29/07/2025

O FALO LÍQUIDO NA ECONÔMIA DOS LIKES

Sim, surge nas redes, rubro e viscoso, o Morango do Amor. Não fruta, mas fetiche. Não gesto, mas mercadoria semiótica. Uma explosão de creme branco, líquido seminal de um erotismo pasteurizado, simulacro de fertilidade que apenas insemina o vazio, jorrando do coração vermelho, capturada em vídeos hipnóticos, repetida até a náusea. Uma máquina abstrata de rostificação dos afetos, operando com a precisão cruel do regime significante despótico. Não nos enganemos: este não é um fenômeno gastronómico. É um ritual sacrificial contemporâneo.

O Morango do Amor obedece à lógica do regime significante. Seus círculos concêntricos são evidentes:

 

O Centro Paranóico: O algoritmo das redes, olho absoluto que tudo vê, tudo cataloga, tudo hierarquiza e, sobretudo, tudo deseja por procuração. Ele demanda novidades, "conteúdo viral", engajamento mensurável, um apetite insaciável por libido transformada em dado. O morango é oferenda a este déspota invisível, óvulo simbólico fecundado pelo desejo coletivo capturado, gerando apenas signos estéreis.


A Proibição do Centro: Ninguém acessa o sentido real. O "amor" prometido é tabu, vazio recoberto de chantilly. O acesso à intensidade afetiva é vedado; só resta a casca brilhante do gesto performado. 


A Proibição da Periferia: Não se escapa. Tentar um afeto cru, não mediado pelo signo, é condenado à invisibilidade. O sistema fecha-se: ou se joga o jogo dos likes, ou se é expulso para o deserto da irrelevância.


O morango não é alimento; é substância de expressão. Dá materialidade ao significante "amor" no regime digital. Sua polpa vermelha é a carne do signo abstrato, sua umidade um convite ao gozo espetacular; o chantilly, néctar artificial que reveste o desejo bruto com o verniz da aceitabilidade, sua cobertura branca a máscara da doçura obrigatória. Como o rosto, ele é controle social: vigilância ("vejam como nos amamos!"), publicidade ("compre esta prova de afeto!"), a própria mídia reduzindo o íntimo a espetáculo público. É a "doença da terra" digital: o amor capturado pela lógica da exibição e da métrica.


Neste regime, a verdadeira linha de fuga: o afeto não codificado, o toque sem registro, o silêncio compartilhado sem testemunhas algorítmicas, é imediatamente negativizada. É expulsa como o bode emissário leviano ao deserto, seu odor de verdadeira volúpia, de suor não editado e gemido não sincronizado, ofendendo a esterilidade perfumada do templo algorítmico. Rotulada de "careta", "pouco romântica" ou simplesmente ignorada, ela carrega o peso do que o sistema não pode digerir: a pura imanência do sentir, a recusa em transformar o encontro em content.


Assim, impõe-se a falsa dicotomia corporal do poder: 


O Rosto do Déspota (Centro): A imagem perfeita do casal feliz, sorridente, compartilhando o morango (ou sua variante trend). O sorriso que esconde a mordida, a mão que toca apenas para compor o frame, o desejo esvaziado em prol da pose — a impotência glorificada. O "rosto de deus" projetado sobre o continuum amorfo das redes. A influenciadora de casal, o modelo de relacionamento idealizado. 


O Ânus do Bode (Periferia): O gesto autêntico, não espetacularizado, o desejo que escorre como suco entre os dedos, manchando a toalha e a reputação; o grunhido que rompe o silêncio curatorial, o afeto que cheira a terra e suor, não a filtro e algoritmo, a diferença afetiva irredutível que se recusa ao rosto e ao signo midiático. Expulso como impuro, insignificante, "não postável": exatamente por portar o fermento vivo do real.


