Em sua essência mais profunda, a experiência do sublime,
conforme delineada por Schiller, surge de uma definição fundamental que nos
coloca diante de uma dualidade constitutiva. Sublime é aquele objeto perante
cuja representação nossa natureza sensível reconhece com vigor suas limitações,
ao passo que nossa natureza racional, em contrapartida, sente despertar sua
superioridade e sua liberdade de toda e qualquer limitação. Trata-se, portanto,
de um fenômeno perante o qual somos fisicamente derrotados, mas moralmente
elevados, elevados precisamente por meio do poder das ideias. Esta é a dinâmica
primordial do encontro com o sublime, uma derrota que é, paradoxalmente, a
condição para uma vitória superior.
Esta dinâmica revela a constituição dual do homem. Por um
lado, somos dotados de uma Natureza Sensível, física e perecível, uma parte de
nosso ser que está inexoravelmente submetida às leis da natureza, frágil,
dependente e finita. É a nossa condição de seres encarnados, sujeitos ao mundo
material. Por outro lado, possuímos uma Natureza Racional, moral ou espiritual,
que é a sede de nossa liberdade e autonomia, guiada não pelos sentidos, mas por
ideias puras como a liberdade, o dever e o infinito. Um objeto verdadeiramente sublime,
seja um abismo insondável, a neblina que cobre toda a cidade, uma tempestade
desmedida, ou a vastidão silenciosa de cidade, apresenta-se com um poder tão
avassalador que nossa faculdade sensível esmorece, incapaz de apreendê-lo ou de
lhe opor resistência. Neste momento, sentimo-nos irremediavelmente pequenos e
impotentes. Contudo, é precisamente neste colapso da sensibilidade que se opera
o despertar da razão. A percepção da nossa vulnerabilidade física torna-se o
trampolim para a afirmação da nossa independência moral. Compreendemos que,
embora nosso corpo possa ser aniquilado, nossa mente é capaz de conceber o
próprio poder que a ameaça, de pensar o infinito e de, moralmente, nos
mantermos firmes por princípios que transcendem o medo. A derrota sensível,
assim, não é um fim, mas o início de uma libertação.
Desta dualidade fundamental deriva uma consequência
existencial, somos dependentes apenas enquanto seres sensíveis; enquanto seres
racionais, somos livres. Schiller aprofunda esta antítese na relação entre
dependência e independência. Como seres naturais, existimos dentro de uma teia
inescapável de causas e efeitos. Nossa existência física depende da cooperação
do mundo externo; precisamos de ar, de alimento, de abrigo. Nossos impulsos
mais elementares estão vinculados a esta condição de precária dependência. A
independência, porém, habita em nossa razão, que não se curva a essas mesmas
leis naturais. Ela é a faculdade que nos permite conceber o abstrato,
transcender o finito e, o que é mais significativo, agir por determinação da
vontade, contra os apelos mais urgentes de nossa autoconservação sensível, como
o herói que enfrenta a morte por um ideal, James acaba enfrentando diversas
situações críticas para encontrar a sua amada. O sublime expõe de modo agudo
esta dupla relação, primeiro, faz-nos sentir o peso esmagador da nossa
dependência perante o perigo; depois, e de forma mais decisiva, revela-nos a
inabalável fortaleza da nossa independência na superação moral desse mesmo
perigo.
Para explicar como esta experiência de dependência e
independência é vivida interiormente, Schiller invoca uma psicologia dos
impulsos fundamentais. O primeiro é o Impulso de Representação, ou de
Conhecimento, um desejo profundo de alterar nosso estado, de buscar ativamente
novas representações e expandir nosso entendimento do mundo. O segundo é o
Impulso de Autoconservação, uma força que anseia pela conservação do nosso
estado, pela manutenção da existência e do bem-estar, estando intimamente
ligado aos sentimentos de prazer e dor e à percepção interna do nosso ser. A
sensação de dependência surge quando a natureza externa frustra violentamente
estes impulsos: seja ao negar as condições para o conhecimento, bloqueando
assim nosso impulso de representação, seja ao contradizer as condições para
nossa existência, ameaçando diretamente nosso impulso de autoconservação. De modo
análogo, a independência da nossa natureza racional manifesta-se de forma
dupla, levando à divisão central do sublime, uma vitória do pensamento sobre a
impotência do entendimento e uma vitória da vontade moral sobre o instinto de
preservação. É nesta cisão e na sua superação que reside o poder do sublime.
