Muito antes da moral, existe uma disposição fisiológica que age sem pedir permissão. Esse é o impulso primário que antecede qualquer ficção. Esse processo se faz presente na insistência dos pais em tentar manter vivo o mito do Papai Noel no imaginário da criança, e ela entende o jogo dos adultos e trai sua espontaneidade por puro instinto social. No fundo, a criança fingir acreditar nessa farsa é o primeiro ato de cinismo na infância, justamente por ajoelhar sua natureza a conveniência do rebanho
Hoje, essa disposição pré-moral ressurge de forma vulgar e involuntária, e é precisamente nesse ponto que Sv3rige aparece. Por meio de seus vídeos, ele desenvolve uma espécie de materialismo radical que, associado a um egoísmo ético, acaba inclinando ambos diante do seu naturalismo primitivo. O que realmente importa, porém, é que Sv3rige não expressa isso por intenção, ele retorna sem qualquer elaboração consciente, é puro impulso amoral.
E aqui, enfim, o primitivismo de Gatis colapsa, pois sua época não possui sequer a possibilidade ontológica de retornar ao puro instinto. O fetichismo surge porque ele não vive o natural, e sim, idealiza. Instinto puro só existe onde não há reflexão. E é justo nessa idealização que seu materialismo ruí; ao pretender aceitar apenas o que é NATURAL, ele transforma a natureza em valor, em critério e em norma, algo que nenhum materialismo coerente poderia sustentar. A natureza não possui finalidade, pureza ou direção, quem a moraliza é o homem. Assim, enquanto se apresenta como naturalista, Gatis repete o gesto mais antinatural possível, converte um dado biológico em imperativo moral. Seu naturalismo torna-se, portanto, uma moralidade invertida, um moralismo de carne crua que só existe porque a própria natureza já foi perdida.
- FUYUKE
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