09/09/2025

FASCISMO COM VISTAS PARA O HIMALAIA: A MASSA CANETTIANA

 

Recentemente, acontecimentos no Nepal trouxeram à tona a oposição massificada da geração Z contra o governo, sob a alegação de censura às big techs. O cerne desta reflexão, no entanto, não reside em avaliar a autenticidade ou a autonomia do movimento, mas sim em traçar um breve esboço da natureza intrínseca da massa, que é, antes de tudo, fascista em sua essência mais primordial.


A massa, em sua essência, carrega uma pulsão destrutiva fundamental, que não é um desvio, mas uma característica constitutiva. Esta pulsão se manifesta como uma fúria coletiva voltada para a aniquilação de símbolos de hierarquia e poder. A destruição de estátuas ou monumentos, por exemplo, não é um mero vandalismo, mas um ato ritualizado de desmantelamento de uma ordem percebida como opressora, que ecoa diretamente a estética fascista de purificação através da violência simbólica. Através deste ato, a massa realiza a ilusão fascista de uma comunidade pura e homogênea experimentando uma libertação simbólica das distâncias sociais que fragmentam os indivíduos.


No centro deste ímpeto reside o fogo como elemento primordial. Sua natureza espetacular e irrevogável oferece à massa uma sensação de poder inigualável e de purificação através da aniquilação. O fogo cresce e consome tudo ao seu redor, espelhando o desejo da massa aberta de incorporar todos e de destruir tudo que lhe é hostil. No entanto, tanto o fogo quanto a massa são fenômenos intrinsecamente efêmeros: seu triunfo é também o momento que antecede sua extinção.


Uma vez formada, a massa é governada por uma paranoia coletiva inerente ao imaginário fascista. Ela opera numa lógica binária schmittiana que divide o mundo entre "Nós" e "Eles", onde o 'Eles' não é um adversário, mas um inimigo existencial que deve ser eliminado. Desta paranoia nasce a massa de acossamento, focada na morte de um indivíduo específico identificado como inimigo. A facilidade de sua formação reside na percepção de impunidade e na sanção coletiva para o assassinato, que se transforma num rito de violência onde o risco individual se dissolve no anonimato.


Este ato coletivo de homicídio é alimentado pela ilusão de que, ao matar o outro, a massa pode afastar a própria mortalidade. Contudo, após a execução, a euforia cede lugar ao medo. A cabeça cortada da vítima, outrora símbolo de triunfo, transforma-se num espelho da fragilidade e mortalidade de cada membro da massa, levando à sua rápida dispersão. Para se manter coesa, a massa de acossamento necessita de uma sucessão contínua de vítimas.


As execuções públicas são a institutionalização deste impulso. A sentença de morte só se realiza plenamente com a presença da massa, que é a verdadeira autoridade por trás do ato. O aparato judicial e ritualístico serve para canalizar e, ao mesmo tempo, sustentar a coesão da massa através de um ciclo de violência sancionada, adiando o reconhecimento do vazio e do medo que seu próprio ímpeto destrutivo revela.

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