Deste modo, a experiência do sublime desdobra-se em duas modalidades fundamentais, que, embora convergentes em seu propósito final de elevação moral, distinguem-se radicalmente em sua origem e mecanismo interior. A primeira é o sublime teórico, que surge quando a natureza, na sua função de objeto do conhecimento, entra em contradição com o nosso impulso de representação. Coloque-se, por exemplo, diante das imagens dos planetas em nossa galáxia, contempla-se a vastidão incomensurável do cosmos, onde sóis e galáxias se multiplicam para além de qualquer cálculo. Perante este espetáculo de grandeza infinita, os sentidos e a imaginação, esforçando-se em vão para apreender e delimitar a totalidade, encontram-se subitamente esmagados. É uma grandeza que humilha nossa capacidade de compreensão sensível, tornando palpáveis nossa dependência e as limitações de um conhecimento preso às amarras do espaço e do tempo. Contudo, esta mesma falência, este bloqueio do impulso de representação, atua como um catalisador para a razão. Embora sejamos incapazes de imaginar o infinito, a nossa faculdade racional transcende o sensível e concebe a própria ideia de um universo sem fronteiras. A derrota do entendimento transforma-se, assim, na vitória da razão teórica. A insignificância física do homem perante a magnitude cósmica é, então, resgatada pela grandeza de uma mente capaz de pensar aquilo que a ultrapassa, numa sublimidade que eleva pelo puro pensamento.
Em oposição, mas com igual potência elevadora, ergue-se o sublime prático. Aqui, a natureza já não se apresenta como um enigma a decifrar, mas como um poder ativo e temível que entra em conflito direto com o nosso impulso de autoconservação. "Quando James chega ao labirinto, entra em contato com o indefinido. Trata-se, porém, de um indefinido definível, pois é ele quem cria seu próprio mapa daquilo que está por conhecer. Desse modo, o próprio conceito de labirinto é superado, mas o meio para transcendê-lo é erguido pelo sentimento de uma ameaça iminente, que se consuma neste caminho de superação. O impulso de autoconservação, esse guardião fundamental da vida sensível, é violentamente sacudido pelo medo, pela dor e pelo instinto primordial de fuga. Sentimo-nos então na mais crua dependência, frágeis e entregues a um poder que pode, a qualquer momento, esmagar-nos.
Quanto mais violenta for a agressão à nossa sensibilidade,
mais profunda e vivaz será a elevação moral que dela emana. Se o objeto temível
do sublime prático agride nossa natureza sensível de forma mais brutal do que o
objeto infinito do sublime teórico, esta mesma violência acaba por cavar um
abismo mais nítido e tangível entre as duas dimensões do nosso ser. De um lado,
a criatura sensível, frágil e aterrorizada; do outro, o sujeito racional, livre
e independente. Ao ser confrontado com este contraste de forma mais dramática e
visceral, o indivíduo torna a superioridade da sua razão e a sua liberdade
interna não apenas uma ideia abstrata, mas uma certeza viva e consciente. E
como a essência do sublime está inteiramente alicerçada na "consciência
dessa nossa liberdade racional", e todo o prazer estético no sublime
deriva deste ato de autoconhecimento e autoafirmação, segue-se inevitavelmente
que o sublime prático, por nos sacudir mais profundamente, gera uma sensação de
elevação mais vívida e um prazer estético mais intenso e comovedor.
