01/12/2025

A MORAL TRAVESTIDA DE CIÊNCIA

 


O efeito moralizante, frequentemente manifestado em debates, sobretudo os acadêmico-científicos, tem sido catastrófico para o indivíduo realmente interessado na busca pela verdade, de modo que quaisquer discussões terminam limitadas a juízos morais que nada mais favorecem senão a mesquinhez dos mediocratas, espírito hegemônico na sociedade vigente. O que acontece, então, é que, mesmo sejam incrédulos da religião, o hábito desses filisteus pensarem segundo princípios religiosos; aprisionou-lhes de tal modo os espíritos que temem, no humano, a sua própria nudez e naturalidade. O que lhes é incômodo no que é selvagem, isto é, desnudo, não é a ausência de verdade, mas sua potência.


Do fantasma que sustenta essa máquina emerge a necessidade de resguardar tal ordem, o bem comum, o bem social. E assim o fazem equiparando de baixo para cima, dos fracos aos fortes, dos domesticados aos selvagens. É próprio que essa lógica niveladora em prol do humano, ou seja, do humanitarismo, do homem como conceito, se projete também em nível científico, notadamente nas ciências comportamentais. O moralismo científico faz uma análise parcial do indivíduo unicamente na medida em que o próprio indivíduo serve ao coletivo, ou seja, não enxerga um sujeito, enxerga uma ferramenta que serve a uma máquina maior e como poderia manter o ritmo da máquina a que serve. Ela, por sua vez, cumpre a clara prerrogativa de domesticar o coletivo, torná-lo dócil, uniforme, previsível.


A problemática é que tal moralismo científico, sob o pretexto de neutralidade, jamais olha para o indivíduo em sua singularidade, olha apenas para a ferida que essa singularidade causa no corpo coletivo. O diagnóstico não busca compreender, e sim limita-se a corrigir. Não descreve o real: deforma-o para caber na medida do útil. Tudo aquilo que escapa à norma, tudo que transborda potência, tudo que não se submete sem murmúrio ao protocolo do bem-estar social, é imediatamente convertido em disfunção, etiqueta clínica, desvio comportamental. A ciência, em seu status quo, então, em vez de iluminar o humano, o reduz de modo brutal. Seu interesse não é mais a verdade, mas a manutenção da ordem, e toda ordem, quando erigida acima da vida, exige sacrifícios: o primeiro deles é sempre o indivíduo.


- FUYUKE

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