Os atributos, a Extensão, o Pensamento e os infinitos outros
que a mente humana não pode apreender, não são frações dessa totalidade, nem
subconjuntos independentes. Eles são, antes, projeções. Tal como um poliedro
complexo projeta sombras distintas em paredes adjacentes, cada uma revelando
uma perspectiva coerente, mas parcial, do objeto original, assim os atributos
são sombras projetadas da substância infinita. Formalmente, expressamos essa
natureza como ψ = A₁ x A₂ x A₃ x ... x
A∞, onde o produto direto simboliza a integridade da substância como a totalidade
de todas as suas projeções
possíveis. Cada atributo
é, nas palavras de Espinosa, infinito em seu próprio gênero, completo em sua
ordem, porém não esgota a realidade absoluta.
E aqui intervém um detalhe crucial, contido na Definição 4
da Ética I: o atributo é aquilo que o intelecto percebe da substância como
constituindo sua essência. Esse intelecto, porém, é finito. Logo, o que ele
apreende não é a essência nua e integral da substância, mas uma de suas
projeções, um recorte inteligível. Se o acesso humano fosse à essência total,
Deus estaria confinado aos dois únicos atributos que conhecemos, Extensão e
Pensamento, o que contradiz flagrantemente a Definição 6, que O define como uma
substância constituída por infinitos atributos. A interpretação projetiva
resolve o impasse, somos espectadores que enxergam a realidade por duas
frestas, não donos da visão panorâmica.
Desce então a teoria ao plano do existente concreto. Tudo
que surge, existe e perece são modos, modificações finitas e determinadas da
substância. Um ser humano, por exemplo, é uma dessas modulações locais de ψ. E
ele se manifesta como um duplo modo: no atributo da Extensão, sua projeção é o
corpo, uma complexa estrutura de movimento e repouso, regida por leis físicas
inflexíveis e inserida numa rede causal densa; no atributo do Pensamento, sua
projeção é a mente, uma cadeia de ideias encadeadas por relações lógicas
internas. Corpo e mente não são duas entidades, mas a mesma modificação vista
através de dois filtros distintos.
Donde se segue um paralelismo rigoroso, porém sem
causalidade. A mente não comanda o corpo, nem o corpo gera a mente. Ambos são
expressões síncronas de uma única e mesma afecção modal. Exemplo, são dois
espelhos em ângulo reto, refletindo uma única fonte de luz. O movimento de uma
imagem não causa o movimento da outra; ambas derivam, de modo coordenado, da
fonte original. A fórmula do ser humano, ψ - humano = ψ - extensão x
ψ - ideia,
simboliza essa identidade na diferença:
somos uma realidade única
que se projeta de modo isomórfico
em duas dimensões.
Neste ponto, Espinosa desarma uma das batalhas mais antigas
da filosofia, a disputa entre idealismo e materialismo. Para ele, nem a matéria
gera a consciência, nem a consciência comanda a matéria. Ambas são
manifestações equifundamentadas de uma raiz ontológica comum. É uma trégua
metafísica, o mundo não é nem espírito puro, nem apenas extensão; é uma unidade
que se deixa ler em registros distintos, mas igualmente reais.
E assim chegamos às paixões humanas, às ideias inadequadas.
Se nosso corpo é afetado por causas que ignoramos, uma complexa trama de encontros
no atributo Extensão, a projeção correspondente no atributo Pensamento será
inevitavelmente confusa, truncada, inadequada. A paixão é uma sombra
distorcida, não porque o atributo Pensamento seja enganoso, mas porque a nossa
apreensão da cadeia causal extensiva é incompleta. A emoção desordenada é, no
fundo, uma projeção parcial da realidade modal.
Podemos evocar aqui o mito platônico da caverna. De fato, há
um eco, somos prisioneiros que veem sombras. Mas, em Espinosa, não há um mundo
sensível ilusório e um mundo inteligível verdadeiro. Há infinitas cavernas,
infinitos espelhos, cada um mostrando uma projeção fidedigna, ainda que
parcial, da única Realidade. Cada atributo é uma parede de projeção legítima, não
um engano a ser superado por uma ascese rumo ao supra-sensível.
E essa intuição ecoa, surpreendentemente, em vozes da
ciência contemporânea. David Bohm, ao postular uma totalidade implícita da qual
o universo explícito é uma projeção, oferece um paralelo quântico à visão
espinosana. A frase de que “todos os seres humanos são projeções de uma
totalidade única” poderia sair igualmente de um tratado de metafísica do século
XVII ou de um artigo sobre a holomovência. Do mesmo modo, Albert Einstein, ao
afirmar que alma e corpo não são duas coisas, mas uma só, endossa a intuição
central desse monismo projetivo. Não se trata de reduzir Espinosa à física, mas
de reconhecer que sua arquitetura conceitual, a unidade da substância, a
simultaneidade dos atributos, a ordem geométrica do real, permanece um convite
permanente a pensar a totalidade sem fraturas, a ver na mente e no corpo dois
rostos da mesma verdade eterna.
FONTE:
Bohm D., A totalidade e a Ordem Implicada.
Leon Ponczek, R. Uma definição geométrica e uma interpretação física para os atributos de Espinosa, Roberto Leon Ponczek, Revista Conatus, Volume I, 2007.
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