Esta premissa conduz-nos, assim, a reconhecer uma clara
superioridade existencial no sublime prático. Enquanto o sublime teórico, na
sua magnífica imensidão, "amplia a nossa esfera" cognitiva, alargando
os horizontes do nosso pensamento e da nossa capacidade de representação, o
sublime prático, ou dinâmico, realiza uma proeza qualitativamente distinta: ele
"amplia a nossa força" interior. A sua supremacia radica no fato de
ele operar precisamente no terreno daquilo que, para o ser sensível, constitui
a preocupação fundamental: a própria existência. A dependência mais opressiva
que conhecemos é a consciência de que a natureza pode, a qualquer momento,
dispor da nossa vida física. O sublime prático liberta-nos especificamente
deste jugo. Seguindo o pensamento de Kant, Schiller mostra-nos que, ao
enfrentarmos esteticamente um poder irresistível, descobrimos em nós uma
"autoconservação de tipo totalmente diferente", não a física,
ameaçada pelo perigo, mas a moral, que se afirma precisamente na sua
invulnerabilidade. A nossa humanidade, a nossa personalidade ética, permanece
intocada e não rebaixada, mesmo na previsão da aniquilação do corpo. A natureza
torna-se sublime, neste contexto, não pelo que é, mas pelo que provoca, ela
força-nos a sentir de forma aguda a "sublimidade da nossa destinação"
racional, revelando-nos que os princípios que constituem o nosso núcleo moral
possuem um valor que transcende, e até mesmo redime, a vida sensível.
Será, portanto, que tudo o que é temível é, por isso mesmo,
sublime? A resposta de Schiller é um não, e é na elaboração desta negação que
ele define as duas condições essenciais e paradoxais que governam o fenômeno. A
primeira é uma Condição Sensível, a da nossa dependência: o objeto deve, de fato,
apresentar-se como temível para a nossa sensibilidade, deve constituir uma
ameaça representável à nossa existência. Sem este momento de negatividade, sem
este abalo inicial que gera tensão e conflito, não pode haver a oportunidade
para a superação moral que lhe dá sentido. Se não houver nada a temer, não há
sublimidade possível, pois não há obstáculo a transcender. Contudo, a segunda
condição, de natureza Racional e que afirma a nossa independência: nós devemos,
simultaneamente, sentir-nos independentes do objeto enquanto seres racionais.
Se o objeto for apenas e simplesmente temível, se ele nos dominar por completo,
esmagando não apenas o corpo mas também a vontade, gerando um pavor que
paralisa a razão, então não haverá sublimidade, mas apenas terror patológico. A
essência do sublime reside, portanto, num estado de tensão dinâmica e
produtiva: a sensibilidade é profundamente abalada, mas a razão permanece
inabalavelmente firme. "A liberdade interna do ânimo", conclui
Schiller, "é absolutamente necessária para que se considere sublime o
temível". Sem esta liberdade interior, que nos permite olhar o abismo sem
nos perdermos nele, o que experimentamos é apenas medo, a mais pura e simples
subjugação, e nunca a complexa e elevadora experiência do sublime.
Como pode algo ser genuinamente temível sem desencadear o
temor efetivo que aniquila a liberdade interior, pressuposto indispensável do
sublime? Schiller oferece a solução através do conceito de "segurança
estética". Se nos encontrarmos em perigo real e sério, a bordo de um navio
a ser destruído pela tempestade, o "ajuizamento estético está
irremediavelmente perdido". O medo concreto, enquanto estado de sofrimento
e violência, subjuga por completo a mente racional, não restando espaço algum
para o prazer estético do sublime. A chave reside, portanto, na contemplação
segura, a experiência do sublime prático só se torna possível quando "o
objeto temível nos permite ver seu poder mas não o direciona contra nós".
É o observador na margem, a salvo, que contempla a fúria do oceano. Somos nós,
espectadores, contemplando a derrocada de James. E o jogo, em seu ápice,
trata-se justamente de quebrar essa quarta parede de forma consciente, nos
momentos de salvamento, é ele, James, quem fixa o olhar em nós.
Contudo, a mera observação segura, descompromissada e
lúdica, é insuficiente. Se for apenas um "jogo" sem seriedade, não
haverá a profunda reação moral necessária. Impõe-se, através da imaginação, um
ato de colocação vívida no lugar do perigo. "O terrível está, assim,
apenas na representação", mas esta representação deve possuir uma intensidade
tal que seja capaz de pôr o "impulso de conservação em movimento",
gerando uma reação análoga à sensação real: um horror, uma ansiedade, uma
indignação da sensibilidade que, embora simulada, seja visceral. É este
"início do sofrimento efetivo" na nossa imaginação, este susto sério
e profundamente sentido, que cria a seriedade indispensável para o
desencadeamento do processo. Sem este envolvimento emocional, a fuga para a
razão seria um mero exercício intelectual, estéril e vazio. A razão só busca refúgio
na ideia da sua liberdade quando a sensibilidade leva a ameaça representada a
sério.
