19/01/2026

NIETZSCHE: A AUTOTRANSVALORAÇÃO DE SUA FILOSOFIA


Em sua investigação sobre o espírito trágico, Nietzsche ergue uma visão de mundo contra dois grandes sistemas de pensamento: a dialética, em suas formas socrática e moderna, e a doutrina cristã. Ele narra a genealogia de um assassinato filosófico, a morte da tragédia, perpetrada por três vezes. A primeira morte veio com a dialética socrática, que inoculou no pensamento ocidental um otimismo racionalista e uma fé ingênua na solução lógica para o enigma da existência. A segunda foi obra do cristianismo, que, horrorizado com a dor imanente ao mundo, ofereceu a quimera da redenção e uma justificação moral para o sofrimento. A terceira e mais insidiosa morte ocorreu na modernidade, através da combinação da dialética hegeliana e do drama musical wagneriano, que estetizou a reconciliação, transformando o conflito radical em espetáculo harmonioso.

A dialética e cristianismo são, para Nietzsche, co-conspiradores na grande conspiração contra a vida. Ambos são constitucionalmente incapazes de habitar, compreender ou pensar o verdadeiro trágico, pois ambos repudiam a vida em sua dor e contradição íntima, para, em seguida, prometer uma solução transcendente, seja a síntese dialética que supera a antítese, seja a salvação divina que resgata o pecado.


O trágico autêntico, que Nietzsche crê ter descoberto, até contra uma certa leitura edulcorada dos próprios gregos, exige uma visão diametralmente oposta, uma afirmação sem fuga. O próprio filósofo reconhece, contudo, que à primeira vista sua obra juvenil, O Nascimento da Tragédia, parecia escapar à malha dialética devido à sua profunda inspiração schopenhaueriana. No entanto, ele próprio, em sua maturidade, lança um alerta, qual seja: o esquema fundamental do livro ainda respirava no interior da lógica que pretendia combater, chegando a admitir que o texto "cheira a hegelianismo". Por quê? Porque a obra ainda se estrutura em torno de uma contradição primordial, aquela entre a unidade dionisíaca e o princípio de individuação apolíneo, uma contradição que precisava ser justificada, redimida e reconciliada para fazer sentido. As próprias categorias empregadas eram, no fundo, categorias dialéticas transvestidas de mito grego.


Nessa concepção inicial, Apolo e Dionísio surgem como dois modos antitéticos de resolver a mesma contradição fundamental do ser. Apolo a resolveria mediatamente, erguendo o véu da bela aparência para encobrir o sofrimento abissal. Dionísio a resolveria imediatamente, dissolvendo o indivíduo no êxtase atroz e no prazer superior do ser original Uno. A tragédia, então, seria a síntese precária e admirável entre esses dois impulsos, onde o fundo dionisíaco, essencialmente sofredor, encontrava expressão através das formas apolíneas do drama. Persistia ali, inegável, o movimento trágico clássico: a tese da unidade indiferenciada, a antítese da individuação ilusória e a síntese reconciliadora na obra de arte trágica.


O grande salto do pensamento nietzschiano, sua virada decisiva, consistiu na superação completa e irredutível desse esquema. O trágico maduro não é mais a representação, nem muito menos a solução de uma contradição. É algo de natureza totalmente diversa: a afirmação pura, límpida e alegre da vida, incluindo em seu seio, sem exclusão ou hierarquia, todo o sofrimento, a dor, a destruição e o contraditório que lhe são inerentes. O trágico torna-se a coragem suprema de dizer sim.


Esta nova concepção cristaliza-se em dois pilares centrais da filosofia madura de Nietzsche. O primeiro é a doutrina do Eterno Retorno. Longe de ser uma mera repetição cíclica do idêntico, ela é a seletividade afirmativa elevada à potência cósmica. Só retorna o que pode ser desejado infinitamente, o que foi plenamente amado e aceito em sua singularidade irrepetível. O trágico transforma-se, assim, na fórmula máxima para amar a vida em sua totalidade incondicional, sem subtrair dela nenhum fragmento, sem buscar redimi-la ou justificá-la.


O segundo pilar é a Vontade de Potência, compreendida não como vontade de domínio, mas como elemento diferencial e qualificador das forças. Ela é o princípio que permite discernir entre forças ativas, que afirmam e transbordam, e forças reativas, que negam e se defendem. O trágico é a expressão consumada da vontade de potência ativa, que afirma sua própria diferença e nela se regozija, sem necessidade de negar o outro, sem se enredar na lógica da contradição e da superação para se definir. É a pura positividade do diferir.


Nesta chave transvalorada, Dionísio sofre uma transmutação radical. Deixa de ser o deus sofredor, o deus despedaçado que clamava pela reconciliação com Apolo. Transfigura-se no deus filosófico que afirma a vida em sua plenitude ambivalente, que diz "sim" ao devir, à criação e à destruição indissociáveis. O sofrimento já não é um problema a ser resolvido pela lógica ou pela graça; converte-se em componente intrínseco do júbilo trágico de existir, do prazer metafísico de sentir-se parte do fluxo eterno e irredutível do real.


