29/11/2025

A VALSA DO ESPÍRITO LIVRE

 


Nietzsche proclamava uma música cujo ideal supremo residiria no fato de que seu maior fascínio consistiria na ignorância do bem e do mal. Tal música não seria moral nem imoral, mas intrinsecamente amoral, tal como a própria natureza, indiferente aos julgamentos humanos. Ela possuiria a capacidade de absorver, num gesto de hospitalidade cósmica, todas as cores de um mundo moral que declina, acolhendo os fugitivos tardios de um sistema de valores em colapso. É descrita com uma nostalgia marítima, uma sombra dourada, uma lembrança terna, porém todos esses matizes se integram numa visão que transcende a moralidade, numa perspectiva que não condena nem redime, mas simplesmente é.


Não seria essa uma música de estilo solene e decadentista, que guarda em êxtase uma forma teatral, da mesma maneira que Nietzsche vislumbrava um resgate da tragédia? Parece plausível que a forma que mais se aproxima desse ideal seja o modelo da valsa, que, tendo germinado em solo alemão, encontrou nos compositores russos da posteridade, Shostakovich, Prokofiev, Khachaturian, sua expressão mais plenamente amoral. Estes não mais a cultivavam num tom “aristocrático”, como outrora Glinka ou Tchaikovsky, mas a transmutaram num veículo de melancolia decadente e nostálgica. A valsa desses compositores posteriores não está preocupada com valores, nem com fins ou origens; sua essência reside no ato puro, no devir-dança. Ela não narra, não justifica; ela ocorre. O que importa é o êxtase do dançar, o movimento orgástico que dissolve a consciência no ritmo, um resgate inequívoco do pathos dionisíaco.


O próprio Nietzsche confessou que somos, no fundo, homens pesados e sérios, e que por isso nada nos faz mais bem que o capuz dos loucos. Precisamos desesperadamente da arte petulante, flutuante, dançante, zombeteira, infantil e bem-aventurada para não perdermos a liberdade que nos coloca acima das coisas. A leveza artística, portanto, é o contrapeso vital à seriedade do conhecimento. A valsa decadentista dos russos é a encarnação sonora desse princípio: é dança, e a dança não é um mero ornamento, mas elemento central da filosofia nietzschiana.


A Gaia Ciência não seria ela própria essa forma de arte? Uma filosofia que dança e canta sobre o abismo, que usa a máscara do louco para suportar o peso insustentável da verdade. A dança é o espírito que anima; é a sabedoria alegre que, após haver encarado as verdades mais terríveis, consegue rir de si mesma e dançar. A missão da Gaia Ciência, expressa em seu derradeiro aforismo, é um manifesto: dissociar a profundidade da gravidade. Demonstrar que é um preconceito associar o pensamento profundo à solenidade pesada. O pensamento mais agudo, mais perigoso e mais verdadeiro pode e deve ser conduzido com o espírito de uma dança.



O conceito de espírito livre nietzschiano está alicerçado na dança, uma vez que o espírito livre é aquele que possui alegria e uma força de soberania individual, uma liberdade do querer. Ele não precisa da muleta da fé; pelo contrário, mantém-se sobre as cordas leves de todas as possibilidades, inclusive a possibilidade de dançar à beira do abismo. Ele aceita a incerteza radical e a falta de fundamentos últimos sem se paralisar. Nietzsche estabelece assim sua metodologia, pensar ao ar livre, caminhando, saltando, subindo, dançando. O valor último de um pensador ou de um livro se mede por sua capacidade de caminhar e de dançar, isto é, por sua agilidade intelectual, sua leveza vital e sua coragem lúdica perante o vazio. A valsa dos russos, em sua melancolia extática, é a realização estética desse ethos: uma filosofia em forma de som, um pensamento que se faz movimento, uma verdade que se aceita apenas no ato de rodopiar.

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