BREVIÁRIO PARA UMA ATITUDE ANTIPOLÍTICA


Para esboçar preliminarmente uma atitude antipolítica, faz-se necessário primeiro abarcar o modo onde a política atua, isto é, no âmbito do Estado, compreendido aqui em sua formalização liberal como primeira teoria política. O Estado se torna, assim, uma necessidade que se apresenta como a materialidade atuante da política. Contudo, este mesmo Estado se mostra sempre sob uma visão de totalidade. Não existe a possibilidade de um monopólio da força violenta que se disperse por outras funções ou entidades parciais; apenas o Estado em sua totalidade indivisa poderá deter o monopólio dessa violência. Dito isso, e levado às suas últimas consequências essenciais, todo Estado é, em si mesmo, totalitário.

Desta constatação inicial decorre outra: todo Estado é burocrático. Para o esboçamento e a operação dessa força de violência concentrada, faz-se necessário todo um regramento meticuloso, uma arquitetura de procedimentos onde as decisões acabam por movimentar-se em ambientes rigidamente hierárquicos, revestindo-se da forma de uma estrita legalidade convencional e de um demasiado formalismo. A ação antipolítica surge precisamente como a superação desse formalismo estatal que caracteriza a primeira teoria política. Mais ainda, e de forma essencial, ela é a desmonopolização da força, o ato de tratar da supremacia da Vontade de cada sujeito singular contra a abstração que o subjuga.


A pior interpretação de uma atitude antipolítica é aquela perpetrada pela esquerda, especialmente a de matiz progressista. Esta tende, com uma regularidade sintomática, a categorizar os movimentos que buscam a superação da política sob o rótulo unívoco e desgastado de "fascista". Ora, a própria categorização do fascismo em uma fixidez doutrinária é totalmente errônea, pois o movimento fascista nunca se mostrou como uma doutrina fixa e imóvel; ao contrário, em seus primórdios, a atitude antipolítica lhe era essencial, uma energia informe e criadora que ainda não havia sido capturada pela forma-partido.


O futurismo italiano movimentou-se com ímpeto justamente na busca dessa atitude antipolítica. Em um de seus escritos fundadores, Filippo Tommaso Marinetti formula atitudes antiparlamentares, abolir o senado e a burocracia; realizar a expropriação gradual das terras incultas ou mal cultivadas para distribuí-las aos trabalhadores; abolir todas as formas de parasitismo industrial e capitalista; e garantir ao trabalhador a compensação adequada ao seu esforço produtivo. 


O futurista valoriza o vitalismo e a ação em estado puro, o amor à vida que se manifesta como energia, alegria, liberdade, progresso, coragem, novidade, praticidade e rapidez. Há nele uma alegria cuja face está inteiramente voltada para o amanhã, uma alegria sem remorso, sem o pedantismo dos doutos, sem falsa modéstia, misticismo ou a melancolia ruminante do passado. O futurista rejeita a introspecção como uma ferida narcísica e recusa o peso morto do pretérito. A agressividade, longe de ser um defeito a ser medicalizado, é vista como uma virtude central, o sinal mais evidente de uma saúde transbordante.


Toda a mentalidade da política moderna, por sua vez, herda um pacifismo que é, em sua raiz, praticamente niilista. A vontade é orientada para uma zona de despojos, um terreno baldio onde as forças se exaurem sem transfiguração. Características violentas são tidas por uma vanguarda sistêmica como atos atentatórios à democracia, ou seja, limita-se radicalmente a possibilidade de um rompimento do próprio status.


A nação deve ser apenas um berço servil, com suas ações previamente limitadas e toda a sua potência instintiva rejeitada como algo obsceno. Não podemos, abarcar a experiência de um barbarismo regenerador; o pacifismo é a rejeição completa de uma vontade de ultrapassamento.


Toda a política moderna é orientada por uma política de ressentimento. Ela se estrutura na oscilação perpétua entre um x e um y abstratos, e nesse jogo de espelhos abarca a culpabilização geral da torcida dos ressentidos. A política moderna é movida por esse sentimento venenoso que busca vingança contra a vida mesma, mascarando sua impotência sob o discurso da justiça.


Quanto mais uma sociedade se orgulha ruidosamente de suas liberdades adquiridas, mais ela se distancia da verdadeira liberdade, entendida como processo árduo de autossuperação. A democracia, longe de ser o ápice da organização política, revela-se progressivamente como a forma mais elaborada de decomposição da força organizadora.


As instituições modernas fracassam não por um defeito técnico ou intrínseco, mas porque perdemos os instintos que poderiam sustentá-las, a fé primordial em sua necessidade e o assombro que elas deveriam inspirar. O Ocidente, em sua nervosidade característica, substituiu a vontade de tradição e autoridade, aquela que ergueu impérios milenares, por um culto irresponsável e frívolo ao momento presente, mascarado sob o nome sedutor e enganoso de liberdade.


Aos próprios conservadores, que tanto gostam de mover uma pseudonostalgia em direção aos "antigos valores" e ao resgate dos mesmos, Nietzsche formula que a humanidade não pode caminhar para trás. O fluxo do devir é irreversível, e os esforços dos moralistas para obstruir esse curso fluvial só conseguem, na melhor das hipóteses, concentrar e intensificar a degeneração, tornando a sua matéria mais densa, mais compacta e, por isso mesmo, potencialmente mais explosiva.


O único caminho viável é ir avante, mesmo que esse "progresso" signifique, por ora, um aprofundamento da decadência. A tarefa do espírito livre não é lutar inutilmente contra a maré do tempo, sonhando com uma restauração impossível de formas petrificadas, mas aceitar corajosamente o movimento fatal da história para, a partir de seu interior mais sombrio, dominar completamente o processo e redirecioná-lo rumo a uma nova afirmação da existência.


