A dialética e cristianismo são, para Nietzsche,
co-conspiradores na grande conspiração contra a vida. Ambos são
constitucionalmente incapazes de habitar, compreender ou pensar o verdadeiro
trágico, pois ambos repudiam a vida em sua dor e contradição íntima, para, em
seguida, prometer uma solução transcendente, seja a síntese dialética que
supera a antítese, seja a salvação divina que resgata o pecado.
O trágico autêntico, que Nietzsche crê ter descoberto, até
contra uma certa leitura edulcorada dos próprios gregos, exige uma visão
diametralmente oposta, uma afirmação sem fuga. O próprio filósofo reconhece,
contudo, que à primeira vista sua obra juvenil, O Nascimento da Tragédia,
parecia escapar à malha dialética devido à sua profunda inspiração
schopenhaueriana. No entanto, ele próprio, em sua maturidade, lança um alerta,
qual seja: o esquema fundamental do livro ainda respirava no interior da lógica
que pretendia combater, chegando a admitir que o texto "cheira a
hegelianismo". Por quê? Porque a obra ainda se estrutura em torno de uma
contradição primordial, aquela entre a unidade dionisíaca e o princípio de
individuação apolíneo, uma contradição que precisava ser justificada, redimida
e reconciliada para fazer sentido. As próprias categorias empregadas eram, no
fundo, categorias dialéticas transvestidas de mito grego.
Nessa concepção inicial, Apolo e Dionísio surgem como dois
modos antitéticos de resolver a mesma contradição fundamental do ser. Apolo a
resolveria mediatamente, erguendo o véu da bela aparência para encobrir o
sofrimento abissal. Dionísio a resolveria imediatamente, dissolvendo o
indivíduo no êxtase atroz e no prazer superior do ser original Uno. A tragédia,
então, seria a síntese precária e admirável entre esses dois impulsos, onde o
fundo dionisíaco, essencialmente sofredor, encontrava expressão através das
formas apolíneas do drama. Persistia ali, inegável, o movimento trágico
clássico: a tese da unidade indiferenciada, a antítese da individuação ilusória
e a síntese reconciliadora na obra de arte trágica.
O grande salto do pensamento nietzschiano, sua virada
decisiva, consistiu na superação completa e irredutível desse esquema. O
trágico maduro não é mais a representação, nem muito menos a solução de uma
contradição. É algo de natureza totalmente diversa: a afirmação pura, límpida e
alegre da vida, incluindo em seu seio, sem exclusão ou hierarquia, todo o
sofrimento, a dor, a destruição e o contraditório que lhe são inerentes. O
trágico torna-se a coragem suprema de dizer sim.
Esta nova concepção cristaliza-se em dois pilares centrais
da filosofia madura de Nietzsche. O primeiro é a doutrina do Eterno Retorno.
Longe de ser uma mera repetição cíclica do idêntico, ela é a seletividade
afirmativa elevada à potência cósmica. Só retorna o que pode ser desejado
infinitamente, o que foi plenamente amado e aceito em sua singularidade
irrepetível. O trágico transforma-se, assim, na fórmula máxima para amar a vida
em sua totalidade incondicional, sem subtrair dela nenhum fragmento, sem buscar
redimi-la ou justificá-la.
O segundo pilar é a Vontade de Potência, compreendida não
como vontade de domínio, mas como elemento diferencial e qualificador das
forças. Ela é o princípio que permite discernir entre forças ativas, que
afirmam e transbordam, e forças reativas, que negam e se defendem. O trágico é
a expressão consumada da vontade de potência ativa, que afirma sua própria
diferença e nela se regozija, sem necessidade de negar o outro, sem se enredar
na lógica da contradição e da superação para se definir. É a pura positividade
do diferir.
Nesta chave transvalorada, Dionísio sofre uma transmutação
radical. Deixa de ser o deus sofredor, o deus despedaçado que clamava pela
reconciliação com Apolo. Transfigura-se no deus filosófico que afirma a vida em
sua plenitude ambivalente, que diz "sim" ao devir, à criação e à
destruição indissociáveis. O sofrimento já não é um problema a ser resolvido
pela lógica ou pela graça; converte-se em componente intrínseco do júbilo
trágico de existir, do prazer metafísico de sentir-se parte do fluxo eterno e
irredutível do real.
Deste modo, a visão trágica madura de Nietzsche opõe-se
ponto a ponto, numa inversão total, à visão dialética. Contra a negação como
motor do pensamento, ele opõe a afirmação como potência criadora. Contra a
contradição como estrutura da realidade, ele opõe a diferença como fenômeno
primordial. Contra a reconciliação e a redenção como fins últimos, ele opõe a
aceitação jubilosa do conflito perene e do devir incessante. Contra o trabalho
do negativo, ele opõe o prazer da diferença em seu jogo infinito.
