No pensamento de Espinosa, desenham-se dois regimes
radicalmente heterogêneos através dos quais o divino se torna acessível ao
humano: o regime da revelação e o regime da expressão.
O primeiro constitui o domínio da religião revelada, das Escrituras e da profecia, operando sob o império do signo e do mandamento. Seu fundamento reside não na essência, mas no signo, algo que representa outra coisa de forma convencional ou imaginativa, sem a constituir. Na Bíblia, Deus comunica-se através de sarças ardentes, vozes, sonhos e milagres; signos que apontam para um comando, mas que nada revelam sobre a natureza íntima de quem ordena. A função primordial aqui não é a instrução, mas a ordenação. O objetivo é fundar a obediência e prescrever um modelo de vida. A "Palavra de Deus" não é um conceito a ser compreendido, mas um imperativo a ser seguido, uma palavra impressa na imaginação humana, não expressa pelo entendimento. O conteúdo transmitido são os propria divinos: qualidades como "Justo", "Misericordioso", "Bom", que não constituem a essência de Deus, mas antes modalidades ou consequências dela, ou até projeções antropomórficas. A faculdade envolvida é a imaginação, receptáculo passivo de imagens e narrativas. Os profetas são, assim, homens de imaginação vívida, não necessariamente de intelecto superior. O resultado é uma ideia confusa e indefinida de Deus, um ser misterioso de desígnios insondáveis, que deve ser adorado, mas não compreendido, abrindo as portas à superstição e ao antropomorfismo.
Em oposição absoluta a este regime, ergue-se o regime da expressão, reino do atributo e do conhecimento, domínio da filosofia e da razão. Aqui, Deus manifesta-se não através de signos, mas através dos atributos que constituem sua essência. Pensamento e Extensão não são signos que apontam para Deus; são a própria realidade constitutiva da substância divina expressa de maneira determinada. A função não é imperativa, mas constitutiva e explicativa. A "Palavra de Deus" é a ordem necessária e racional da natureza, expressa em leis eternas, acessível à luz natural da razão. O conteúdo é a própria essência de Deus, conhecer os atributos é conhecer o que Deus verdadeiramente é. A faculdade que apreende esta expressão é o entendimento (intellectus), capacidade ativa que compreende conceitos, relações causais e necessidades. O resultado é um conhecimento adequado e unívoco: os atributos significam exatamente o mesmo em Deus (onde existem infinitamente) e nos modos (que os envolvem finitamente). Não há mistério, salto analógico ou eminência; a extensão de Deus e a extensão de uma pedra compartilham a mesma realidade formal.
A crítica espinosana reside na absoluta irredutibilidade entre estes dois regimes. Buscar a essência de Deus na revelação é um erro categorial, tão absurdo quanto buscar um tratado de física num poema épico. As Escrituras orientam a conduta, não desvelam a metafísica. Inversamente, a expressão não conduz à obediência; a ordem necessária da natureza não comanda, simplesmente é. Conhecê-la amplia nossa potência e liberdade, mas não emite ordens no sentido moral. A ilusão teológica nasce precisamente da confusão entre estes planos: ao ler os propria da revelação como se fossem atributos expressivos, forja-se um Deus "eminentemente" justo ou bom, conceito misterioso que não é nem afirmação nem negação, mas quimera da imaginação.
Esta confusão tem uma gênese precisa. Tudo na natureza exprime Deus; uma lei natural como "ingerir veneno leva à morte" é uma relação causal necessária que expressa a essência divina sob o atributo Extensão. O homem, em estado de ignorância, como Adão no Éden, não compreende a necessidade interna desta lei. Não vê a conexão causal, apenas a sequência de eventos. Para preencher esta lacuna, a imaginação transforma a lei natural incompreendida em mandamento transcendente. A sequência causal necessária ("maçã → morte") converte-se em proibição moral ("Deus proibiu a maçã"). A causa imanente é substituída por uma causa transcendente, a vontade punitiva de um legislador divino. O signo nasce, assim, da incompreensão de uma expressão. Onde o entendimento falha, a imaginação inventa signos e mandamentos. Os profetas, com sua imaginação vívida e entendimento limitado, são os arquétipos desta operação.
Ao
limpar o campo dos propria e focar nos atributos, Espinosa funda uma ontologia
de afirmação pura, oposta a todas as filosofias da negatividade. Afirmar um
atributo de Deus: "Deus é extensão", é uma afirmação direta, formal e
unívoca. A extensão significa exatamente o mesmo em Deus e nos modos. Não há
sombra de negação, metáfora ou analogia. As filosofias da "eminência"
ou da "analogia" são, sob este prisma, negatividades disfarçadas;
admitem implicitamente que a qualidade não pode ser afirmada diretamente de
Deus, que há uma deficiência a ser superada por um salto qualitativo. Espinosa
vê aqui a reintrodução da negação no coração do ser. Ele leva a lógica
cartesiana da distinção real: non
opposita sed diversa, às suas últimas consequências, libertando-a de sua
função numerizante. Em Espinosa, os atributos são realmente distintos, mas não
opostos; cada um é uma afirmação positiva e plena no seio da unidade da
substância. A filosofia torna-se, assim, o exercício rigoroso desta afirmação
unívoca, contra todas as sombras da eminência e os véus da analogia.
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