Desde tempos imemoriais, um impulso caótico, batizado de progresso pelo dogmatismo, acompanha o homem em seu processo histórico. Essa força dialeticamente nasce como reflexo da complexidade biológica de sua autoconsciência e da ruptura destrutiva com o ecossistema em que está inserido. Ao mesmo tempo, a própria natureza humana mantém um modo de adaptação parasitária ao ambiente que destrói por meio de sua técnica. Técnica esta que, se ausente, representaria o fim da espécie humana, porque é por meio dela, à luz da sua inteligência, que se desenvolve a sua panóplia evolutiva.
No primeiro gesto que rompe a simbiose, a técnica se manifesta como extensão do corpo humano enquanto invólucro da consciência, tal qual no instante que o homem ressignifica um graveto como uma arma. E isso se desdobra numa linha lógica onde só há avanço, pois algo já foi criado para suprir a necessidade atual, mas nos falta para uma necessidade posterior e, em última análise, a técnica se transfigura num organismo alheio à vontade do indivíduo.
A noção hegeliana de espírito da história (Geist) descreve um princípio
ordenativo necessário no desdobramento dos eventos. Sendo assim, para Hegel,
cada época nasce da contradição da anterior, direcionada a uma superação
dialética imanente. No entanto, essa lógica, que Hegel interpreta como
espiritual, revela-se na modernidade como técnico, impessoal. Essa dinâmica se
intensifica no maquinário capitalista, que eleva essa necessidade a uma escala
infinita em um mundo finito, amplificando o caráter entrópico da técnica. O
capitalismo, por mais antidialético que
pareça, permanece dialético no sentido em que reflete a própria disposição
parasitária da espécie humana.
Tudo opera sob o vetor técnico de modo que nenhuma ideologia regula o
processo; todas são reguladas por ele, até mesmo a mais reacionária. Nesse
sentido, progressismo estrutural é o elo necessário entre técnica e entropia.
Por isso, não há reação possível contra a técnica ou sua aceleração contínua:
dependemos dela para existir, e ela depende de acelerar para continuar
funcionando e, se a técnica opera como um vetor autônomo, entrópico e
indiferente, então nenhuma forma de agir coletivo, política, moral ou ideológica,
é realmente capaz de intervir no curso histórico.
A história, então, não marcha rumo a um ideal, mas esgota o terreno que
a permite operar. À medida que cada inovação cria novas demandas que só podem
ser satisfeitas por inovações ainda mais complexas, a técnica passa a operar em
um regime de expansão contínua. Essa expansão não conhece freios internos,
porque o próprio sistema técnico depende do aumento constante de energia,
velocidade e sofisticação para manter sua funcionalidade. Nesse contexto, a
lógica só pode resultar na intensificação do desgaste material e da entropia
que ela mesma produz. O colapso, portanto, não deriva de falhas morais,
políticas ou civilizacionais, mas do próprio modo de operação da técnica, um
vetor que se expande até romper o suporte que o torna possível, e a resolução
mais honesta seria empurrar isso ao fim.
- FUYUKE
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