Assim, a genealogia do conceito de "trágico" em
Nietzsche desvela muito mais do que a evolução de um tema estético. Ela serve
para demonstrar, o núcleo do antidialetismo nietzschiano. O trágico deixa definitivamente
para trás o território do gênero teatral ou da visão pessimista para se tornar
a expressão filosófica suprema de um pensamento que, em sua maturidade, ousa
afirmar a vida sem reservas, superando de vez as estruturas de pensamento,
dialéticas e cristãs, que encontram na negação da vida o seu primeiro e último
alento.
Contudo, se O Nascimento da Tragédia se estrutura na célebre
oposição estética entre Dionísio e Apolo, a verdadeira linha de fratura
filosófica que Nietzsche ali descobre é mais profunda e de consequências mais
fatais. Trata-se da oposição irreconciliável entre Dionísio e Sócrates.
Sócrates encarna a "inversão" catastrófica dos instintos: nele, o
instinto vital, outrora criador e transbordante, torna-se crítico, e a
consciência, antes um instrumento a serviço da vida, erige-se em juíza criadora
de uma realidade à parte. Ele é o arquétipo do "homem teórico" que
inaugura a decadência, pois pela primeira vez põe o conceito, a ideia lógica,
acima do fenômeno vivo, exigindo que a vida seja julgada, medida e justificada
por um padrão exterior a ela mesma, a razão. Aqui, na figura do ironista
ateniense, está plantada a semente venenosa que germinará na moral platônica e
florescerá no niilismo cristão: a desconfiança radical na existência tal como
ela se dá.
Toda a filosofia posterior de Nietzsche consistirá, então,
em um gesto de liberação. Trata-se de libertar esses germes dionisíacos de
afirmatividade de seu casulo dialético ainda schopenhaueriano, conduzindo-os à
sua consequência extrema e mais perigosa. Este programa de transvaloração
desdobra-se em três movimentos decisivos.
O primeiro movimento
é uma purificação radical do elemento afirmativo. Dionísio deve ser desprendido
de qualquer subordinação a um "prazer superior" de caráter místico ou
a uma unidade primordial entendida como fuga. A afirmação deve valer por si só,
como potência imanente e autossuficiente da vida que se quer a si mesma,
inclusive em sua dor, em seu perecimento, em sua contradição interna. É o
surgimento do Dionísio filósofo, que deixa para trás as vestes do deus do
êxtase coletivo para se tornar o princípio encarnado do amor fati e a pedra de
toque do eterno retorno, a vontade de que cada fragmento da existência retorne,
eternamente, tal como foi.
O segundo movimento implica uma reconfiguração total das
oposições fundadoras. A antítese estética Dionísio-Apolo, própria de um esquema
ainda reconciliatório, é substituída por uma constelação diversa. Surge a
complementaridade erótica e criadora de Dionísio e Ariadne, onde o deus que
afirma encontra na parceira não uma antítese, mas a compreensão ativa que
desenreda o fio do labirinto do devir. E, de modo mais crucial e devastador, a
oposição histórica Dionísio-Sócrates cede seu lugar à oposição absoluta,
"Dionísio contra o Crucificado". O cristianismo é identificado,
então, como a negação radical, o verdadeiro inimigo por excelência, pois nega
de forma sistemática todos os valores estéticos, tanto apolíneos quanto
dionisíacos, em nome de um mundo transcendente de verdade e pureza. Enquanto
Dionísio representa o "limite extremo da afirmação", a figura do
Crucificado ergue-se como o símbolo máximo do niilismo, da vida que vira contra
si mesma, que condena a vida em nome de um suposto valor superior.
Isto conduz ao terceiro e derradeiro movimento: a descoberta
do “inimigo essencial”. Sócrates revela-se um prenúncio, um sintoma precursor,
mas o cristianismo é a realização plena, a corporificação genial e histórica da
"empresa da negação". Ele é quem dá à negação da vida "toda a
sua força" e "sua essência" concreta, tecendo-a em dogma, em
instituição, em sensibilidade profunda. A luta deixa, portanto, de ser uma
querela entre deuses gregos ou um conflito entre estilos culturais; eleva-se ao
patamar de uma guerra cósmica entre duas potências fundamentais que disputam a
alma do mundo: a potência que afirma o mundo, o devir, a aparência e a terra em
sua plenitude desmesurada, e a potência que os nega em nome de uma verdade
superior, de um ser imutável, de um reino que não é deste mundo.
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