12/01/2026

NIETZSCHE E A PSICOLOGIA: O CONCEITO DE RESSENTIMENTO

Freud, diante da ferida psíquica, postulou a necessidade de uma arquitetura dupla. De um lado, ergue-se o Sistema Consciente, ou Perceptivo: uma superfície externa, uma membrana sempre fresca e flexível voltada para o mundo. Sua natureza é a do instante puro; recebe as excitações, mas não as retém. Nela, a consciência brota precisamente onde o traço mnêmico, a marca durável, se apaga. É um órgão do presente absoluto. Do outro lado, interior e profundo, habita o Sistema Inconsciente, o reino mnêmico. Aqui, as excitações são alquimizadas em traços fixos e imutáveis, as verdadeiras memórias. Para Freud, nossas lembranças são, por essência, in
conscientes. Esse duplo sistema visa, sobretudo, a proteção: o consciente opera como uma cortina protetora, um filtro que regula o influxo do exterior, defendendo a vida interior do excesso.



Nietzsche, por vias filosóficas próprias, desenhou uma topografia notavelmente análoga, porém inscrita na dinâmica de suas forças reativas. Em sua tipologia, o aparato reativo também se cliva em dois. Há, primeiro, o Sistema Inconsciente-Ruminal, sombrio correspondente do sistema mnêmico freudiano. É um organismo vegetativo e passivo, uma caverna da ruminação onde a energia se investe na fixação obstinada às marcas traumáticas. É a morada do ressentimento, essa incapacidade patológica de descartar as impressões recebidas, um pastoreio lento e venenoso do passado. Em oposição, Nietzsche situa o Sistema Consciente-Atual, espelho do perceptivo freudiano: uma superfície fluida, móvel, perpetuamente renovada, que reage às imagens diretas e imediatas do agora. Nesta esfera, a reação pode ainda encontrar uma certa vitalidade, pois se exercita sobre o real presente, e não sobre os fantasmas espectralizados.


A mera coexistência desses dois sistemas reativos seria insuficiente para sustentar a vida. Se o sistema consciente, leve e poroso, fosse constantemente inundado pelos traços fixos e pesados do inconsciente ruminante, ele se esclerotizaria, perderia sua flexibilidade vital. A consciência petrificada tornar-se-ia um espelho opaco, incapaz de refletir o novo. É neste limiar crítico que Nietzsche introduz sua fisiologia filosófica: uma força ativa, distinta e superior. Essa força é a faculdade do esquecimento.


A tradição filosófica, observa Nietzsche, sempre considerou o esquecimento uma falta, uma força da inércia, um defeito na tabela das faculdades. Ele inverte radicalmente esta valoração. O esquecimento não é uma lacuna, mas uma presença vigorosa; não é uma passividade, mas um ato. É uma faculdade de entorpecimento ativo, um aparato de amortecimento positivo, uma força plástica, regenerativa e curativa. Sua função nobre é a de guardião da consciência. Trabalha sem descanso para impedir que os traços ruminantes invadam a clareira do presente. Atua como um filtro seletivo, uma peneira finíssima que permite à consciência manter-se leve, fresca e disponível para o encontro. É uma força ativa que se coloca a serviço das forças reativas, não para glorificá-las, mas para mantê-las funcionais, para evitar que se tornem disfuncionais e patológicas. Ela não age por um impulso próprio autônomo, mas opera funcionalmente, como um mecanismo de alta precisão que toma emprestada energia das reações ativadas do sistema consciente para bloquear, silenciosamente, o murmúrio infinito do sistema ruminante. O esquecimento ativo é, assim, a condição de possibilidade de toda felicidade, serenidade, orgulho e afirmação do instante.


O que sobrevém quando essa faculdade ativa do esquecimento fraqueja, quando seu vigor se esvai? Os traços fixos do inconsciente, irrompem através da superfície. O sistema consciente, agora ocupado e colonizado por estas marcas passadas, perde sua capacidade de reagir de modo ativado às excitações presentes. Paralelamente, o sistema ruminante, liberto de sua contenção, torna-se hiper-sensível e dominante. O resultado não é uma guerra entre ativo e reativo, mas uma calamidade mais insidiosa: um combate subterrâneo que se desenrola inteiramente no plano das forças reativas. Uma modalidade de reação, a do passado esclerótico, trava e paralisa a outra modalidade de reação, a do presente imediato. Este é o estado de doença em sua pureza. Não se trata da derrota das forças ativas por uma força superior, mas de sua privação da condição mesma para seu exercício. O campo de batalha é tomado por uma luta reativa interna, um conflito estéril e espelhado.


O ressentimento é uma reação que, simultaneamente, se torna sensível e deixa de ser ativada. Esta fórmula, define a doença em geral. A doença, e o niilismo que ela arrasta consigo, não é a ausência de reação, mas o colapso catastrófico da distinção entre os dois sistemas reativos, um curto-circuito provocado pela falência da força ativa do esquecimento. A vida, então, contrai-se. Fica presa na ruminação infinita do traumático, incapaz de criar no presente, condenada a repetir, no teatro sombrio da interioridade, um passado que nunca passa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário