MEFISTÓFELES, O PRIMEIRO DOS HEGELIANOS


 

(...)

FAUSTO

Com vossa espécie a gente pode ler

Já pelo nome o ilustre ser,

Que se revela sem favor

Com a marca de mendaz, blasfemo, destruir.

Pois bem, quem és então?

 

MEFISTÓFELES

Sou parte da Energia

Que sempre o Mal pretende e que o Bem sempre cria

 

FAUSTO

Com tal enigma, que se alega?

 

MEFISTÓFELES

O Gênio sou que sempre nega!

E com razão; tudo o que vem a ser

É digno só de perecer;

Seria, pois, melhor, nada vir a ser mais.

Por isso, tudo a que chamais

De destruição, pecado, o mal,

Meu elemento é, integral”


A sentença que abre o horizonte, extraída do Fausto, “que sempre o mal pretende e que o Bem sempre cria”, não enuncia uma simples oposição entre tese e antítese, mas deixa transparecer o clarificar de um espírito que recusa toda fixidez.


A dialética hegeliana se molda precisamente nesse movimento, não como um método exterior, mas como o Todo que se firma, como uma região da energia, um modo do próprio divino.


É em Espinosa que a substância infinita se exprime, e um dos seus modos é essa atividade negadora que a tudo movimenta. Contudo, é a dialética hegeliana propriamente dita que se engendra nesse entranhamento, e fica patente que Mefistófeles é o gênio que sempre nega. Hegel, porém, considera a negação como ser. Não se trata de um não ser que desfalece no vazio; a negação é ser, potência que é.


O gesto hegeliano é o da síntese viva, que se desdobra na afirmação de que o Verdadeiro é a Substância que é também Sujeito. Com isso se diz que a realidade última não é uma coisa inerte, mas um processo; não um ser imóvel, mas um atuar.


A substância viva só é verdadeiramente real enquanto movimento de auto-posição. Ela não se encontra simplesmente dada, ela se torna o que é. Esse tornar-se é um processo de mediação e negatividade. O sujeito, como pura negatividade, é o poder de autodiferenciação. Ele não permanece em uma unidade simples e imediata, que seria morta e abstrata. Ele se desdobra, se põe como outro de si mesmo.


Esse outro, seja o mundo, a natureza, a história ou a alienação, aparece inicialmente como algo estranho e oposto. Mas o movimento não se detém aí. A essência do sujeito consiste justamente em negar essa própria alienação, em superar a separação e retornar a si mesmo a partir de seu outro. Esse retornar a si não é um regresso ao ponto de partida, mas uma reconquista em um nível superior, enriquecida por toda a experiência da alteridade.


A verdade é, portanto, esse círculo completo: unidade imediata, desdobramento e negação, e, por fim, retorno mediado a si. Um círculo que pressupõe seu fim como seu objetivo e que tem seu começo nesse mesmo fim, e que só se torna real por meio de sua execução.


Nesse elemento se movem o saber, como o para si, e a objetividade negativa, como o em si que se lhe opõe. Todo o desenvolvimento do espírito nesse meio se apresenta como uma sucessão de figuras da consciência.


A Fenomenologia é, consequentemente, a ciência da experiência que a consciência faz de si mesma. Mas o que se entende aqui por experiência, essa Erfahrung de teor especulativo, não é a mera acumulação de dados sensíveis.


Trata-se de um movimento dialético preciso. O imediato, seja sensível ou um pensamento abstrato, apresenta-se como verdade. Esse imediato, todavia, se aliena, revela-se insuficiente, torna-se outro de si mesmo. A partir dessa alienação ele retorna a si, mas agora como uma realidade mediada, enriquecida pela negação que sofreu.


Só após esse ciclo algo está apresentado em sua realidade e verdade e se torna verdadeiramente propriedade da consciência. A experiência é, portanto, o processo de autoconstituição por meio da autonegação.


Em íntima conexão com isso, o próprio ser de algo é a sua determinidade pensante. Essa autoequalidade, contudo, não é estática. Por ser pura abstração, ela é abstração de si mesma; logo, contém em si a negação, a desigualdade consigo mesma.


