O ETERNO RETORNO


O eterno retorno é ideia que carrega um peso tão extremo que altera a condição daquele que pensa e, com isso, o estatuto dos entes em seu conjunto. Por essa razão a seção da "A Gaia Ciência" se chama "Incipit tragoedia", começa a tragédia.  Trata-se do anúncio de que a própria realidade passa a ser compreendida sob o signo do trágico. O trágico, aqui, já não nomeia um gênero de espetáculo ou uma categoria da estética; ele se torna o traço essencial da existência e da totalidade do que há. Quando Nietzsche fala de uma "era trágica para a Europa", não está fazendo profecia cultural, e sim assinalando que o modo de ser dos entes passou a ser determinado por essa nova experiência do real, e isso se deu em total silêncio, sem alarde, sem que a historiografia pudesse registrá-lo como um evento datável.

A revolução instaurada pelo eterno retorno é inaudível; só uns poucos têm ouvidos para percebê-la. É nesse registro secreto e essencial da história que o "Incipit tragoedia" precisa ser escutado.


Desde cedo, Nietzsche recusa a interpretação aristotélica da catarse, que reduz o efeito trágico a uma purificação moral obtida pela excitação do terror e da compaixão. A crítica que formula em 1888, falando em "erro deplorável" de Aristóteles, mostra que, para Nietzsche, a tragédia não tem nenhuma relação originária com a moral. Quem a frui moralmente ainda está aquém do trágico propriamente dito, permanecendo na antecâmara de uma experiência que exige outra compleição da alma.


O trágico pertence ao domínio do estético, mas "estético" aqui deve ser entendido na acepção nietzschiana mais própria, que é metafísica, a arte não é uma atividade entre outras, e sim a atividade metafísica da vida, aquilo pelo que os entes são, na medida mesma em que são. A arte suprema é a arte trágica; logo, o trágico é aquilo que pertence à essência metafísica dos entes, ao seu modo mais íntimo de se desvelarem e se sustentarem no ser.


O terrível, a dor, o aniquilamento não são expulsos do trágico, como se a tragédia nos oferecesse um consolo que nos desviasse do horrível. Ao contrário, o elemento terrível é indissoluvelmente ligado ao belo, e é nessa implicação recíproca, nesse enlaçamento, que reside o saber trágico.


O belo não oculta o horrível, mas o reclama como seu contrário próprio. Quanto mais originariamente se quer a grandeza e as alturas, mais seguramente se atinge o que há de profundo e aterrador. Nietzsche o diz: a grandeza tem o horrível como algo que lhe é próprio, e nós não devemos nos enganar a esse respeito.


Afirmar essa indissociabilidade é o que constitui a atitude trágica, que Nietzsche chama também de heroica. O heroico não consiste em triunfar sobre o sofrimento, mas em ir ao encontro do sofrimento supremo e, simultaneamente, da esperança suprema. A palavra decisiva é "simultaneamente": não há sucessão, não há dialética que supere um polo no outro, não se desvia o olhar do horrível para se refugiar na esperança. Trata-se de se tornar senhor da desgraça e da fortuna sem que a aparência de vitória embriague ou torne tolo, sem que o brilho da superfície apague a escuridão que o sustenta.


E isso só pode acontecer onde o espírito impera, no domínio do saber e dos que sabem. É por isso que Nietzsche lamenta que os poetas, em geral, não tenham tocado os motivos trágicos supremos, pois estes exigem a experiência das "cem tragédias dos que sabem", a acumulação de um conhecimento que queima e transfigura.


É aqui que o eterno retorno revela sua função mais profunda, ele é a "fórmula suprema de afirmação que pode ser alguma vez alcançada", como Nietzsche escreve em "Ecce Homo". Ele é supremo porque afirma o "não" extremo, o aniquilamento, o sofrimento, a negatividade mais radical, como pertencentes ao próprio ser dos entes. Não se trata de aceitar resignadamente o lado terrível da existência, nem de superá-lo numa síntese superior, mas de querê-lo como parte constitutiva e indissociável do real.


O eterno retorno, ao colocar a possibilidade de que cada instante retorne infinitamente tal como é, com toda a sua dor e com toda a sua pequenez, obriga a uma afirmação total, que não faz recortes nem exclusões, que não separa o joio do trigo porque reconhece no próprio joio uma faceta do sagrado. É justamente com esse pensamento que o espírito trágico passa a existir de modo integral e originário.


E por isso o "Incipit tragoedia" se completa, em "Crepúsculo dos Ídolos", com "INCIPIT ZARATHUSTRA". Zaratustra é o nome próprio daquele que pensa esse pensamento de maneira inaugural e adequada. Sua essência é ser o primeiro a suportar o peso do eterno retorno de modo tal que sua existência se torna a própria tragédia em ato, a encarnação de um destino que não se esquiva de nada.


Mas esse pensamento é tão pesado que o próprio Nietzsche,  não poderia simplesmente registrá-lo como uma opinião pessoal. Para que o pensamento mais pesado pudesse ter início, para que a tragédia pudesse começar, era preciso primeiro criar poeticamente a figura do pensador desse pensamento. Zaratustra não é um porta-voz de Nietzsche; ele é uma criação poética que torna possível a emergência do pensamento do eterno retorno na história do Ocidente.


Essa criação se dá na obra cuja "concepção fundamental" é exatamente o eterno retorno, e que começa a ser forjada um ano depois de "A Gaia Ciência", em 1883, como se o próprio tempo tivesse de amadurecer para receber tal semente.


Na grande tragédia grega, tudo o que habitualmente tomamos como "a tragédia", os acontecimentos terríveis, os crimes, as fatalidades, já aconteceu antes que a tragédia propriamente dita comece. A única coisa que advém na tragédia é o ocaso. Dizer "a única coisa" é inadequado, porque é só com o ocaso que começa o que verdadeiramente importa. A tragédia não é uma sucessão de catástrofes, mas o movimento em que o herói, ou o pensador, assume o seu destino até o fim, e nesse assumir se dá o verdadeiro acontecimento, a eclosão daquilo que não pode ser representado, apenas vivido na carne do pensamento.


Sem o espírito e o pensamento, as ações e os feitos não são nada. Portanto, a tragédia de Zaratustra não é uma história de quedas e desgraças que se desenrolam a partir de um conflito; é o próprio movimento do pensador que assume o peso do eterno retorno e, nesse ato, converte a existência em tragédia. O "Incipit tragoedia" marca essa descida que é, ao mesmo tempo, um início.

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