A PORNOGRAFIA É UM GÊNERO CONSERVADOR


Se o erotismo encontra seu ato precisamente no gesto da transgressão, no movimento de ultrapassar uma fronteira que a ordem impõe sobre os corpos e os desejos, então que relação poderia a pornografia honestamente reivindicar com ele?

Talvez fosse mais justo admitir que a pornografia não pertence à linhagem do erotismo, mas sim à de uma materialidade do visível, onde o sexo se mostra sem jamais se deslocar do lugar que já lhe foi designado. Mostrar uma mulher sendo fodida diante da câmera, exibir a mecânica dos corpos em acoplamento, não instaura transgressão alguma; há nisso, ao contrário, uma forma profunda de conservadorismo ontológico.


Explicitar o sexo pela imagem ou pela letra, arrancá-lo do recesso do íntimo e lançá-lo na superfície na tela ou da página, não fere nenhuma normalidade sexual que se tenha por convencional. O que a pornografia realiza é justamente o oposto, ela ratifica aquilo que já se sabe, aquilo que já se espera, aquilo que a normalidade abriga.


O sexo tornado imagem não conhece o gesto de ir além. Ele permanece aquém de qualquer vertigem, porque sua lógica é a do desvelamento que nada desvela além daquilo que o foco recorta. Não se trata, contudo, de um fenômeno que derive de uma novidade técnica ou de uma decadência contemporânea.


A pornografia não é nova, e sua persistência ao longo da história da humanidade denuncia exatamente o quanto ela está atada a uma estrutura arcaica do olhar. O exemplo mais eloquente talvez resida na arte que brotou em Pompeia e Herculano, cujas paredes ostentam cenas que o moralismo posterior preferiria ocultar, mas que ali, na franqueza do afresco, afirmam uma verdade, a arte é explicitação da vontade de poder do homem. E esse mesmo impulso de poder que ergue impérios e submete paisagens encontra no desejo sexual uma de suas línguas mais diretas.


Perpetrar uma arte cujo tema central seja o sexo não vai, portanto, nada além daquilo que já é. Não há salto, não há ruptura. Há somente a reiteração de um poder que se confessa através da imagem do corpo submetido ao prazer ou à exibição.


Alguém poderia objetar que a dimensão da sexualidade e do próprio erotismo ganha, por vezes, contornos extremos, e que o mercado sexual pornográfico, com sua deriva em direção ao que se chama de pornografia extrema, desmente essa tese. Seria uma objeção apressada. O princípio que estrutura a pornografia permanece, extremamente conservador, e seu fim último não é a transgressão.


Transgride-se, isso sim, quando se vai além da pornografia, quando se abandona a sua lógica interna e se ingressa em um território onde o sexo deixa de ser exibição para se tornar outra coisa, risco, dissolução do eu, gasto improdutivo do corpo.


A pornografia extrema, quando muito, tangencia a borda, mas sua natureza a puxa de volta para o interior do mesmo circuito: o ato pelo ato, o choque como item de catálogo, a anomalia convertida em gênero de consumo para consumidores cujos fetiches bizarros já estão categorizados e aguardam  os seus consumidores. Ela é superficial em si mesma, não por uma insuficiência acidental, mas por uma constituição essencial. Atende a uma demanda específica, e nesse atender esgota-se.


Observa-se hoje a multiplicação de categorias como o “amador”. Nelas, o que se encena é a explicitação de um íntimo que se oferece à imagem, geralmente cenas de sexo perpassadas de modo rigorosamente convencional, agora aliadas a um “POV” que introduz um simulacro de dinamismo e de presença.


A câmera trêmula, o enquadramento precário, a iluminação doméstica, tudo isso fabrica uma retórica da intimidade que jamais se realiza enquanto intimidade. A pornografia não ganha contornos íntimos com o espectador, não estabelece com ele uma ligação que perfure a superfície. Ela é apenas o simulacro da superfície, tão rasa que sua única ambição é a satisfação do desejo imediato, o alívio que se acende e se apaga.


Não há um rompimento do próprio corpo; o corpo que ali aparece é um corpo blindado pela imagem, um corpo que não sangra para além do que o roteiro permite, um corpo que não se desorganiza para além do que o gênero tolera.


A limitação da imagem faz da pornografia um ato limitado por sua própria condição ontológica, e justamente por expor esses limites em si mesma, não há nela nada de transgressor. A própria pornografia bizarra, que parece trilhar a senda da transgressão, transgride apenas em parte, e ainda assim essa parte é reabsorvida pela estrutura que a engendra. O que ali se dá é o ato limitado ao ato, sem a densidade do drama, sem a espessura de uma existência que se arrisca.


Em suma, a pornografia bizarra é somente uma demanda organizada para consumidores com seus fetiches bizarros, uma prateleira que o catálogo acrescentou para que nenhum desejo ficasse sem seu correspondente imagético. Ela é superficial em si mesma.


É preciso, enfim, atentar para o modo como a pornografia se torna, cada vez mais, puro produto de consumo. Atualmente ela não vai mais além do que isso, e talvez nunca tenha ido. Limita-se a ser mera produtificação do desejo, e nesse horizonte o mercado introduz um movimento curioso, a atriz, ou o ator, deslocam-se da condição de corpos anônimos em cena para tornarem-se o foco central da coisa.


O fenômeno do onlyfans denota exatamente essa mutação, o consumidor busca uma aparência de maior intimidade com aquele simulacro limitado, quer sentir que há uma linha direta entre o seu olhar e a vida daquela figura, quer a ilusão de que o que se consome não é uma imagem genérica, mas um fragmento de existência. Porém nada mais do que isso. É um movimento que persegue o íntimo, que o nomeia, que o emoldura, mas o íntimo não se rompe. Ao contrário, é perpetrado por uma mera ilusão do mercado, uma ilusão que mantém tudo em seu lugar: o espectador diante da tela, o corpo diante da câmera e o desejo diante do seu objeto codificado.

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