O efeito moralizante, frequentemente
manifestado em debates, sobretudo os acadêmico-científicos, tem sido
catastrófico para o indivíduo realmente interessado na busca pela verdade, de
modo que quaisquer discussões terminam limitadas a juízos morais que nada mais
favorecem senão a mesquinhez dos mediocratas, espírito hegemônico na sociedade
vigente. O que acontece, então, é que, mesmo sejam incrédulos da religião, o
hábito desses filisteus pensarem segundo princípios religiosos; aprisionou-lhes
de tal modo os espíritos que temem, no humano, a sua própria nudez e
naturalidade. O que lhes é incômodo no que é selvagem, isto é, desnudo, não é a
ausência de verdade, mas sua potência.
Do fantasma que sustenta essa
máquina emerge a necessidade de resguardar tal ordem, o bem comum, o bem
social. E assim o fazem equiparando de baixo para cima, dos fracos aos fortes,
dos domesticados aos selvagens. É próprio que essa lógica niveladora em prol do
humano, ou seja, do humanitarismo, do homem como conceito, se projete também em
nível científico, notadamente nas ciências comportamentais. O moralismo científico
faz uma análise parcial do indivíduo unicamente na medida em que o próprio indivíduo
serve ao coletivo, ou seja, não enxerga um sujeito, enxerga uma ferramenta que
serve a uma máquina maior e como poderia manter o ritmo da máquina a que serve.
Ela, por sua vez, cumpre a clara prerrogativa de domesticar o coletivo,
torná-lo dócil, uniforme, previsível.
A problemática é que tal moralismo
científico, sob o pretexto de neutralidade, jamais olha para o indivíduo em sua
singularidade, olha apenas para a ferida que essa singularidade causa no corpo
coletivo. O diagnóstico não busca compreender, e sim limita-se a corrigir. Não
descreve o real: deforma-o para caber na medida do útil. Tudo aquilo que escapa
à norma, tudo que transborda potência, tudo que não se submete sem murmúrio ao
protocolo do bem-estar social, é imediatamente convertido em disfunção,
etiqueta clínica, desvio comportamental. A ciência, em seu status quo, então,
em vez de iluminar o humano, o reduz de modo brutal. Seu interesse não é mais a
verdade, mas a manutenção da ordem, e toda ordem, quando erigida acima da vida,
exige sacrifícios: o primeiro deles é sempre o indivíduo.
- FUYUKE
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