09/10/2025

O INDIVISÍVEL QUÂNTICO: ESPINOSA, EINSTEIN E BOHM

Espinosa funde o conceito geométrico com o divino, fundando a Substância. Ela não é uma coisa entre coisas, mas um campo unificado e irredutível, que denominaremos ψ, a preencher um espaço vetorial de infinitas dimensões, cada uma delas infinita em si mesma. Este campo é a própria textura do real, único, sem possibilidade de outro; infinito, sem fronteiras internas ou externas; indivisível, pois não é composto de partes, mas é um todo contínuo; e eterno, não porque dure no tempo, mas porque sua existência é necessária e atemporal, conforme a proposição fundamental de que a substância é causa de si.


Os atributos, a Extensão, o Pensamento e os infinitos outros que a mente humana não pode apreender, não são frações dessa totalidade, nem subconjuntos independentes. Eles são, antes, projeções. Tal como um poliedro complexo projeta sombras distintas em paredes adjacentes, cada uma revelando uma perspectiva coerente, mas parcial, do objeto original, assim os atributos são sombras projetadas da substância infinita. Formalmente, expressamos essa natureza como ψ = A₁ x A₂ x A₃ x ... x A∞, onde o produto direto simboliza a integridade da substância como a totalidade de todas as suas projeções possíveis. Cada atributo é, nas palavras de Espinosa, infinito em seu próprio gênero, completo em sua ordem, porém não esgota a realidade absoluta.


E aqui intervém um detalhe crucial, contido na Definição 4 da Ética I: o atributo é aquilo que o intelecto percebe da substância como constituindo sua essência. Esse intelecto, porém, é finito. Logo, o que ele apreende não é a essência nua e integral da substância, mas uma de suas projeções, um recorte inteligível. Se o acesso humano fosse à essência total, Deus estaria confinado aos dois únicos atributos que conhecemos, Extensão e Pensamento, o que contradiz flagrantemente a Definição 6, que O define como uma substância constituída por infinitos atributos. A interpretação projetiva resolve o impasse, somos espectadores que enxergam a realidade por duas frestas, não donos da visão panorâmica.


Desce então a teoria ao plano do existente concreto. Tudo que surge, existe e perece são modos, modificações finitas e determinadas da substância. Um ser humano, por exemplo, é uma dessas modulações locais de ψ. E ele se manifesta como um duplo modo: no atributo da Extensão, sua projeção é o corpo, uma complexa estrutura de movimento e repouso, regida por leis físicas inflexíveis e inserida numa rede causal densa; no atributo do Pensamento, sua projeção é a mente, uma cadeia de ideias encadeadas por relações lógicas internas. Corpo e mente não são duas entidades, mas a mesma modificação vista através de dois filtros distintos.


Donde se segue um paralelismo rigoroso, porém sem causalidade. A mente não comanda o corpo, nem o corpo gera a mente. Ambos são expressões síncronas de uma única e mesma afecção modal. Exemplo, são dois espelhos em ângulo reto, refletindo uma única fonte de luz. O movimento de uma imagem não causa o movimento da outra; ambas derivam, de modo coordenado, da fonte original. A fórmula do ser humano, ψ - humano = ψ - extensão x ψ - ideia, simboliza essa identidade na diferença: somos uma realidade única que se projeta de modo isomórfico em duas dimensões.


Neste ponto, Espinosa desarma uma das batalhas mais antigas da filosofia, a disputa entre idealismo e materialismo. Para ele, nem a matéria gera a consciência, nem a consciência comanda a matéria. Ambas são manifestações equifundamentadas de uma raiz ontológica comum. É uma trégua metafísica, o mundo não é nem espírito puro, nem apenas extensão; é uma unidade que se deixa ler em registros distintos, mas igualmente reais.


E assim chegamos às paixões humanas, às ideias inadequadas. Se nosso corpo é afetado por causas que ignoramos, uma complexa trama de encontros no atributo Extensão, a projeção correspondente no atributo Pensamento será inevitavelmente confusa, truncada, inadequada. A paixão é uma sombra distorcida, não porque o atributo Pensamento seja enganoso, mas porque a nossa apreensão da cadeia causal extensiva é incompleta. A emoção desordenada é, no fundo, uma projeção parcial da realidade modal.


Podemos evocar aqui o mito platônico da caverna. De fato, há um eco, somos prisioneiros que veem sombras. Mas, em Espinosa, não há um mundo sensível ilusório e um mundo inteligível verdadeiro. Há infinitas cavernas, infinitos espelhos, cada um mostrando uma projeção fidedigna, ainda que parcial, da única Realidade. Cada atributo é uma parede de projeção legítima, não um engano a ser superado por uma ascese rumo ao supra-sensível.


E essa intuição ecoa, surpreendentemente, em vozes da ciência contemporânea. David Bohm, ao postular uma totalidade implícita da qual o universo explícito é uma projeção, oferece um paralelo quântico à visão espinosana. A frase de que “todos os seres humanos são projeções de uma totalidade única” poderia sair igualmente de um tratado de metafísica do século XVII ou de um artigo sobre a holomovência. Do mesmo modo, Albert Einstein, ao afirmar que alma e corpo não são duas coisas, mas uma só, endossa a intuição central desse monismo projetivo. Não se trata de reduzir Espinosa à física, mas de reconhecer que sua arquitetura conceitual, a unidade da substância, a simultaneidade dos atributos, a ordem geométrica do real, permanece um convite permanente a pensar a totalidade sem fraturas, a ver na mente e no corpo dois rostos da mesma verdade eterna.


FONTE: 

Bohm D., A totalidade e a Ordem Implicada.

Eistein A., Essays in scienc
e. 

Leon Ponczek, R. Uma definição geométrica e uma interpretação física para os atributos de Espinosa, Roberto Leon Ponczek, Revista Conatus, Volume I, 2007.


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