A massa, em sua essência, carrega uma pulsão destrutiva fundamental, que
não é um desvio, mas uma característica constitutiva. Esta pulsão se manifesta
como uma fúria coletiva voltada para a aniquilação de símbolos de hierarquia e
poder. A destruição de estátuas ou monumentos, por exemplo, não é um mero
vandalismo, mas um ato ritualizado de desmantelamento de uma ordem percebida
como opressora, que ecoa diretamente a estética fascista de purificação através
da violência simbólica. Através deste ato, a massa realiza a ilusão fascista de
uma comunidade pura e homogênea experimentando uma libertação simbólica das
distâncias sociais que fragmentam os indivíduos.
No centro deste ímpeto reside o fogo como elemento primordial. Sua
natureza espetacular e irrevogável oferece à massa uma sensação de poder
inigualável e de purificação através da aniquilação. O fogo cresce e consome
tudo ao seu redor, espelhando o desejo da massa aberta de incorporar todos e de
destruir tudo que lhe é hostil. No entanto, tanto o fogo quanto a massa são
fenômenos intrinsecamente efêmeros: seu triunfo é também o momento que antecede
sua extinção.
Uma vez formada, a massa é governada por uma paranoia coletiva inerente
ao imaginário fascista. Ela opera numa lógica binária schmittiana que divide o
mundo entre "Nós" e "Eles", onde o 'Eles' não é um
adversário, mas um inimigo existencial que deve ser eliminado. Desta paranoia
nasce a massa de acossamento, focada na morte de um indivíduo específico
identificado como inimigo. A facilidade de sua formação reside na percepção de
impunidade e na sanção coletiva para o assassinato, que se transforma num rito
de violência onde o risco individual se dissolve no anonimato.
Este ato coletivo de homicídio é alimentado pela ilusão de que, ao matar
o outro, a massa pode afastar a própria mortalidade. Contudo, após a execução,
a euforia cede lugar ao medo. A cabeça cortada da vítima, outrora símbolo de
triunfo, transforma-se num espelho da fragilidade e mortalidade de cada membro
da massa, levando à sua rápida dispersão. Para se manter coesa, a massa de
acossamento necessita de uma sucessão contínua de vítimas.
As execuções públicas são a institutionalização deste impulso. A
sentença de morte só se realiza plenamente com a presença da massa, que é a
verdadeira autoridade por trás do ato. O aparato judicial e ritualístico serve
para canalizar e, ao mesmo tempo, sustentar a coesão da massa através de um
ciclo de violência sancionada, adiando o reconhecimento do vazio e do medo que
seu próprio ímpeto destrutivo revela.

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