Em um movimento que leva essa lógica às últimas consequências, Marinetti propõe que a humanidade aspira à criação de um "tipo não humano", no qual serão abolidos o sofrimento moral, a bondade, o afeto e o amor, que ele denuncia como os "únicos venenos corrosivos da inesgotável energia vital".  Esse novo tipo será cruel, onisciente e combativo, construído para a velocidade onipresente; seus órgãos serão adaptados a um ambiente de choques contínuos; seu esterno se desenvolverá em forma de proa, especialmente entre os aviadores, retomando a analogia com as aves de voo mais aprimorado; realizar-se-á uma multiplicação do homem pela exteriorização da vontade, que se prolonga para fora do corpo como um imenso braço invisível, ideia que dialoga com o interesse futurista tanto pelos fenômenos do espírito quanto pela extensão técnica dos membros. Essa exteriorização triunfante da vontade permitirá que o Sonho e o Desejo reinem soberanos sobre o Espaço e o Tempo finalmente dominados pela espécie.


É preciso reconhecer que toda inovação espiritual autêntica carrega, em sua origem mais remota e obscura, a marca do réprobo, do intocável. O artista, o gênio, o explorador de continentes ignotos, todos eles partilham, em seu estágio embrionário, a condição de chandala.


Eles sentem em si a pulsação daquilo que Nietzsche chama de sentimento de rebelião catilinária, um ódio criador e uma vingança contra a ordem estabelecida que os sufoca. Esse pathos de exclusão e conflito, essa fricção dolorosa contra o mundo, é a forma preexistente de todo César, o solo hostil e fecundo de onde brota, não raro, a mais alta grandeza possível. A lei, portanto, é primeiro transgredida para que, mais tarde, uma nova lei, uma nova tábua de valores, possa ser instaurada pelo ato soberano de uma vontade que se tornou legisladora de si mesma.


A guerra constitui um mecanismo indispensável para a renovação periódica da vitalidade dos povos. Deve-se rejeitar a crença ingênua e perigosamente otimista de que a humanidade poderá atingir sua plenitude uma vez que desaprenda definitivamente a fazer a guerra. Esta posição não brota de qualquer cinismo, mas de uma avaliação realista da natureza humana e das exigências paradoxais da própria cultura.


Nietzsche formula que apenas o caminho bélico é capaz de forjar com a intensidade necessária. A rude energia do acampamento militar fortalece o corpo e o espírito contra a molície de uma civilização excessivamente protegida. O ódio profundo e impessoal, distinto do ressentimento rasteiro, ensina a transcendência dos caprichos mesquinhos em nome de uma causa que os ultrapassa. O sangue frio de quem mata com boa consciência desenvolve a frieza necessária para decisões de consequências trágicas. O ardor comum em organizar a destruição metódica revela a capacidade humana de cooperação em escala monumental. A indiferença soberana ante as grandes perdas forja uma resistência psicológica perante o sofrimento inevitável. E o surdo abalo sísmico das almas operado pela guerra produz uma transformação profunda e indelével das mentalidades, recalibrando os valores de toda uma geração.


A guerra assemelha-se a regatos e torrentes que, embora arrastem consigo pedras e imundícies e destruam campos de tenras culturas, trazem também, nessa mesma violência lamacenta, uma nova energia primordial que, por fim, faz girar as engrenagens das oficinas do espírito. Longe de ser apenas um fenômeno destrutivo e estéril, a guerra funciona como uma catarse coletiva que renova as energias criativas que a rotina e o conforto haviam adormecido em um lodo espesso. A cultura não pode absolutamente dispensar as paixões, os vícios e as maldades. A seiva escura que alimenta a floração de uma alta criação cultural é a mesma que nutre os impulsos mais sombrios da condição humana. A tentativa de erradicar estes elementos, de drenar esse pântano primordial em nome de uma racionalidade serena e profilática, só poderia resultar no definhamento final e anêmico da própria vitalidade cultural.


A atitude antipolítica, em sua inteireza, deve, portanto, romper todas as categorias de uma política liberal. Longe de se postular em valores fixos e eternos, ela os sobrepõe em devires; ela cria valores, e desses mesmos valores busca, em seguida, ultrapassá-los, pois a vida é justamente aquilo que precisa superar a si mesma a cada instante.


É preciso ser a besta loura para aqueles que, com seu moralismo de escravos, investem contra os valores afirmados em poder de si próprio. Não existe uma positivação mundial e pacificada do real; ao contrário, o que existe é a Vontade de Poder como substância última, um combate sem trégua. Contra a mentalidade burguesa e toda a mesquinharia de um niilismo pacifista que prega a segurança como ideal supremo, é necessário esboçar um ódio e uma violência que não se pautam pelo ressentimento, mas sim pela exuberância do ativismo, pela postulação soberana e sem justificativa externa dos próprios Valores.


O campo prático de uma tal existência é o da besta loura, que entre seus pares, no círculo interno daqueles que reconhece como iguais, sabe ser cortês, leal, respeitador dos costumes, capaz de uma gratidão que não é servidão e de uma rivalidade honrosa que eleva ambos os contendores. Fora do seu círculo, porém, na exterioridade onde a sua lei ainda não se inscreveu, ela se comporta como uma fera solta, entregando-se à violência, à pilhagem, à crueldade e à destruição com a naturalidade e até mesmo a alegria inocente de uma força elementar que ignora a culpa. Trata-se de uma alternância rítmica entre a autoimposição de regras internas e severas, uma criação artística de si mesmo, e a liberação externa e jubilosa de instintos agressivos que a civilização moderna sonha em extirpar.

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