O morango opera a trapaça universal deste regime. Promete proximidade, mas produz distância mediada. Oferece a ilusão de escolha: seja o sacerdote da felicidade performada (poste seu morango!). Canaliza a criatividade vital para os saltos histéricos entre trends (#morango, #casalperfeito, #dateidea) ou para a depressão da linha de fuga negada (a sensação de inadequação por não se enquadrar).


Contra esta máquina de captura, ergue-se a única saída digna: a traição. Não a covardia da adesão disfarçada, mas a coragem vertiginosa da semiofagia. O gesto do profeta não é interpretar o morango; é devorá-lo violentamente, dilacerando sua prisão simbólica.


Antropofagia Criadora: "Comer o nome". Não postar o morango. Devorá-lo literalmente, mas fora do circuito de significância. Devorá-lo como lobos no escuro, sem testemunhas, a língua lambendo o creme não como adereço, mas como prelúdio para morder a carne do outro; os dentes rasgando a polpa num ato que é nutrição e posse, fome e entrega, onde o açúcar no lábio é convite, não cenografia. Transformá-lo em pura matéria degustada, em sensação gustativa, e tátil compartilhada na economia subterrânea dos corpos que se exploram mutuamente, longe do panóptico digital, compartilhada no segredo do encontro real, sem câmeras, sem curadoria. Incorporá-lo não como signo, mas como força, como fluxo de açúcar e acidez nas papilas, como riso sujo de suco no queixo do amado/amada. Dissolver sua função representativa num ato expressivo de digestão imanente, onde o gozo não é contabilizado em views, mas em tremores não registrados, em arquejos perdidos na escuridão não filmada. O morango deixa de ser significante (S→S→ rede social) para ser conteúdo-matéria puro, intensidade sensorial no agenciamento concreto dos corpos que se afetam.


Dessubjetivar o Afeto: Recusar o triângulo da servidão voluntária do morango. O Ponto de Subjetivação (o algoritmo que dita o "gesto romântico ideal"); o Sujeito de Enunciação ("Vou postar nosso morango para provar nosso amor!"); o Sujeito de Enunciado (o casal reduzido à função "influencer de relacionamento"). Romper este circuito perverso. Tornar-se "idiota" no sentido grego: aquele que se retira do teatro das identidades afetivas espetacularizadas. O idiota que prefere o cheiro do outro ao seu perfil filtrado; que troca a pose pelo arranhão; que entende que o desejo verdadeiro é um território sem mapa, onde o algoritmo é um invasor cego. Habitar o amor como campo vibrátil de intensidades (admiração, fúria, ternura, cólera, tédio) que circulam sem se fixar no par paradigmático exigido pelo rosto midiático.


Abrir o Espaço Oblíquo: Como o profeta que não encara Deus frontalmente, recusar a pose frontal para a câmera. O verdadeiro afeto habita a diagonal, o desvio, o gesto não planejado, o suspiro roubado que não cabe no story, a mão que desce abaixo da mesa de café, o olhar que não sorri para a câmera mas incendeia a pele, o silêncio não performado. É no espaço oblíquo do "não-postável", no desvio do rosto exigido pela rede, que a linha de fuga ativa se traça. O amor não é o morango perfeito; é o suco que escorre e mancha a camisa, a gota de creme caindo no colo, convite para uma limpeza que é prelúdio da devoração; o grão de açúcar no canto da boca, ímã para uma língua que não busca likes, mas sal; o olhar rápido trocado enquanto as mãos se sujam — rastro material de uma presença que recusa a abstração.


O Morango do Amor é um sintoma do "mundo triste" do significante digital, onde o afeto é tragado pela conotação absoluta (S → S → rede → like → status). Sua promessa é uma mentira essencial: oferece sentido, mas só produz redundância e entropia.


Contra esta espiral de gelo, só resta seguir o exemplo do bode emissário: Carregar o estigma do desejo indomesticado como insígnia de honra. Desertar do círculo. Habitar a polivocidade do afeto e a anarquia do gozo antes que o algoritmo erga seu templo de gelo sobre o continuum amorfo dos corações e os rios subterrâneos da libido sequem sob o deserto dos signos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário