COGITO MATAR
A expressão metafísica de Nietzsche formula-se inteiramente
na subjetividade, mas seria impreciso dizer que ela apenas discorre sobre a
subjetividade. A metafísica nietzschiana é a própria subjetividade no ato de se
pensar e de se afirmar como princípio absoluto. Assim, o niilismo clássico
encontra sua consumação precisamente neste movimento: ele se delineia como uma
metafísica da subjetividade absoluta da vontade de poder. A subjetividade já
não comparece como um ente entre outros, mas se converte no fundamento e na
medida de todo o ente.
Ora, a designação "metafísica da subjetividade
absoluta" não pertence com exclusividade a Nietzsche. Também a metafísica
de Hegel a reivindica.
Em Hegel, a subjetividade absoluta revela-se como a vontade
que alcançou o saber de si mesma, isto é, o Espírito. O caráter absoluto do
Espírito é determinado pela essência da razão que existe em si e para si, uma
unidade especulativa na qual o saber e a vontade se reconciliam. O ponto de
viragem entre Hegel e Nietzsche, contudo, reside naquilo que, em cada caso,
orienta a subjetividade.
Em Hegel, quem a guia é a racionalidade, compreendida de
modo especulativo-dialético. A Razão ergue-se como o princípio que tudo abarca
e tudo reconcilia.
Em Nietzsche, quem assume o comando é a animalidade. A vida
instintiva, o corpo, a vontade de poder compreendida como um impulso de
crescimento ocupam a posição de princípio.
O que está verdadeiramente em jogo em ambas as metafísicas é
a essência do homem, a qual, ao longo de toda a história da metafísica, foi
definida como animal racional. Hegel e Nietzsche não abandonam esta definição
matricial; o que fazem é conduzir cada um dos seus polos à validade absoluta.
Hegel absolutiza a racionalidade; Nietzsche absolutiza a
animalidade, ao absolutizar-se, a subjetividade desdobra-se necessariamente na
brutalidade da bestialidade. No ocaso da metafísica, ergue-se a sentença que o
homem é um bruto bestial. A célebre "besta loira" de Nietzsche. A
absolutização do polo animal do homem conduz, no limite, à brutalidade como
essência de uma subjetividade desenfreada.
A violência nietzschiana encontra seu fundamento no Poder.
Na medida em que se trata da capacidade de afetar e de moldar, a violência
ganha contornos criativos. Não estamos diante de uma violência utilitária,
submetida às categorias do bem ou do mal; ao contrário, ela se situa para além
desses conceitos. O ato de violentar coincide com o ato de criar, e a violência
é o resultado afetivo, uma vez que o afeto a precede como sua condição de
possibilidade.
A besta loira surge como a materialização mesma da
violência. Ela é aristocrática e ativa, ultrapassando por completo a questão
reativa do ressentido. O ressentido processa a totalidade da existência através
do filtro da dívida e da ofensa, sendo incapaz de qualquer afeto afirmativo que
reconheça um valor superior no outro. A beleza alheia, a nobreza, a grandeza
são vividas por ele como ultrajes pessoais. Sua modéstia, esse declarar-se
indigno do belo, não passa de uma forma sutil de ódio e de depreciação. Enquanto
o tipo nobre respeita até a causa da sua própria desgraça.
Todas as elevações do tipo "homem" foram, até
hoje, obra de sociedades aristocráticas fundadas na hierarquia, na escravidão e
no pathos da distância. Nietzsche afirma que toda nova elevação do tipo
"homem" foi e sempre será obra de uma sociedade aristocrática. Tal
sociedade deve acreditar numa grande escala hierárquica e numa profunda
diferenciação de valor entre homem e homem.
Para atingir o seu fim, ela não pode evitar a escravização,
sob uma forma ou outra. O pathos da distância designa precisamente esse
sentimento de diferença essencial que a classe dominante experimenta em relação
aos dominados. Desse pathos nasce o desejo de auto-superação, o anseio por
sempre novas expansões das distâncias dentro da própria alma, anseio que conduz
à elevação do tipo "homem".
Toda civilização superior começou com homens de rapina,
bárbaros dotados de indômita força de vontade e desejo de dominar, que se
lançaram sobre raças mais fracas e pacíficas. A casta aristocrática sempre foi,
nos primórdios, a mais bárbara. Eles eram os homens mais completos, o que
significa também: as bestas mais completas. A cultura superior e o
desenvolvimento humano não brotam da igualdade ou da paz, mas da dominação
violenta, da hierarquia rígida e da exploração de uns por outros.
A vida é essencialmente apropriação, dominação e exploração.
Princípios como a não-agressão e a igualdade não passam de negações da vida. A
crítica à moral igualitária revela que tais princípios só podem funcionar entre
iguais em força e valores. Quando são elevados a princípios universais,
transformam-se em vontade de negação da vida, em princípio de dissolução e
decadência.
A vida é a vontade de poder. A exploração não é algo imoral,
mas parte íntima da essência de tudo aquilo que vive. A moral tradicional que
condena a exploração e a dominação é, portanto, anti-vital. A verdadeira
natureza da vida é a expansão do poder, a apropriação e a imposição de forma.
O que define a hierarquia é uma fé, uma certeza fundamental
que a alma aristocrática tem sobre si mesma. Trata-se de uma autoveneração
inata, uma autoestima inquestionável que não se pode procurar, nem achar, nem
perder. É a essência do pathos da distância.
Os instintos considerados maus são tão úteis e indispensáveis para o progresso e a conservação da espécie humana quanto os instintos considerados bons. A força disruptiva, violenta e inovadora, esse mal que a moral convencional condena, é o arado criativo que seleciona o terreno social e espiritual, impedindo que a humanidade estagne. Foram os espíritos mais fortes e os mais maldosos que até agora promoveram os maiores progressos da humanidade.
Estes espíritos maldosos são os inovadores, os transgressores, cuja função consiste em reacender as paixões que a sociedade organizada e pacífica tende a adormecer. Eles perturbam a ordem, despertam o sentido da comparação, da contradição, o gosto pelo novo, pelo ousado. Agem pelas armas, como conquistadores, ou por novas religiões e novas morais, como profetas e fundadores. Em ambos os casos, a essência é a mesma: uma maldade que lança no descrédito as estruturas antigas. O que é novo é, de qualquer maneira, o mal.
O bem é sempre o que é antigo, estabelecido, consagrado pelo uso. Os homens de bem são os conservadores, os cultivadores que trabalham no terreno das ideias já existentes. No entanto, todo terreno acaba por se esgotar. A sociedade, como um campo, precisa ser revolvida. É preciso que sempre retorne a relha do arado do mal. O mal é, portanto, uma força de renovação necessária. Sem ele, a cultura apodrece.
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