GEORGES BATAILLE: O ERÓTICO E A TRANSGRESSÃO




O engano que frequentemente nos aprisiona consiste em buscar o erotismo como se fosse um objeto exterior, algo que residiria no corpo alheio, na curva de um gesto ou na promessa de uma pele. Mas o erotismo habita primeiramente a interioridade, e é dessa interioridade que ele retira seu poder de fascinação. Aquele que se volta para o outro em busca do que chama de beleza ou juventude desconhece que tais qualidades são apenas disfarces pelos quais fala uma exigência mais profunda, algo que não pode ser nomeado nem situado no espaço dos objetos. O que verdadeiramente nos atrai é um aspecto indizível, algo que toca o nosso ser interior e que nenhuma qualidade objetiva poderia esgotar. Por isso a escolha amorosa permanece sempre um mistério, mesmo para aquele que a realiza.


Essa interioridade do desejo, contudo, não é um dado natural. Ela emerge no homem como uma dimensão nova, completamente estranha à animalidade. O animal certamente possui uma vida subjetiva, mas essa subjetividade é como um programa fechado. A sexualidade animal introduz um desequilíbrio, uma ameaça à continuidade da vida individual, mas o animal não sabe disso. Ele vive esse desequilíbrio sem que ele se torne uma questão, sem que ele abra uma ferida na consciência. No homem, ao contrário, a atividade sexual torna-se erótica precisamente quando deixa de ser rudimentar e simplesmente animal, quando ela põe o ser em questão. O erotismo é esse movimento pelo qual o homem, conscientemente, introduz um desequilíbrio fundamental em seu próprio ser, e é a consciência que transforma o ato sexual em algo problemático, fascinante, proibido e transcendente.


Como se operou essa passagem decisiva do animal ao homem, essa transformação da sexualidade em erotismo? Não podemos reconstituí-la com precisão, mas podemos surpreender seus vestígios nos gestos fundadores que nos separaram da animalidade. O trabalho é um desses gestos: ao fabricar instrumentos, ao projetar-se no futuro, ao submeter-se à disciplina da utilidade, o homem instaura um mundo de objetos contínuos e previsíveis, um mundo onde a ordem reina sobre a desordem. Mas esse mundo do trabalho não teria sido possível sem um outro gesto, mais secreto, que o acompanha como sua sombra necessária: o interdito. Os vestígios mais antigos que possuem dos homens, os sepultamentos praticados já pelo Homem de Neandertal, testemunham um interdito fundamental diante dos mortos. O cadáver, que para o animal é apenas um resto indiferente, torna-se para o homem objeto de um respeito sagrado, algo que deve ser separado do mundo dos vivos, protegido, não simplesmente abandonado ou devorado. Esse gesto revela uma consciência da morte que o animal não possui.


É legítimo pensar que as interdições sexuais surgiram na mesma época, como contragolpe do trabalho. A sexualidade, com sua violência desordenada e sua capacidade de perturbar toda continuidade, precisava ser regulada, contida, para que o mundo da ordem pudesse estabelecer-se. O homem propriamente dito, o homem das cavernas pintadas, é o produto desse duplo movimento: ele trabalha, instaura a ordem; ele sabe que morre, interdita os mortos; ele reprime sua sexualidade, impõe-se interdições. Dessa sexualidade envergonhada, reprimida, filtrada pela consciência e moldada pela lei, nasce o erotismo. O erotismo não é a sexualidade animal em estado selvagem, mas a sexualidade humana atravessada pela consciência da morte, pelo trabalho e pela lei.


A experiência interior do erotismo, assim como a experiência religiosa, assenta-se sobre uma estrutura paradoxal que a razão analítica tende a desconhecer: o jogo de balança entre o interdito e a transgressão. O interdito não é um acidente patológico, uma neurose que poderia ser dissolvida pela ciência. Ele é fundador da humanidade. Foi ao reprimir a violência e a desordem da sexualidade e da morte que o interdito permitiu o surgimento da consciência clara e distinta, do mundo ordenado do trabalho e da razão. Sem o interdito, não haveria o humano. A ciência, ironicamente, procede do interdito, mas tende a recusá-lo por não ser racional, ignorando que sua própria racionalidade repousa sobre esse fundamento irracional.


Transgredir o interdito não significa simplesmente retornar ao estado animal anterior a ele. A transgressão suspende o interdito sem suprimi-lo. Ela o viola, mas ao mesmo tempo o reconhece e o mantém. Há uma profunda cumplicidade entre a lei e sua violação, uma cumplicidade que a experiência do pecado manifesta de maneira exemplar. A angústia que sentimos no momento de transgredir é a prova viva da existência do interdito. Se o interdito não agisse mais, não haveria angústia, mas também não haveria a experiência intensa de ultrapassar um limite. A transgressão bem-sucedida é aquela que, sustentando o interdito, sustenta-o para dele tirar prazer. É a experiência religiosa por excelência, aquela que liga sempre estreitamente o desejo e o medo, o prazer intenso e a angústia.


O erotismo, portanto, não vive na ausência da lei, mas na sua fronteira. Ele é o movimento que, a cada vez, a enfrenta e a desafia, sabendo que sem ela não teria sentido. A consciência humana, que se formou sob o império do interdito, pode agora, num ato de transgressão lúcida, voltar-se para esse mesmo interdito e compreendê-lo como a chave de nossa atitude humana.


A experiência interior do homem plenamente realizado se dá no instante em que, rompendo a crisálida, ele tem consciência de se rasgar a si mesmo e não a uma resistência colocada de fora. O obstáculo não é mais o mundo exterior, a sociedade ou a lei positiva, mas a própria estrutura do seu ser, formada por esses interditos que se tornaram sua segunda natureza. Ao transgredir, ele não viola uma regra externa; ele viola a si mesmo, a sua própria natureza de ser descontínuo e ordenado, para aceder a uma continuidade que o dilacera. Esse ultrapassar da consciência objetiva, limitada pelas paredes da crisálida, pelas fronteiras do mundo do trabalho, da razão e dos objetos, é a mudança radical que o erotismo, em sua forma mais profunda, e a experiência mística, em sua forma mais pura, podem proporcionar. É nesse dilaceramento que o homem atinge, por um instante, aquilo que ele é para além de si mesmo.