia profunda. À medida que se expandia para massas mais amplas e incultas, a mensagem foi sendo progressivamente vulgarizada e barbarizada. A Igreja incorporou os cultos e os absurdos mais doentios do Império Romano em declínio, tornando-se tão doente, vil e vulgar quanto as "carências" que pretendia satisfazer. Na sua forma final, a Igreja é a "hostilidade mortal a toda a retidão, a toda a altura da alma, a toda a disciplina do espírito". Os valores cristãos, tal como historicamente consolidados, e os valores nobres que afirmam a vida, representam "a maior de todas as oposições de valor". Nietzsche, e os "espíritos livres" que com ele se identificam, colocam-se assim na posição de quem restabelece esta oposição fundamental e denuncia a traição monumental que constitui o cristianismo histórico, procurando resgatar, sob os escombros de dezenove séculos de dogma, o frágil e mal-compreendido lampejo da "boa nova" original.

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