Deste modo, a visão trágica madura de Nietzsche opõe-se ponto a ponto, numa inversão total, à visão dialética. Contra a negação como motor do pensamento, ele opõe a afirmação como potência criadora. Contra a contradição como estrutura da realidade, ele opõe a diferença como fenômeno primordial. Contra a reconciliação e a redenção como fins últimos, ele opõe a aceitação jubilosa do conflito perene e do devir incessante. Contra o trabalho do negativo, ele opõe o prazer da diferença em seu jogo infinito.


Assim, a genealogia do conceito de "trágico" em Nietzsche desvela muito mais do que a evolução de um tema estético. Ela serve para demonstrar, o núcleo do antidialetismo nietzschiano. O trágico deixa definitivamente para trás o território do gênero teatral ou da visão pessimista para se tornar a expressão filosófica suprema de um pensamento que, em sua maturidade, ousa afirmar a vida sem reservas, superando de vez as estruturas de pensamento, dialéticas e cristãs, que encontram na negação da vida o seu primeiro e último alento.


Contudo, se O Nascimento da Tragédia se estrutura na célebre oposição estética entre Dionísio e Apolo, a verdadeira linha de fratura filosófica que Nietzsche ali descobre é mais profunda e de consequências mais fatais. Trata-se da oposição irreconciliável entre Dionísio e Sócrates. Sócrates encarna a "inversão" catastrófica dos instintos: nele, o instinto vital, outrora criador e transbordante, torna-se crítico, e a consciência, antes um instrumento a serviço da vida, erige-se em juíza criadora de uma realidade à parte. Ele é o arquétipo do "homem teórico" que inaugura a decadência, pois pela primeira vez põe o conceito, a ideia lógica, acima do fenômeno vivo, exigindo que a vida seja julgada, medida e justificada por um padrão exterior a ela mesma, a razão. Aqui, na figura do ironista ateniense, está plantada a semente venenosa que germinará na moral platônica e florescerá no niilismo cristão: a desconfiança radical na existência tal como ela se dá.


Toda a filosofia posterior de Nietzsche consistirá, então, em um gesto de liberação. Trata-se de libertar esses germes dionisíacos de afirmatividade de seu casulo dialético ainda schopenhaueriano, conduzindo-os à sua consequência extrema e mais perigosa. Este programa de transvaloração desdobra-se em três movimentos decisivos.


 O primeiro movimento é uma purificação radical do elemento afirmativo. Dionísio deve ser desprendido de qualquer subordinação a um "prazer superior" de caráter místico ou a uma unidade primordial entendida como fuga. A afirmação deve valer por si só, como potência imanente e autossuficiente da vida que se quer a si mesma, inclusive em sua dor, em seu perecimento, em sua contradição interna. É o surgimento do Dionísio filósofo, que deixa para trás as vestes do deus do êxtase coletivo para se tornar o princípio encarnado do amor fati e a pedra de toque do eterno retorno, a vontade de que cada fragmento da existência retorne, eternamente, tal como foi.


O segundo movimento implica uma reconfiguração total das oposições fundadoras. A antítese estética Dionísio-Apolo, própria de um esquema ainda reconciliatório, é substituída por uma constelação diversa. Surge a complementaridade erótica e criadora de Dionísio e Ariadne, onde o deus que afirma encontra na parceira não uma antítese, mas a compreensão ativa que desenreda o fio do labirinto do devir. E, de modo mais crucial e devastador, a oposição histórica Dionísio-Sócrates cede seu lugar à oposição absoluta, "Dionísio contra o Crucificado". O cristianismo é identificado, então, como a negação radical, o verdadeiro inimigo por excelência, pois nega de forma sistemática todos os valores estéticos, tanto apolíneos quanto dionisíacos, em nome de um mundo transcendente de verdade e pureza. Enquanto Dionísio representa o "limite extremo da afirmação", a figura do Crucificado ergue-se como o símbolo máximo do niilismo, da vida que vira contra si mesma, que condena a vida em nome de um suposto valor superior.


Isto conduz ao terceiro e derradeiro movimento: a descoberta do “inimigo essencial”. Sócrates revela-se um prenúncio, um sintoma precursor, mas o cristianismo é a realização plena, a corporificação genial e histórica da "empresa da negação". Ele é quem dá à negação da vida "toda a sua força" e "sua essência" concreta, tecendo-a em dogma, em instituição, em sensibilidade profunda. A luta deixa, portanto, de ser uma querela entre deuses gregos ou um conflito entre estilos culturais; eleva-se ao patamar de uma guerra cósmica entre duas potências fundamentais que disputam a alma do mundo: a potência que afirma o mundo, o devir, a aparência e a terra em sua plenitude desmesurada, e a potência que os nega em nome de uma verdade superior, de um ser imutável, de um reino que não é deste mundo.

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