Schiller extrai uma distinção, entre Grande e
Sublima, "Grande é aquele que sobrepuja o temível. Sublime é aquele que,
mesmo sucumbindo, não teme." A Grandeza está indissociavelmente ligada à
vitória efetiva sobre um obstáculo, à superação de um desafio mediante o poder,
a inteligência ou a habilidade. É uma qualidade que se demonstra na ação
bem-sucedida. Schiller cita, Aníbal, ao transpor os Alpes com seu exército, é
"grande de modo teórico" porque sua genialidade estratégica venceu o
obstáculo físico. Hércules, ao concluir seus doze trabalhos, é grande porque
superou fisicamente cada desafio. O Sublime, em contraste, não se alimenta do
sucesso, mas da atitude interior perante o fracasso, o sofrimento e a derrota
inevitáveis. O sublime brilha com intensidade máxima quando toda resistência
física se mostra inútil, mas a vontade moral permanece inabalável. É uma
qualidade que se revela na infelicidade. O próprio Aníbal torna-se sublime não
na vitória, mas "na infelicidade" de sua derrota final, quando sua
grandeza militar foi aniquilada, mas sua dignidade e coragem moral perante a
adversidade permaneceram intactas. A figura paradigmática é Prometeu, já derrotado,
acorrentado e torturado, sem qualquer perspectiva de fuga, que "não se
arrependeu de seu ato e não admitiu o seu erro". Sua sublimidade reside na
indômita liberdade interior, que nem a onipotência de Zeus poderia quebrar. No
jogo, James já está derrotado pela sua depressão, mas segue adiante pela
Vontade, imune, de reencontrar sua amada. Daí a conclusão: "Grandes podemos
nos mostrar na felicidade, sublimes apenas na infelicidade." A grandeza
depende do sucesso no mundo sensível; o sublime revela-se precisamente quando
esse mesmo mundo sensível nos esmaga.
Schiller define: "Sublime de modo prático é, portanto,
todo objeto que nos faz notar a nossa impotência enquanto seres naturais, mas
que também descobre em nós uma faculdade de resistência de tipo totalmente
diferente, a qual não afasta o perigo de nossa existência física, mas (o que é
infinitamente mais) dissocia a nossa própria existência física de nossa
personalidade." Este é o cerne da questão. O sublime não nos confere uma
força para salvar nossa pele. Pelo contrário, ele nos expõe cruelmente nossa
impotência física, a fragilidade do nosso corpo, mas, num mesmo ato de
revelação, descobre em nós uma força moral de outra ordem. Esta "faculdade
de resistência" não é física, mas metafísica; é a capacidade de
estabelecer uma cisão ontológica, de poder afirmar: "Isso está acontecendo
com o meu corpo, mas não com quem eu realmente sou."
"Assim, o sublime não se funda de modo algum no
sobrepujamento ou na suspensão de um perigo que nos ameaça, mas antes na
remoção das condições últimas sob as quais o perigo pode se dar para nós".
A grandeza supera um perigo específico; o sublime, porém, não o supera, torna o
próprio conceito de 'perigo' irrelevante para o nosso eu essencial. A segurança
que o sublime proporciona não é uma segurança material e temporária, uma
escapatória, mas uma "segurança ideal", isto é, a nossa verdadeira
identidade, a nossa personalidade, reside em uma esfera inacessível à qualquer
força natural. É a vitória final, não sobre a ameaça, mas sobre a própria
condição de ser ameaçável.
DO SUBLIME CONTEMPLATIVO
Schiller delineia o sublime contemplativo como uma
modalidade distinta da experiência do elevado, caracterizada por uma relação
mais mediada e reflexiva com o objeto. Nesta forma, o indivíduo se depara com
um poder da natureza visivelmente superior às suas forças físicas, mas que,
crucialmente, lhe permite a liberdade de decidir se o relaciona com seu estado
físico e vulnerável ou com sua pessoa moral e autônoma. O estado de ânimo
resultante não é de violência avassaladora, mas de uma tranquila contemplação,
onde o perigo não é iminente, mas meticulosamente construído pelo labor interno
da imaginação.