A identidade pura já é, em sua essência, diferença e mediação. Daí lhe advêm a própria interioridade e o recolhimento em si, o seu devir. O ser é, portanto, um processo dinâmico de autoidentificação que só se sustenta através da autonegação.


O conhecimento não pode ser uma atividade externa que manipula um conteúdo alheio, como um instrumento que se aplica de fora. A ciência hegeliana não é aquele idealismo que pôs no lugar do dogmatismo assertivo um dogmatismo asseverador, ou o dogmatismo da certeza de si. Não se trata de impor categorias subjetivas ao mundo, mas de deixar que o próprio conteúdo revele a sua lógica interna.


Chega-se ao Pensamento Compreensivo ou Especulativo, o begreifenden Denken. Nele, o negativo pertence ao próprio conteúdo. A negação é o movimento imanente e a determinação do conteúdo e, como totalidade desse movimento, é positiva.


O resultado é um negativo determinado, que é, portanto, um conteúdo positivo. Esse pensamento exige a abnegação do arbítrio intelectual, deixar de ser o princípio que move o conteúdo arbitrariamente para, ao contrário, mergulhar a liberdade no conteúdo, deixando que ele se mova por sua própria natureza, pelo Si mesmo que lhe é próprio. A tarefa do pensar especulativo é simplesmente observar esse movimento, sem interferir, pois a coisa mesma se põe em marcha.


O senso comum vê o negativo como pura aniquilação, um resultado vazio. O ceticismo vulgar enxerga apenas o nada em cada resultado. Mas esse nada, quando compreendido como o nada daquilo de onde resultou, é na verdade um resultado determinado. Ele tem um conteúdo. É a negação determinada.


Essa é em si mesma, transição. De uma figura negada emerge imediatamente uma nova forma, porque a negação era específica, carregada do conteúdo que superou. O resultado não é o vazio, mas a forma transformada da própria consciência. Assim, o progresso através da série completa das figuras se produz por si mesmo.


Para Hegel, a negação é “positiva”, pois ela parte de um processo necessário para se chegar à verdade. A negação não é vazia; ela é positiva em si mesma, como ato de superação, pois só se supera aquilo que efetivamente é.


O conceito crucial aqui é o de Aufhebung, termo que carrega o tríplice sentido de suprimir, conservar e elevar. A afirmação “o agora é noite” é negada pelo passar do tempo. Mas essa negação não é um simples descarte. O agora-noite é conservado como algo que foi, como um momento superado na fluência do tempo. A consciência, ao vivenciar essa negação, não fica com o nada, mas com um agora mais compreensivo, que contém em si a memória de sua própria transitoriedade.


A dialética, portanto, é este movimento: a afirmação imediata, que diz “isto é”; a experiência de sua negação, que reconhece “isto já não é o que era”; e o reconhecimento da universalidade que persiste através da negação, o isto universal, o conceito.


Na articulação desse movimento, surge também a figura do Uno excludente. Trata-se de uma unidade que se define por não ser as outras coisas. É esta maçã, que exclui o limão, a mesa, todas as outras determinações. Sua unidade é uma negação ativa do outro. O Uno se põe como centro de uma exclusão, e nessa exclusão reside a sua determinação mais íntima. Assim, até mesmo a singularidade mais imediata se revela como um ato de negar; o ser que se afirma é, desde sempre, a atividade de se distinguir, de repelir o diferente e, nesse mesmo repelir, constituir-se como si mesmo. 


2 comentários:

  1. descobri que o filme before sunrise foi baseado na história real do diretor Richard Linklater, que conheceu uma moça e passou uma noite inteira com ela. ele fez o primeiro filme esperando que ela encontrasse ele mas nunca houve contato, então fazendo o segundo filme ele descobriu que ela havia falecido num acidente de moto antes mesmo do primeiro filme ser lançado, e o terceiro filme é uma homenagem dele a ela imaginando como seria uma vida com ela

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    1. isso é bem afetuoso, todos esses encontros e o que poderia resultar desses mesmos encontros, eu acho que sei quem é você, e posso dizer o mesmo sobre aquilo que não foi, acabo ficando agoniado em pensar em possibilidades.

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