O cerne daquilo que foi a verdadeira "boa nova"
reside, segundo Nietzsche, não numa doutrina de fé, mas na abolição radical de
toda uma economia espiritual baseada na culpa e na recompensa. A mensagem
original eliminava os conceitos de pecado, castigo e prêmio, proclamando a
inexistência de qualquer distância metafísica entre Deus e o homem. A
bem-aventurança não era uma promessa futura, condicionada a ritos ou crenças,
mas uma realidade imediata e palpável. O que definia o seguidor não era um
credo, mas uma práxis existencial totalmente nova, brotada de um instinto
único: a não-resistência ao mal, seja em ação ou na intimidade do coração; um
universalismo que dissolvia todas as distinções entre estrangeiro e judeu; um
pacifismo radical que rejeitava a ira, o menosprezo e os tribunais; uma
indissolubilidade que repudiava o divórcio em qualquer circunstância. A própria
vida e morte de Jesus constituíram essa prática encarnada. Ele não necessitava
de ritos expiatórios, fórmulas dogmáticas ou orações de penitência. A prática
da vida evangélica era, em si mesma, Deus. A "redenção" era,
portanto, a sensação psicológica imanente de se estar "no céu", uma
plenitude eterna que emergia naturalmente deste modo de ser. Tratava-se de uma
nova conduta, não de uma nova fé.
Esta conduta só é inteligível quando compreendemos Jesus
como um grande simbolista. Para ele, as únicas realidades verdadeiras eram os
estados interiores da alma. Tudo o mais, o mundo natural, o fluxo do tempo, o
devir histórico, não passava de um conjunto de símbolos, ocasiões para
parábolas. A Igreja, contudo, cometeu o que Nietzsche designa como um
"cinismo histórico-universal" ao tomar estes símbolos de forma
literal e grosseira. O "Filho do Homem" não é uma pessoa histórica
única, mas um símbolo de um "fato eterno", um estado psicológico de
redenção acessível a qualquer consciência. "Deus Pai" e "Filho
de Deus" são signos para o sentimento de eternidade bem-aventurada
("Pai") e para a entrada nesse sentimento ("Filho"). O
"Reino de Deus" não é uma geografia transcendente, mas um estado do
coração, uma experiência presente. A ideia de que ele advém "após a
morte" representa a mais completa deturpação. Até a morte é esvaziada de
significado metafísico; ela pertence ao mundo "aparente" dos
símbolos. Para a consciência de Jesus, não havia "hora da morte",
pois o tempo era irrelevante perante a vivência da eternidade interior.
Neste contexto, a morte na cruz não foi um sacrifício
expiatório, mas a última e mais poderosa demonstração da sua prática de vida.
Ele morreu para mostrar como se vive, não para "redimir os homens". A
sua atitude perante a crucificação, a não-resistência, a renúncia à defesa, o amor
dirigido aos seus algozes, é a culminação do seu evangelho. O diálogo com o ladrão
constitui o exemplo máximo, quando este reconhece Jesus como um "filho de
Deus", a resposta, "hoje mesmo estarás comigo no Paraíso",
revela que a redenção é uma clareza psicológica imediata, uma transfiguração da
percepção, e não uma recompensa escatológica. O paraíso não é um local para
onde se vai, mas um modo de ver que se adota.
Perante esta interpretação, Nietzsche reflete sobre a
tragédia histórica e o papel dos "espíritos livres". Após dezanove
séculos de incompreensão crescente, apenas estes espíritos libertados, armados
com uma "neutralidade amorável e precavida" e com uma
"disciplina do espírito" rigorosa, podem finalmente decifrar o
significado original. A Igreja nasceu de um "egoísmo desavergonhado"
que, buscando a sua própria vantagem e poder, edificou-se sobre a negação
sistemática do evangelho. A grande ironia da história, é que a humanidade se
ajoelhou perante a "Igreja", que é exatamente o oposto do que Jesus
viveu e pregou. Esta inversão representa a forma mais elevada de ironia
universal, o mensageiro foi traído e a sua mensagem sistematicamente invertida
pela instituição que ostenta o seu nome.
A história do cristianismo é, assim, a história de um
mal-entendido progressivo e da sua barbarização constante. A época moderna, que
se orgulha do seu "sentido histórico", comete o erro crasso de
acreditar que esta história começou com a "grosseira fábula do
milagreiro". Pelo contrário, ela iniciou-se com um simbolismo delicado e
uma psicologia profunda. À medida que se expandia para massas mais amplas e
incultas, a mensagem foi sendo progressivamente vulgarizada e barbarizada. A
Igreja incorporou os cultos e os absurdos mais doentios do Império Romano em
declínio, tornando-se tão doente, vil e vulgar quanto as "carências"
que pretendia satisfazer. Na sua forma final, a Igreja é a "hostilidade
mortal a toda a retidão, a toda a altura da alma, a toda a disciplina do
espírito". Os valores cristãos, tal como historicamente consolidados, e os
valores nobres que afirmam a vida, representam "a maior de todas as
oposições de valor". Nietzsche, e os "espíritos livres" que com
ele se identificam, colocam-se assim na posição de quem restabelece esta
oposição fundamental e denuncia a traição monumental que constitui o
cristianismo histórico, procurando resgatar, sob os escombros de dezenove
séculos de dogma, o frágil e mal-compreendido lampejo da "boa nova"
original.
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