A mecânica íntima deste processo revela uma participação
ativa e indispensável do sujeito. Do exterior, a natureza fornece apenas a condição
inicial, a representação crua de um poder superior, seja um abismo insondável
ou a cidade em extremo silêncio. As outras duas condições essenciais precisam
ser supridas pela subjetividade. Cabe à faculdade da imaginação, com seu poder
de fabulação, criar uma representação vívida e convincente do perigo que tal
objeto poderia representar. E compete à razão prática, por sua vez, oferecer a
resistência moral a esse perigo imaginado. Schiller sintetiza este processo na
afirmação decisiva de que "para o sublime contemplativo, a natureza não
fornece mais do que um objeto como poder, do qual resta à faculdade de
imaginação fazer algo temível para a humanidade."
Por depender fundamentalmente desta atividade interna, o
sublime contemplativo produz efeitos particulares. Seu impacto é menos intenso
e menos universalmente difundido do que o do sublime patético, que investe
contra a sensibilidade com uma emoção imediata e incontornável. Esta atenuação
deve-se a uma dupla exigência: primeiro, a necessidade de uma imaginação
vigorosa, capaz de gerar por si mesma a representação do temor, faculdade que
nem todos possuem em igual medida; segundo, a exigência de uma força moral que
muitos preferem evitar, desviando conscientemente o pensamento de tais
representações para não se confrontarem com a própria vulnerabilidade. Contudo,
esta mesma mediação confere ao sublime contemplativo uma pureza singular. Sendo
a representação do perigo voluntária e controlada, o ânimo mantém-se mais
senhor da situação. O prazer estético que daí emana é, por consequência, menos
arrebatador, mas também menos misturado com a agitação dolorosa do medo real,
apresentando-se como uma experiência mais serena e intelectualizada.
Para ilustrar a operação da fantasia, Schiller recorre a uma
riqueza de exemplos. De um lado, situam-se os objetos com um fundamento real de
perigo, como um abismo, um animal feroz ou um vulcão. Estes são intrinsecamente
perigosos, cabendo à imaginação a operação relativamente simples de "atar
a existência dessas coisas à nossa existência física" para que o temor
surja. De outro lado, e mais revelador, estão os objetos indiferentes que a
fantasia transforma em fontes de terror. O silêncio profundo, a escuridão
opaca, um clarão súbito, a solidão ou um grande vazio são, em sua natureza,
coisas neutras, desprovidas de um poder ativo que as dirija contra nós. No
entanto, seu caráter extraordinário e indeterminado oferece um campo livre para
a imaginação preencher com seus próprios terrores. Diante do vazio e do
silêncio, a imaginação tensiona-se na expectativa angustiante de algo temível
que está por vir. Schiller invoca Virgílio, que descreve o reino dos mortos
como um lugar de silêncio e vacuidade para incutir pavor, e menciona ainda
rituais, mistérios e superstições que exploram o extraordinário para criar uma
atmosfera solene e temível.
Neste ponto, Schiller identifica o verdadeiro elemento da
imaginação, quais sejam, o secreto, o indefinido e o impenetrável. A razão é
profunda. Quando a realidade não impõe limites claros, como na escuridão ou no
mistério, a imaginação liberta-se da restrição a um caso particular e ganha
acesso ao vasto reino das possibilidades. Este reino, contudo, é povoado
preferencialmente por horrores, devido ao viés negativo inerente ao nosso
impulso de conservação. O "repúdio atua de modo incomparavelmente mais
rápido e poderoso do que o apetite". É uma estratégia de sobrevivência
ancestral, é mais prudente e seguro temer o desconhecido do que esperar dele
benefícios.
