Nietzsche, por vias filosóficas próprias, desenhou uma
topografia notavelmente análoga, porém inscrita na dinâmica de suas forças
reativas. Em sua tipologia, o aparato reativo também se cliva em dois. Há,
primeiro, o Sistema Inconsciente-Ruminal, sombrio correspondente do sistema
mnêmico freudiano. É um organismo vegetativo e passivo, uma caverna da
ruminação onde a energia se investe na fixação obstinada às marcas traumáticas.
É a morada do ressentimento, essa incapacidade patológica de descartar as
impressões recebidas, um pastoreio lento e venenoso do passado. Em oposição,
Nietzsche situa o Sistema Consciente-Atual, espelho do perceptivo freudiano:
uma superfície fluida, móvel, perpetuamente renovada, que reage às imagens
diretas e imediatas do agora. Nesta esfera, a reação pode ainda encontrar uma
certa vitalidade, pois se exercita sobre o real presente, e não sobre os
fantasmas espectralizados.
A mera coexistência desses dois sistemas reativos seria
insuficiente para sustentar a vida. Se o sistema consciente, leve e poroso,
fosse constantemente inundado pelos traços fixos e pesados do inconsciente
ruminante, ele se esclerotizaria, perderia sua flexibilidade vital. A
consciência petrificada tornar-se-ia um espelho opaco, incapaz de refletir o
novo. É neste limiar crítico que Nietzsche introduz sua fisiologia filosófica:
uma força ativa, distinta e superior. Essa força é a faculdade do esquecimento.
A tradição filosófica, observa Nietzsche, sempre considerou
o esquecimento uma falta, uma força da inércia, um defeito na tabela das
faculdades. Ele inverte radicalmente esta valoração. O esquecimento não é uma
lacuna, mas uma presença vigorosa; não é uma passividade, mas um ato. É uma
faculdade de entorpecimento ativo, um aparato de amortecimento positivo, uma
força plástica, regenerativa e curativa. Sua função nobre é a de guardião da
consciência. Trabalha sem descanso para impedir que os traços ruminantes
invadam a clareira do presente. Atua como um filtro seletivo, uma peneira
finíssima que permite à consciência manter-se leve, fresca e disponível para o
encontro. É uma força ativa que se coloca a serviço das forças reativas, não
para glorificá-las, mas para mantê-las funcionais, para evitar que se tornem
disfuncionais e patológicas. Ela não age por um impulso próprio autônomo, mas
opera funcionalmente, como um mecanismo de alta precisão que toma emprestada
energia das reações ativadas do sistema consciente para bloquear,
silenciosamente, o murmúrio infinito do sistema ruminante. O esquecimento ativo
é, assim, a condição de possibilidade de toda felicidade, serenidade, orgulho e
afirmação do instante.
O que sobrevém quando essa faculdade ativa do esquecimento
fraqueja, quando seu vigor se esvai? Os traços fixos do inconsciente, irrompem
através da superfície. O sistema consciente, agora ocupado e colonizado por
estas marcas passadas, perde sua capacidade de reagir de modo ativado às
excitações presentes. Paralelamente, o sistema ruminante, liberto de sua
contenção, torna-se hiper-sensível e dominante. O resultado não é uma guerra
entre ativo e reativo, mas uma calamidade mais insidiosa: um combate
subterrâneo que se desenrola inteiramente no plano das forças reativas. Uma
modalidade de reação, a do passado esclerótico, trava e paralisa a outra
modalidade de reação, a do presente imediato. Este é o estado de doença em sua
pureza. Não se trata da derrota das forças ativas por uma força superior, mas
de sua privação da condição mesma para seu exercício. O campo de batalha é
tomado por uma luta reativa interna, um conflito estéril e espelhado.
O ressentimento é uma reação que, simultaneamente, se torna
sensível e deixa de ser ativada. Esta fórmula, define a doença em geral. A
doença, e o niilismo que ela arrasta consigo, não é a ausência de reação, mas o
colapso catastrófico da distinção entre os dois sistemas reativos, um
curto-circuito provocado pela falência da força ativa do esquecimento. A vida,
então, contrai-se. Fica presa na ruminação infinita do traumático, incapaz de
criar no presente, condenada a repetir, no teatro sombrio da interioridade, um
passado que nunca passa.
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