GEORGES BATAILLE: DA ORGIA AO CASAMENTO

A percepção comum situa o casamento no polo oposto ao do erotismo. Este, em sua manifestação é identificado com a transgressão. O casamento, por contraste, surge como o esteio dessa fachada, o instrumento da ordem, da procriação controlada e da estabilidade dos bens. No entanto, esta oposição é ilusória em sua superfície. Há, na própria base da instituição conjugal, um caráter de transgressão que a constitui e que, uma vez reconhecido, revela a complexa dialética que governa todo o erotismo humano. Para iluminar este paradoxo, é preciso recorrer ao exemplo do sacrifício, esse ato religioso por excelência que consiste na violação ritual de um interdito fundamental, o de matar. O sacrifício é a prova viva de que a lei pode conter em si mesma a previsão de sua própria infração, consagrando-a como um ato lícito e mesmo sagrado em circunstâncias determinadas. 


O casamento se apresenta como uma estrutura análoga. O primeiro ato sexual que o consuma, a união com a mulher, particularmente se esta é virgem, constitui uma violação, mas uma violação sancionada, um trespassar de um limite que é ao mesmo tempo negado e autorizado. Em muitas sociedades arcaicas, a posse das irmãs e filhas era um direito exclusivo do grupo de parentesco. Este direito, no entanto, era transferido para um estrangeiro, para um homem vindo de fora, precisamente para a realização do ato de defloração. O estrangeiro, por não estar submetido às mesmas interdições que os membros do grupo, por ser ele próprio uma figura liminar, encontrava-se na posição privilegiada para executar a transgressão necessária que fundava a nova aliança e a nova família. Esta lógica oferece uma chave para compreender o chamado "direito de cuissage", o suposto direito do senhor feudal à primeira noite da noiva. Longe de ser apenas um abuso de poder arbitrário, ele pode ser visto como o resquício de uma função ritual. O soberano ou o sacerdote, investidos de um caráter sagrado que os coloca para além ou para aquém das regras comuns, eram os únicos capazes de tocar, sem se contaminar e sem contaminar a ordem social, aquilo que era interdito aos outros homens.


O ato sexual carrega consigo, assim, um valor de perversidade, uma sombra de infração que não se dissipa inteiramente mesmo na intimidade consagrada do casamento. Há sempre, em cada encontro, um eco da primeira vez, um resquício daquela transgressão original que instaurou a união. Este caráter fundamental é muitas vezes obscurecido pela própria palavra "casamento", que designa indiferentemente o instante da passagem, o ato inaugural que rompe um estado anterior, e o estado duradouro que se segue, a vida conjugal com seu cortejo de hábitos, tarefas e preocupações econômicas e sociais. O hábito, com efeito, tende a atenuar a intensidade daquela centelha inicial, submergindo o erotismo sob as exigências da construção do lar, da criação dos filhos e da acumulação de obras. No entanto, uma observação mais atenta revela que o hábito não é apenas um agente de apagamento. Ele pode também ser o terreno de um aprofundamento. A compreensão secreta e paciente dos corpos, que só o tempo e a intimidade repetida podem estabelecer, é capaz de conduzir a um prazer mais denso, mais enraizado, que a impaciência da descoberta inicial ignora. Mas este aprofundamento não deixa de ser tributário daquela liberação intensa que, no princípio, dependeu da desordem e da infração. A questão permanece, insolúvel em sua formulação simples: o amor profundo, mesmo aquele que floresce no interior do casamento, seria acessível sem o contágio, sem a memória ou a sombra projetada pelos amores que se situam deliberadamente fora da lei? A pergunta insinua que a transgressão, mesmo quando recalcada ou esquecida, continua a alimentar o erotismo nos próprios lugares onde ele parece ter encontrado seu leito mais estável.


O casamento, porém, é apenas uma solução particular, e limitada, para o problema colocado pela violência do erotismo, que precisa ser refreada para que a vida do trabalho e da ordem seja possível, mas que não pode ser simplesmente suprimida. Para além dele, as festas, e em particular as orgias, surgem como os dispositivos coletivos que asseguram, de forma periódica e controlada, a possibilidade da infração e, por meio dela, a possibilidade mesma do retorno à vida normal. A orgia é a negação ritual de todos os limites que a vida laboriosa impõe. Ela é uma subversão deliberada e completa da ordem. As Saturnais romanas oferecem o exemplo perfeito dessa inversão: os senhores serviam os escravos, e os escravos reclinavam-se nos leitos dos senhores, numa abolição temporária das hierarquias que estruturavam o ano inteiro. Estes excessos não são meras válvulas de escape; eles possuem um sentido profundo, que remonta ao acordo arcaico entre a volúpia sensual e o êxtase religioso. A orgia organiza o erotismo para além da simples cópula animal, elevando-o a um movimento de fusão ilimitada dos seres, onde as individualidades tendem a se dissolver num todo indistinto.


O exemplo terrível das Mênades, que em seu delírio devoravam vivos os próprios filhos, testemunha a violência extrema que pode ser liberada nesse contexto. Este horror, mais tarde, era ritualmente evocado na prática da omofagia, a devoração de cabritos crus. A orgia, neste seu aspecto mais sombrio, não se orienta para o sagrado calmo e pacífico, aquele que se concilia com a ordem profana. Ela se situa decididamente do lado nefasto do sagrado, o lado que reclama o delírio, a vertigem e a perda da consciência individual. Trata-se de engajar a totalidade do ser num deslizar cego para a perda, para o aniquilamento momentâneo da pessoa distinta, e é precisamente nesse movimento que reside o momento decisivo da experiência religiosa mais radical.


Este movimento de perda e fusão é a expressão do acordo paradoxal que a humanidade estabeleceu com a proliferação desmedida da vida. A recusa obstinada dos interditos, se levada às últimas consequências, conduziria ao isolamento avaro do ser, à sua fixação numa identidade estéril e separada. O refluxo periódico dos interditos, a transgressão organizada, liberta, ao contrário, o fluxo do excesso vital e permite o acesso a essa fusão ilimitada. E esta fusão não se restringe à pletora dos órgãos genitais; ela é uma efusão religiosa, uma desordem do ser que se abandona, sem nada opor, à proliferação alucinada da vida que o atravessa e o ultrapassa. A orgia é, assim, uma experiência de dissolução dos limites individuais, um turbilhão onde gritos, danças, abraços e sentimentos se confundem e se perdem numa agitação que não conhece medida. É a fuga deliberada no indistinto, o momento em que nada mais permanece firme, em que todas as formas se desfazem.


Tanto na forma contida do casamento quanto na explosão coletiva da orgia, revela-se a verdade fundamental de que o erotismo humano é ininteligível fora da dialética que une o interdito e a transgressão. O interdito não é um mero obstáculo exterior que se interpõe ao prazer. Ele é a condição que dá sentido, densidade e intensidade à transgressão. A linha proibida é que torna emocionante o ato de ultrapassá-la. E a transgressão, por seu turno, não é um simples retorno a uma animalidade primeva, um esquecimento ingênuo da regra. Ela é uma ação altamente organizada, carregada de um sentido religioso que lhe é intrínseco, um ato que integra a violência mais desabrida no próprio coração da cultura, revelando que esta não se opõe simplesmente àquela, mas a engloba e a utiliza em seu próprio benefício, num movimento sem fim de contenção e liberação.