Schiller enumera, por fim, os ingredientes primordiais que a
imaginação mobiliza para edificar o seu terrível imaginativo. As trevas,
primeiro, não são terríveis por si, mas porque nos privam do sentido da visão,
"o primeiro vigia de nossa existência", deixando-nos expostos e sem
defesa. A superstição associa fantasmas à meia-noite; o reino da morte é uma
"noite eterna"; Homero descreve a escuridão como um grande mal, e o
herói Ájax suplica por luz para morrer, mas não para morrer no escuro. O
indeterminado, por sua vez, é aterrador porque confere à imaginação a liberdade
absoluta para "colorir a imagem como julgar apropriado". O
conhecimento distinto, ao determinar o objeto, submete-o ao entendimento e
extingue o "jogo arbitrário da fantasia". As descrições do mundo
inferior em Homero, que "flutuam em uma névoa", ou as figuras
espectrais em Ossian, como "formas esvoaçantes de nuvens", são mais
temíveis precisamente por sua contornos imprecisos. Por fim, o velado e o
misterioso exercem um fascínio temível. Tudo o que está oculto por um véu,
físico ou metafísico, convida a imaginação a especular sobre o que há por trás,
e ela, seguindo seu viés, supõe invariavelmente algo terrível. O véu de Ísis,
com a inscrição "Nenhum mortal suspendeu o meu véu", torna a
divindade sublime pela insondabilidade do mistério. As incertezas sobre a
morte, como no monólogo de Hamlet, aterrorizam por serem um mistério
fundamental. O cortejo secreto da deusa Hertha, referido por Tácito, é
terrivelmente sublime porque ninguém que participa sobrevive para revelar o
segredo, levando a imaginação a questionar, com horror, o que poderia ser
"aquilo que custa àquele que o vê a vida". Mistérios religiosos e a
própria majestade real utilizam deliberadamente o segredo para manter um
"pavor sagrado", um respeito fundado na tensão permanente da
"falta de visibilidade".
SUBLIME PATÉTICO
O problema que se ergue no limiar do sublime patético é de
uma contradição profunda, como pode o sofrimento, intrinsecamente hostil à
liberdade do espírito, transformar-se em matéria para a experiência estética?
Schiller enfrenta esta aporia reconhecendo que o sofrimento real é, por
essência, antiestético. Quando um poder não apenas superior, mas ativamente
hostil e destrutivo, se exerce contra o homem, a imaginação é forçada a uma
relação imediata com nosso impulso de autoconservação, gerando um medo e uma
dor que são absolutamente reais. Este sofrimento efetivo, enquanto estado de
violência e coação, "suspende a liberdade do espírito", que é a
condição essencial para qualquer julgamento estético. Para que a dor possa
transcender-se e tornar-se sublime, ela precisa, portanto, ser necessariamente
mediatizada. Deve apresentar-se como "mera ilusão ou criação
poética", ou, se acontecida na realidade histórica, deve ser representada
não para os sentidos de forma direta, mas para a faculdade da imaginação, que a
recebe como imagem e não como acontecimento.
A solução para este impasse reside na dualidade constitutiva
do sublime patético. Esta experiência estética superior só pode florescer
quando se consegue equilibrar, numa tensão produtiva, dois elementos
aparentemente antagônicos. Por um lado, é imprescindível uma representação
sensível vívida e comovedora do sofrimento, capaz de despertar em nós o afeto
compassivo com a máxima intensidade. Sem esta força patética, sem este pathos,
o objeto permaneceria estéril, incapaz de gerar a comoção necessária. Por outro
lado, e de forma simultânea, é fundamental o sentimento vívido de nossa
liberdade moral, a consciência clara de que, embora nossa sensibilidade sofra
com e pelo outro, nossa vontade moral permanece independente e autônoma perante
aquele sofrimento. Schiller é enfático ao distinguir o fundamento verdadeiro do
sublime de um mero subterfúgio psicológico. O sentimento de segurança física, a
consciência de que estamos a salvo no conforto do teatro, não passa de um
"péssimo fiador" para o sublime. O seu alicerce é infinitamente mais
sólido: é a segurança moral. "O sofrimento eleva o nosso ânimo e se torna
sublime de modo patético... porque sentimos o nosso eu moral subtraído à
causalidade desse sofrimento, a saber, à sua influência sobre a determinação de
nossa vontade." A elevação nasce precisamente deste paradoxo, a
sensibilidade é comovida até às lágrimas, mas a razão afirma-se na sua
inexpugnável liberdade.
