20/11/2025

SOBRE A CONFUSÃO LÓGICA DE SV3RIGE

 

A modernidade, certa de ter domesticado o homem, é continuamente desmentida pelo instinto pré-moral que, insistentemente, vaza pelas fendas, renascido sob novos nomes, novos símbolos, novas máscaras. Max Stirner o identificava na criança pré-espiritual (der Knabe), Nietzsche o reconhecia na inocência predatória da besta loira (Die “blonde Bestie”). Hoje, assistimos ao retorno grotesco dessa mesma essência, novamente disfarçada, e reaparecendo sem grandeza, sem mito e sem o luxo da academia, apenas como uma força instintiva a qual recusa-se a ser convertida em moral, e é nessa subjetividade que escapa à domesticação onde encarna o instinto existencial de Gatis Lagzdins, também conhecido como Sv3rige.


Muito antes da moral, existe uma disposição fisiológica que age sem pedir permissão. Esse é o impulso primário que antecede qualquer ficção. Esse processo se faz presente na insistência dos pais em tentar manter vivo o mito do Papai Noel no imaginário da criança, e ela entende o jogo dos adultos e trai sua espontaneidade por puro instinto social. No fundo, a criança fingir acreditar nessa farsa é o primeiro ato de cinismo na infância, justamente por ajoelhar sua natureza a conveniência do rebanho


Hoje, essa disposição pré-moral ressurge de forma vulgar e involuntária, e é precisamente nesse ponto que Sv3rige aparece. Por meio de seus vídeos, ele desenvolve uma espécie de materialismo radical que, associado a um egoísmo ético, acaba inclinando ambos diante do seu naturalismo primitivo. O que realmente importa, porém, é que Sv3rige não expressa isso por intenção, ele retorna sem qualquer elaboração consciente, é puro impulso amoral.


E aqui, enfim, o primitivismo de Gatis colapsa, pois sua época não possui sequer a possibilidade ontológica de retornar ao puro instinto. O fetichismo surge porque ele não vive o natural, e sim, idealiza. Instinto puro só existe onde não há reflexão. E é justo nessa idealização que seu materialismo ruí; ao pretender aceitar apenas o que é NATURAL, ele transforma a natureza em valor, em critério e em norma, algo que nenhum materialismo coerente poderia sustentar. A natureza não possui finalidade, pureza ou direção, quem a moraliza é o homem. Assim, enquanto se apresenta como naturalista, Gatis repete o gesto mais antinatural possível, converte um dado biológico em imperativo moral. Seu naturalismo torna-se, portanto, uma moralidade invertida, um moralismo de carne crua que só existe porque a própria natureza já foi perdida.


- FUYUKE

Nenhum comentário:

Postar um comentário