Deste princípio filosófico, Schiller deduz as leis fundamentais que devem governar toda
arte trágica digna desse nome. Para que uma tragédia realize plenamente a sua
vocação sublime, e não se degrade em mero espetáculo de dor, ela deve conter em
si dois movimentos complementares. Primeiro, "a apresentação da natureza
que sofre": deve mostrar, com toda a crueza e veracidade possíveis, a
realidade do sofrimento, a vulnerabilidade da carne, a angústia da alma, de
modo a despertar no espectador a mais profunda compaixão e a tornar o objeto
verdadeiramente patético. Segundo, e de modo decisivo, deve conter "a
apresentação da autonomia moral no sofrimento": deve revelar, no próprio
seio da agonia, a resistência indomável do personagem. Este pode ser, e
frequentemente é, fisicamente esmagado, a sua existência sensível aniquilada;
mas a sua vontade, os seus princípios ou a sua dignidade interior permanecem
inabalados, ou pelo menos lutam heroicamente para permanecer. É esta centelha
de liberdade no coração mesmo da necessidade, esta autonomia que persiste na
heteronomia mais absoluta, que transforma o patético em sublime.
Assim, o sublime patético consolida-se como a experiência
estética na qual, diante da representação de um sofrimento intenso, somos
simultaneamente comovidos pela compaixão que nos torna humanos e elevados pela
consciência de que a vontade humana é capaz de uma liberdade que o sofrimento
físico não pode, em última instância, destruir. A tragédia, na sua forma mais
pura, revela-se assim como a escola por excelência do sublime: ela treina o
nosso ânimo, de forma segura e mediada, para reconhecermos e valorizarmos,
perante as mais cruéis investidas da fortuna, a inviolável sublimidade da nossa
própria destinação moral.
A DOR DE JAMES, POR
NIETZSCHE
Neste estado de exceção, instala-se uma frieza peculiar no
sofredor. A dor aguda confere um "olhar espantosamente frio" sobre
todas as coisas, uma sobriedade extrema que cura os devaneios perigosos do
espírito saudável. Nietzsche sugere que nesta lucidez, onde toda a sedução da
vida se esvai, se pode ter vislumbrado o que aconteceu com Jesus na cruz, o
momento supremo em que se desfaz a ilusão divina e resta apenas a verdade crua
da condição humana. Esta clarividência forçada pelo sofrimento é, contudo,
insustentável por si só. Para não ser completamente aniquilado por ela, o
sofredor precisa recorrer a um antídoto interior, um orgulho que lhe permite
erguer-se acima da sua própria condição miserável.
Este orgulho transforma a experiência passiva do martírio
num ato de vontade ativa. Ao exclamar para si mesmo "Eu mesmo impus este
castigo!", o indivíduo transfigura a sua relação com o sofrimento. Já não
é vítima, mas carrasco e juiz da própria existência. Esta apropriação ativa da
dor, esta conversão do padecer em querer, constitui um estímulo poderoso para
continuar vivendo. O sentimento de poder sobre o próprio suplício converte-se
no último reduto de autonomia perante o que poderia ser apenas aniquilação.
Contudo, este estado de super-lucidez orgulhosa revela-se
cíclico e transitório. Na fase de convalescença, quando a dor cede e o corpo se
restaura, esse mesmo orgulho é retrospectivamente percebido como uma patologia.
O indivíduo, exausto pela claridade excessiva, anseia por reintegrar-se no
"mundo de névoas" dos saudáveis, nas "luzes amortecidas da
vida" onde as verdades não ferem. A experiência deixa marcas indeléveis,
um cansaço fundamental, mas também uma sensibilidade transformada, capaz de se
comover até às lágrimas com a beleza de uma melodia, precisamente porque
conheceu a sua antítese absoluta.
A lucidez da dor mostra-se assim um estado liminar,
insustentável a longo prazo, mas profundamente transformador para quem a
atravessa. Oferece um conhecimento que não se pode desconhecer, uma visão da
realidade que, uma vez experimentada, modifica para sempre a relação do
indivíduo com as ilusões necessárias à existência.
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